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Jerônimo Monteiro - Capítulo IX

Vapor no cais de Argolas em Vila Velha, descarregando os canos destinados a captar água do rio Pau Amarelo em Cariacica, para abastecim ento de Vitória, 1911. APEES — Coleção Jerônim o Monteiro

Jornalista e advogado, no seu recanto de Santa Rita de Passa Quatro, o Dr. Jerônimo sacrificou, portanto, a posição, ali conquistada, para assumir o Governo da sua terra.

Verificou, então, que "ao lado de uma política extremada, pela grande luta anterior, com profundas dissenções, entre grupos militantes, havia serviços públicos da mais alta importância que reclamavam providência imediata e urgente".

"Era indispensável ordenar, organizar e metodizar todos os serviços administrativos, começar pelo do próprio Presidente do Estado, que teve de submeter-se a uma sistematização rigorosa da sua atividade, sem prejudicar os deveres elementares de expediente, ouvir as partes, os representantes do povo, conferenciar com os seus auxiliares, dispor de tempo para aplicar-se com êxito, aos trabalhos do Governo, o que era preciso fazer, que devia fazer".

Na sequência deste relato, veremos que, no Espírito Santo, de fato, quase tudo estava mesmo por fazer-se, de modo que se apresentou ao novo Presidente um campo vasto para realizações correspondentes ao seu idealismo e à sua extraordinária atividade.

Além disso, eleito, pode-se dizer, por todas as correntes políticas, tudo lhe corria às maravilhas, repetimos, como a um predestinado, apesar dos recursos limitados que teria de dispor, na execução do seu "impossível" programa.

A Lei n° 517, de 24 de dezembro de 1907, orçava a Receita geral do Estado, em 2.889:000$000, ao passo que a Lei n° 518, seguinte, fixava a despesa em 2.979:417$664.

Jerônimo, contudo, não vacilou um instante. Determinou o horário das audiências públicas e, aos seus auxiliares, reservou as terças-feiras, das 18 às 22 horas, para recepção às pessoas que desejassem visitá-lo e à Exma. Família. Tudo porque "contava as horas do dia para dedicar-se, exclusivamente, à a da sua terra".

Além disso, determinou um dia da semana para despachos coletivos, com seus auxiliares diretos, a fim de que todos tivessem melhor conhecimento do que se passava na Administração e pudessem coordenar melhor suas atividades.

Logo, mediante serviços vultosos e duráveis, enfrentou o saneamento da Capital, presa constante de epidemias que afastavam correntes imigratórias, em consequência de notícias veiculadas, até na Europa: "Cólera, bubônica, febre amarela, varíola e outros pavores que enlutavam as famílias e prejudicavam a realização do trabalho coletivo. Flagelos que se alastravam numa cidade sem luz, e sem água canalizada... Fotografias antigas atestam os monômios de utensílios: baldes, latas, púcaros, talhas, etc., no Largo de Santa Luzia, onde se encontrava o mais importante chafariz popular, compensado pelo transporte em pipas, quando não se comprava água, nas canoas do Rio Jucu. Os moradores, perto do Carmo, mandavam apanhar água na Fonte Isabel, na Fonte Grande, a melhor da cidade. Custava a lata 500 réis. Tudo porque "para uma população de mais de doze mil almas, o abastecimento era feito pelos quatro chafarizes que secavam, nas épocas de estiagem, sujeitando os habitantes da Vitória a receber o líquido em canoas, sem a menor condição de higiene. Os canoeiros, ali dentro, tinham os pés!...

Sem água não podia haver esgotos. Eram os dejetos lançados nas valas do Campinho e na maré, em pontos determinados pelas autoridades. E os "tigres" levados, altas horas da noite, pelos encarregados desse nojento ofício.

Acontecia, às vezes, largar-se o fundo dos velhos barris e o coitado carregador, ganhar um “banho" indesejável. Das janelas, jogava-se na rua o que sobrava. Constituía, assim, um perigo o trânsito, nas ruas estreitas, calçadas a "pé de moleque" e escuras, em consequência da iluminação reduzida a lampiões de querosene, distanciados nas esquinas, apagados no plenilúnio, porque o Contrato do Serviço estabelecia essa espécie de homenagem à formosa Rainha da Noite.

