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Jerônimo Monteiro - Capítulo XIII

Fazenda Sapucaia, Cariacica (1910). APEES — Coleção Jerônimo Monteiro

Estendeu-se a Reforma do Ensino a todos os recantos do Estado, com mobiliário adequado e farto material escolar, prédios para Grupos Escolares, em Cachoeiro do Itapemirim, Santa Leopoldina e São Mateus; curso complementar, já referido; e escolas isoladas, noutros pontos de população menos densa. Tudo fiscalizado e nos moldes da Capital, tudo gradativo e bem dirigido, com o predomínio da língua portuguesa nas escolas particulares, frequentadas pelos descendentes de imigrantes.

Na "Mensagem" de 1912, lê-se que:

a Reforma introduzida, num estreitíssimo período de dois meses, encontraria aceitação do público, constituindo as novas escolas centro de atração e de convergência da população infantil da nossa Capital.

Nelas, matricularam-se crianças que se conservavam afastadas das escolas, pela nenhuma confiança que o ensino nelas ministrado inspirava aos seus genitores, que, de preferência, as entregavam aos cuidados de professores particulares.

O aumento da matrícula e, sobretudo, da frequência escolar sofreu logo benéfica e extraordinária modificação, elevando-se a matrícula de 710 a 932 alunos, e a frequência, de 572 a 867.

Após referir-se às despesas com esse trabalho ingente, conclui:

Os grandes sacrifícios, no presente, terão, no futuro, compensadora reprodução, no preparo e no levantamento intelectual da nova geração preciosa esperança e valioso penhor de nossa civilização. Os bons resultados do novo método e da boa organização do ensino são, a cada passo, testemunhados, não só pelos próprios pais de alunos, como por todos os que, de ânimo desapaixonado, se dão ao pequeno trabalho de observá-los, em nossas escolas.

Refere-se, depois, à educação física e aos sentimentos cívicos despertados constantemente, pela recordação dos nossos grandes feitos e dos nossos dignos e venerandos antepassados.

Deve-se ao Dr. Jerônimo a formação cívica dos espírito-santenses, descendentes de estrangeiros, que, nas colônias, ignoravam o nosso idioma. Recusavam-se, mesmo, a cantar o Hino Nacional e a canção Sou Brasileiro, porque, diziam, eram italianos, de Alfredo Chaves; outros, alemães nascidos em Rio Fundo.

Subiam ao céu do Espírito Santo hinos pátrios, Hino Nacional, Sou Brasileiro e outros, ao passo que as festinhas escolares criavam, no mundo infantil, verdadeira fascinação pelo estudo e a consciência dos deveres morais e cívicos. E, em tudo, aparecia o Dr. Jerônimo, acariciando as crianças, estreitando-as à grandeza do seu coração, vivendo, modesto e feliz, páginas áureas de Coelho Neto, resumidas em que "a educação é uma arte de amor; realizá-la é colaborar com Deus completando-lhe dignamente a obra".

Em 1909, o Governo promoveu o primeiro Congresso Pedagógico do Espírito-Santo, que se instalou no dia 8 de junho. Coube ao Prof. João Sarmet a primeira tese. Dissertou sobre A Palavra. Outros oradores, como o Prof. João Nunes, a Profa Marieta Calazans, os Profs. Carlos Mendes, Amâncio Pereira, Osmédia Fonseca e os Drs. Diocleciano de Oliveira e Antônio de Andrade e Silva trataram de temas deveras sugestivos, relacionados com suas especialidades no magistério. E os comentários abalavam a cidade. Todos se voltaram para a Pedagogia. Nenhum compêndio de Compayré e Carré et Liquier ficou nas estantes.

Atendeu, igualmente, o Dr. Jerônimo aos pendores artísticos dos seus conterrâneos e criou o Instituto de Belas Artes, para as vocações que se estiolavam, sem recursos de orientar-se e desenvolver-se. Esse Instituto resultou da Lei n° 616, de 11 de dezembro de 1909, e o contrato pelo Governo e o Prof. Carlos Reis, para dirigi-lo, firmou-se a 30 de dezembro. A 11 de março de 1910, o Decreto n° 595 deu-lhe Regulamento. Iniciaram-se as aulas no dia 19.

Muito concorreu o Instituto de Belas Artes para estimular as vocações artísticas, na Vitória. No Parque Moscoso e nas praias, seus alunos pintavam ao ar livre, ao passo que, no grande salão onde fora instalado, a frequência era vultosa. Duas vezes na semana, havia aulas noturnas para as pessoas impossibilitadas da frequência diurna.

Duzentos trabalhos foram expostos, quando o Marechal Hermes da Fonseca visitou o Espírito Santo, em 1911. E tão bem impressionado ficou o então Presidente da República, que formulou o desejo, verdadeira ordem, para que os mesmos trabalhos fossem levados ao Rio de Janeiro e expostos na Associação dos Empregados do Comércio. S. Exa. prestigiou a exposição, inaugurando-a pessoalmente.

Reduzida a verba destinada ao Instituto, no Governo do Cel. Marcondes Alves de Sousa, para a economia de 7:800$ 000, o Prof. Carlos Reis pediu demissão do cargo de diretor e regressou ao Rio de Janeiro. Três horas após, estava nomeado para um cargo muito melhor, pois, em um mês, ganhava mais que durante um ano inteiro, no Espírito Santo.