A Lua determinava, portanto, a economia de combustível. Seguia-se a folhinha. Não se acendiam os lampiões em noites assinaladas "de luar", mesmo que o mau tempo as tornasse escuras, como demais.

Dizia-se que os candeeiros da Vitória brincavam de esconder com a Lua. E quem precisasse sair, à noite, devia levar, aberto, o seu guarda-chuva, mesmo em pleno luar... Lembremo-nos de que, na falta de um capelão da Santa Casa da Misericórdia, Dom Fernando ia, muitas vezes, pela madrugada, celebrar a Santa Missa e levar o conforto espiritual às Irmãs de Caridade e aos doentes. Munia-se de uma lanterna, para andar nas ruas sujas e atravessar o Campinho medonho, dos princípios do século XX.

No "Manifesto inaugural", de 10 de junho, publicado no dia 11 no "Diário da Manhã", no qual divulgou seu programa de Governo, dizia o Dr. Jerônimo: — “Não se pode conceber uma cidade, de população relativamente densa, desprovida, por completo, dos elementos mais preciosos à comodidade e à vida dos seus habitantes.

"Esses serviços são difíceis e sobremodo dispendiosos, mas se impõem, mesmo com os maiores ônus".

Frisou a péssima impressão causada aos ádvenas e que afastava capitais e dificultava o progresso.

O é preciso, entretanto, estava gravado no espírito do jovem Presidente, embora a terra, quase incógnita no cenário brasileiro, apresentasse uma receita mínima, em face do que seria exigido, para o impulso que a tornaria, verdadeiramente, a Joia do Brasil, segundo a feliz expressão de Moniz Freire.

Logo, Jerônimo iniciou visitas aos diversos pontos da cidade, aos Colégios, à carril-Suá, às repartições públicas, ao aterro da Vila Moscoso, etc., a fim de conhecer-lhes a situação. Na Vila Moscoso, o Campinho dos nossos avós, inspecionou os trabalhos de saneamento e drenagem, contratados com os Drs. Pedro Bosísio e Lucas Bicalho. E as visitas continuaram ao Tesouro, ao Ginásio Espírito-Santense, ao Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, a Inspetoria de Higiene. O Presidente informava-se de tudo. A 23 de junho, visitou o Quartel de Polícia e a Cadeia Pública, onde conversou com os presos e os ouviu, carinhosamente, de modo a confortá-los, na sua desdita. Estava o quartel em péssimo estado e a cadeia verdadeiro lugar de martírio! Mesmo porque o quartel foi construído em lugar pantanoso, com a falta do necessário preparo da base.

A 29 de maio, foi nomeado o Prof. Carlos Mendes para o cargo de diretor da Instrução Pública.

Determinou o Presidente a publicação do Balancete da Receita e da Despesa, durante a semana. E que o pagamento do funcionalismo partisse dos aposentados e continuasse com os menos favorecidos — soldados, porteiros, serventes, contínuos, etc., em ordem crescente, de modo que o chefe do Governo fosse o último a receber seus vencimentos. — "Os mais precisados devem ser os primeiros a ser atendidos. O Presidente pode e deve esperar". Além disso, o pagamento dos Ministros da Corte de Justiça e dos Deputados, por determinação do Presidente do Estado, passou a ser feito, diretamente, nas respectivas Casas, em consideração à grandeza dos seus cargos, à dignidade dos Poderes Judiciário e Legislativo.

(Na Redação destas linhas, recordamo-nos do abalo sofrido por um desembargador aposentado, quando, no primeiro dia de pagamento, na situação de inativo, teve de entrar na fila de velhos, cegos, trôpegos, trêmulos, maltrapilhos, etc.!... Saiu desesperado e passou procuração a um filho, para receber os pagamentos seguintes.

Muita gente que pode vai no outro dia, ao término dessa provação).

* * *

A cidade da Vitória entrou em novo ritmo que entusiasmava todas as classes. Assim, em 9 de junho, um comerciante, em nome de seus colegas, pedia a criação de um banco, ou o estabelecimento de uma sucursal de um dos bancos do Rio de Janeiro.

O primeiro banco instalado na Vitória foi o The London & River Plate Bank Limited, — o Banco Inglês de sempre, que iniciou sua operação a 28 de janeiro de 1910, no prédio da Rua da Alfândega, n° 6. A Prefeitura isentou-o do pagamento de impostos municipais por dois anos.

A 2 de novembro de 1908, pelo Goiás, chegou à Vitória o Dr. Augusto Ramos, acompanhado pelo Sr. Cícero Bastos, para estudar os meios de abastecimento de água na Vitória. Com o Dr. Ceciliano foi ao Jucu ver os trabalhos iniciados. A 11, assinou o contrato, para execução dos Serviços de Água, Luz e Esgotos, por 2.100:000$000, pagáveis em prestações. No dia 13, o Presidente do Estado mandou ao Congresso Legislativo a Mensagem em que lhe submetia a aprovação do mesmo contrato, que se realizou a 21. Obrigava-se o Dr. Augusto Ramos a fazer o abastecimento aproveitando o Rio Jucu. Aduziria até o reservatório do Morro Santa Clara, 2.400.000 litros, em vinte e quatro horas. Mas, por sugestão do Cel. Francisco Carlos Schwab Filho, de Cariacica, resolveu-se, depois, captar o Rio Duas Bocas, ou melhor, suas cabeceiras denominadas Pau Amarelo. Por isso, a 6 de agosto de 1909, firmou-se aditamento ao mesmo contrato. Obrigou-se, então, o contratante a aduzir 3.600.000 litros diários, abreviar o prazo para a conclusão das obras, levantar a planta cadastral e topográfica da Vitória, etc.

Enquanto, porém, aguardava os estudos preliminares e a aprovação do referido contrato, o Dr. Jerônimo tomou diversas providências: cuidou de instalar aparelhos sanitários no Palácio do Governo e nas repartições públicas, pelo sistema de fossas, comissionou o Eng. Pedro Bosísio para captar os mananciais existentes na Ilha e canalizá-los para esses lugares e para as escolas, de modo a servi-los, até que fossem realizados o abastecimento de água e a rede de esgotos. Providenciou, igualmente, a distribuição de água em carros-pipas às residências. A 22 de outubro, o Sr. Antenor Guimarães restabeleceu esse serviço, a 50 réis o barril. Como antes tivera prejuízo, o Governo deu-lhe uma subvenção compensadora, que restabelecesse a distribuição.

A 4 de julho do mesmo ano de 1908, chamou ao Palácio o Dr. Ceciliano Abel de Almeida e confiou-lhe os estudos preliminares sobre o abastecimento de água à Vitória.

No discurso de Posse, na Academia Espírito-Santense de Letras, o saudoso Dr. Carlos Sá, ao referir-se a essa passagem, disse: "O Espírito Santo, meus senhores, rendia, naquele tempo, 2.500$000 anualmente". O Dr. Jerônimo sorriu (diante das ponderações do ilustre engenheiro sobre as dificuldades financeiras e o plano gigantesco apresentado pelo Presidente) e, esfregando as mãos, num hábito seu, replicou, cheio de entusiasmo: —

"Vá iniciar, já e já, Dr., o seu trabalho e deixe que o dinheiro há de aparecer. Eu hei de cumprir tudo o que prometi à minha gente".

Ocupou, o Dr. Ceciliano, o cargo de diretor da Repartição de Obras e Empreendimentos Públicos, no lugar do Dr. Antônio Araújo Aguirre, que assumiu o de diretor do Núcleo Afonso Pena. A nomeação do Dr. Ceciliano datou de 19 de agosto.

"Decorrido algum tempo", continua Carlos Sá, "nas visitas diárias, geralmente, às primeiras horas do trabalho, pois o Dr. Jerônimo era madrugador, embora trabalhasse até alta noite, repetia sempre, quando o serviço estava adiantado: — ‘Então, Dr. Ceciliano, o dinheiro?’ E terminava, sorrindo: Afinal, o dinheiro apareceu".

Mas todo o material empregado nas obras tinha de ser da melhor qualidade, importado da Europa: manilhas de esgotos vidradas, de modo que, decorridos sessenta e dois anos quase, agora, com a escavação das ruas, para o reforço da drenagem, apresentam-se ainda perfeitas, e os canos para a água sofreram apenas deterioração, em consequência da "renovação" constante do calçamento das ruas, pelo peso dos veículos e outras consequências da vida urbana moderna.

A 13 de março de 1909, pelo navio alemão Assuncion, chegaram de Antuérpia seiscentos e oitenta e nove tubos de aço, destinados à condução da água para a Capital, cinco barricas de asfalto, dois fardos de juta, dois barris de bastões de madeira, vinte e oito sacos de cordas de cânhamo, duas caixas de isoladores e oitenta e cinco peças de acessórios, para os trabalhos relativos à água e à luz elétrica.

O navio trouxe, ainda, dezoito volumes, contendo peças de chafariz, candelabros, grelhas, etc., para a ornamentação da Praça Santos Dumont. O ancoradouro foi o Cais da Leopoldina, conforme fotografia existente no Arquivo Público do Estado. E o fato entusiasmou os demolidores céticos — Vitória teria os melhoramentos prometidos pelo Dr. Jerônimo.

A 17 de maio seguinte, o "Comércio do Espírito Santo" noticiava que o vapor alemão Macedônia trouxera de Antuérpia duzentos e oitenta e seis volumes de lâmpadas, fios de cobre e aparelho para iluminação elétrica; quinhentas peças e duas barricas com dispositivo de ferro, automáticos, e pertences para bombas elétricas; quinhentos e cinquenta amarrados e setenta e cinco caixas, com chumbo, para o serviço de água.

O povo se entusiasmava. A casa Teixeira & Guimarães tratou logo de importar material adequado à nova era e futuros trabalhos que se apresentariam.

Mas não havia ponte. Deviam os canos passar pelo fundo do mar, de Guaiamum até Santo Antônio. Trabalho duro, difícil e dispendioso!...

Ressaltemos, nesta passagem, que ao assumir o Governo, a 23 de maio de 1908, o Dr. Jerônimo encontrara, na escrituração do Tesouro, a quantia de 466:568$391.Calculou, entretanto, o equilíbrio do Erário e extinguiu todas as despesas desnecessárias e os lugares cuja supressão imediata não acarretasse prejuízo ao Serviço Público. A oposição gritou que "era a derrubada"!... Tratava-se, porém, de medida necessária porque: "Estava feito e ultimado o empréstimo externo de 1908, e sobre ele já havia o meu antecessor sacado a importância de 120 francos", disse o Dr. Jerônimo, na Mensagem de 1912. (Quem escreve estas linhas sabe da oposição do novo Presidente do Estado a que o seu antecessor realizasse esse empréstimo. Foi uma tristeza para o Dr. Jerônimo!)

* * *

Apesar da energia dessas medidas, ninguém ficou ao desamparo ou desocupado, porque as desacumulações abriram vagas e, atacados os serviços de água, esgotos e energia elétrica, o estímulo generalizou-se, operários surgiam de todos os cantos, cada qual utilizado, segundo suas habilitações ou seus ofícios. À cidade da Vitória chegavam ferreiros, bombeiros, carpinteiros, pedreiros, pintores, etc. Um exército de operários! E nos bancos das farmácias (lugar predileto sempre das conversas antigas), nas praças, nos cafés, nas reuniões familiares tão gostosas daquele tempo, antes do rádio e da televisão, fervilhavam os comentários.

Generalizou-se ainda o estímulo, com a presença do Presidente do Estado, que aparecia aqui e ali, empolgado pela realização do seu programa genial. Aparecia para certificar-se da qualidade superior do material empregado e do progresso deste ou daquele trabalho. Isso porque o Presidente distinguia-se pelos seus predicados, pela formação complexa: era jurista, engenheiro, artista e administrador... O Dr. Jerônimo tudo conhecia. Preparara-se, de fato, para a obra que se propunha a realizar: o soerguimento do Espírito Santo. Atacados os trabalhos de tal forma, houve a 22 de setembro de 1909 uma experiência preliminar, que movimentou a população: Altas horas da noite, acenderam-se as lâmpadas na cidade. Inesperado, o clarão arrastou às ruas pessoas despertadas, de surpresa. Muitas correram a apreciar, de perto, o efeito da luz elétrica; outras ficaram nas janelas, enquanto se juntavam populares a percorrer as ruas, aos vivas!... e foguetes.

E, no dia seguinte, não se tratou de outro assunto. "A luz!". Era a exclamação, nos encontros dos amigos e compadres, das senhoras, etc.

Para o dia 25, estavam programadas as inaugurações do Grupo Escolar Gomes Cardim, da água e da luz. Às 12:30 horas, o Presidente do Congresso, Dr. Paulo de Melo, e os Srs. Deputados dirigiram-se ao Palácio do Governo, a fim de se reunirem ao Presidente do Estado que, junto aos seus auxiliares diretos, os aguardava. Desceram todos a escadaria, a velha escadaria do Paço Provincial, construída em 1883. Tomaram três bondes especiais que partiram para a Rua Pereira Pinto, onde estava o novo estabelecimento cujas aulas funcionavam, desde o dia 13 de julho, sob a direção do Prof. Francisco Loureiro, latinista apurado, que frequentara o Seminário São José, na Corte.

A inauguração festiva foi inesquecível. E o Dr. Jerônimo declarou dar o nome de Gomes Cardim ao novo Grupo Escolar, em homenagem ao reformador do ensino, em nossa terra. A menina Ilda Grijó recitou uma poesia e outra, Ana do Carmo Loureiro, saudou o Presidente. Às 15 horas, o Dr. Jerônimo e sua ilustre comitiva regressaram ao Palácio.

Às 17:30 horas eram, festivamente, inauguradas a luz e a distribuição de água, na Capital do Estado. A da água realizou-se no Morro de Santa Clara, para onde foram o Presidente, o Cel. Henrique Coutinho, especialmente convidado, e grande comitiva. A onda popular tomou a ladeira. Os melhores trajes saíram dos armários. Bandas de Música! Foguetes espocavam! Girândolas!...

Fácil de imaginar-se o delírio do povo... da multidão..., enquanto naquele momento de verdadeira glória o Dr. Jerônimo, em ligeiro discurso, num preito de consideração ao Poder Legislativo, confiava-lhe os atos oficiais de abertura dos registros que fizeram jorrar a água. E começaram os discursos. Usou da palavra o Dr. Afonso Cláudio de Freitas Rosa, interrompido pela vibração dos aplausos, palmas e vivas!... Uma alegria alucinante!

Dirigiram-se, depois, para a Convertidora, para a inauguração da luz elétrica. Ainda é o Presidente da Assembleia, Dr. Paulo de Melo, que faz a ligação da chave de iluminação. Acenderam-se todas as lâmpadas na cidade, enquanto espocavam foguetes, exclamações e lágrimas confirmavam o adágio de que "a alegria também faz chorar". Adágio, sim, definido, porém, com erudição, nas páginas penetrantes e belas de "O Mundo Interior", quando Farias Brito descreve o ressurgir inesperado de sentimentos estranhos que dormiam, ignorados, nos recônditos da alma: — "Lágrimas rebentam, em certos momentos, instintivamente, violentamente e incontidas, perante uma emoção estética profunda".

Haverá, prezado leitor, emoção estética imensa, intensa, capaz de suplantar a que sentimos, na realização de um sonho, de uma esperança, quase ao limiar da desilusão?!

Sim, o Dr. Jerônimo Monteiro, com razão, em discurso proferido na Câmara Federal, a 31 de agosto de 1915, disse que o povo até aquele momento não acreditava em promessas, porque já estava acostumado a ouvi-las e não ter a ventura de vê-las cumpridas.

De fato, o problema da água, na Vitória, desde meados do século XIX, era um problema dos governos. Constituía mesmo um fato extraordinário, qualquer realização, nesse importante setor da Administração Pública, tanto assim que, a 2 de dezembro de 1855, cantou-se um Te Deum, na Capela Nacional, às 13 horas, quando se inaugurou o encanamento da Fonte Grande, para um chafariz. E, a 15 de maio do ano seguinte, quando a Irmandade de São Benedito inaugurou outro chafariz, na base do Morro de São Francisco, o Pe. João Luís da Fraga Loureiro honrou o empreendimento com um soneto:

 

Nunca deixou de ser dia mui grato

O do grão Benedito Franciscano

Risonho sempre foi, mas este ano

Famoso se tornou, por mais um fato

 

O Aleixo imortal, firme o Torquato

Dotaram, neste dia, soberano

O Partido leal C’ramuruano

C’um monumento de elegante ornato

Um chafariz de finíssima escultura

De gosto singular, gosto excelente

À hora festival teve a abertura

Decorou este ato o Presidente

A música deu brilhante partitura

Com aplauso geral de toda a gente

E, nas recepções oficiais, inaugurações públicas, saraus, etc., em lugar de champagne, guaraná e outras bebidas atuais, programava-se um “profuso copo de água".

Na República, foram celebrados contratos, com a Companhia Torrens, e com o Sr. Augusto Cruz, para o mesmo fim. Surgiram, por isso, os mais variados comentários, quando, em 1909, a água do Pau Amarelo jorrou, na Praça Santos Dumont, porque “A Vitória do Dr. Moniz Freire, a Vitória do Cel. Lírio, era, então, a Vitória do Dr. Jerônimo”.

Alguém exclamou, quando se acenderam as lâmpadas: — "Vitória parece um presépio".

O Dr. Jerônimo estava coberto de pétalas de flores.

Tudo porque a energia e a clarividência desse homem, que transformava a cidade, com a colaboração de um brilhante grupo de auxiliares, ia levantando um altar, no coração do povo espírito-santense, sacrário onde se abrigou para viver, até hoje, a imensa gratidão ao seu grande Administrador, que lhe realizou uma esperança quase transfigurada no desespero da desilusão.

Quantas cabeças curvaram-se, nas torneiras, para sentir o frescor da água, como se procurassem um atestado da esperança realizada, um batismo da civilização?

Um Senhor foi comprar uma lâmpada. — "De quantas velas?, inquiriu o negociante. A defender logo sua posição no progresso, respondeu-lhe o interessado, meio ofendido: "Não preciso mais de velas. Quero uma lâmpada!"

Numa reunião de aniversário, no melhor dos parabéns, uma rajada levanta as cortinas e balança o lustre ao centro do teto. Rápido, a dona da casa salta a fechar as janelas... Oh!, exclama enleiada e satisfeita, enquanto a assistência bate palmas ! (Era o hábito antigo. Receio de que o lampião se apagasse).

* * *

Vimos que o Dr. Jerônimo reservara as terças-feiras para recepções sociais, a fim de congregar as famílias vitorienses e relacioná-las com a sua própria família. Havia música, recitativos, canto.

Nas datas nacionais, que recordavam passagens magnas do Brasil e do Estado, o baile distinguia-se pelo elemento feminino, ao rigor da moda, com flores nos penteados, joias e leques maravilhosos!...

Ali, estavam as senhoritas Alice e Henriqueta Cerqueira Lima, Laura e Silvia Lindenberg, Cecília e Albertina Calazans, Violeta Nunes, llda e Maria Pessoa, Ruth Wanderley, as Catarinenses e muitas outras, bonitas e elegantes, que dançavam, enquanto as senhoras formavam o círculo de "ver-a-dança" e apreciavam o desfile daquela mocidade radiosa — o belo sexo, de então, brotos, de hoje.

Na apurada elegância dos fraques e ternos, distinguiam-se os pares indispensáveis ao baile: — Pérsio Goulart, José Bernardino Alves Junior, Carlos Xavier Pais Barreto, Luís Benedito Ottoni, José Rodrigues Sette, João Manuel de Carvalho e muitos outros, que encontravam, no querido Presidente, apoio e direção para a vida.

 

Notas:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

 

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