                                     * * *

Faltava, porém, uma parte do grandioso programa educacional do Dr. Jerônimo de Sousa Monteiro. Na sua magistral Plataforma, dizia ele:

Incumbe ao Governo, pela fundação de escolas técnicas, que não ministrem só o ensino clássico, fazer desenvolver as qualidades práticas dos alunos, habilitando-os para empreender logo um trabalho produtivo, no terreno industrial, mercantil e agrícola.

É necessário banir de vez a crença de que só as profissões liberais podem garantir vitória, na luta pela existência e de que só elas proporcionam uma posição de superioridade e saliência na sociedade. "A nossa mocidade deve ser preparada e aparelhada para o embate no campo das indústrias, do comércio e da agricultura, onde está travada a luta pela expansão econômica procurada e reclamada por todos os países".

De acordo com esse programa, a 21 de maio de 1909, o Governo adquiriu a Fazenda Luduvina, a quatro quilômetros de Cariacica, para o ensino agrícola. Denominou-a Fazenda Sapucaia estabelecida oficialmente, segundo o Decreto n° 381, de 3 de julho, embora iniciada, desde 31 de maio, sob a direção do Sr. Agostinho Marciano de Oliveira, contratado em Minas Gerais. Foi inaugurada, festivamente, a 4 de dezembro.

                                     * * *

Ao receber o telegrama do Ministro da Agricultura sobre a possibilidade de o Estado oferecer um prédio para uma Escola de Aprendizes Artífices, a ser criada no Espírito Santo, o Dr. Jerônimo apressou-se em responder que desejava que fosse o Estado um dos primeiros a utilizar-se da feliz iniciativa do Presidente Nilo Peçanha, ao instituir o Ensino Profissional. Pôs à disposição do Ministério um prédio espaçoso, com a afirmativa de, no futuro, construir outro adequado à nobilíssima finalidade. A Escola de Aprendizes Artífices do Espírito Santo, dirigida pelo Dr. José Monjardim, inaugurou-se a 24 de fevereiro de 1910, na Rua Presidente Pedreira. Atualmente, é a Escola Técnica da Vitória, em Jucutuquara.

Em 1909, já existiam no Espírito Santo, 134 (cento e trinta e quatro) escolas primárias, com a matrícula de 4.535 (quatro mil quinhentos e trinta e cinco) alunos.

De acordo com a autorização constante da Lei n° 547, de 28 de novembro de 1908, o Dr. Jerônimo, pelo Decreto n° 373, de 19 de junho de 1909, criou três escolas-modelo de agricultura. E todo o ensino agrícola era supervisionado pelo Dr. Fidélis Reis, posto à disposição do Estado, pelo Ministério da Indústria. Por isso, junto à Fazenda Sapucaia, estava o Aprendizado Agrícola, para meninos pobres, que se instruíam gratuitamente, para a garantia de um futuro laborioso e útil.

Cogitou o Dr. Jerônimo, ainda, do Aprendizado São José, que seria iniciado com o produto dos presentes, que o povo lhe oferecera. Mandou, para isso, avaliá-los e depositou, nas mãos do Sr. Bispo, a quantia de 1:743$000, conforme recibo que Dom Fernando assinou, a 22 de maio de 1912. Seria um instituto de ensino prático, de artes, ofícios, agricultura, etc., para meninos pobres, com internato e externato.

Logo, o Sr. Dr. Hércules Campagnole & Irmãos subscreveram a quantia de 1:270$000. E os Srs. Welszflog & Irmãos, 1:000$000.

A consagração do Aprendizado a São José significava "um testemunho público e permanente, por mim, prestado ao grande Protetor dos Aprendizes e à bela e edificante Religião Católica, que tanta paz e tão sublimes alegrias proporcionam aos nossos espíritos" — escreveu o Dr. Jerônimo, na "Mensagem" de 1912.

Para a fundação desse instituto, havia Dom Fernando providenciado a Fazenda Piabanha, no Itapemirim. A morte colheu-o antes dessa realização!...

Assim, para o Dr. Jerônimo, a educação dos seus conterrâneos devia ser completa. Sonhara o saudoso Presidente proporcionar lhes todos os recursos, para iniciativas futuras.

Concluída a Reforma do Ensino, o Prof. Gomes Cardim retirou-se para São Paulo. Foi substituído pelo Dr. Diocleciano Nunes de Oliveira, nomeado Inspetor Geral do Ensino Público, a 8 de janeiro de 1910. Conhecida de todos foi sua dedicação à Escola Normal do Estado, onde passava o dia inteiro. Às 7:30 horas, lá estava e a tudo atendia, até a saída do último funcionário, à tarde, aliando sempre energia à bondade. Eram lindas as festinhas "Hora de Arte", que promovia, no palco das Escolas Normal e Modelo, para cultivar as vocações artísticas e literárias dos estudantes, que frequentavam os diversos cursos: normal, complementar e primário. Foi grande amigo e devotado auxiliar do Dr. Jerônimo. Faleceu a 3 de março de 1919.

Desse modo, com a colaboração de Gomes Cardim, Diocleciano de Oliveira e outros, o Dr. Jerônimo estava realizando o que sonhara, no grande Estado Bandeirante e na visita a Minas Gerais, quando percorria seus estabelecimentos de instrução.

E apresentava-se o Espírito Santo no segundo lugar, no Brasil, quanto à organização do ensino, suplantado apenas pelo seu padrão — o Estado de São Paulo.

 

Nota:

 

A presente obra da emérita historiadora Maria Stella de Novaes teve sua primeira edição publicada pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo -APEES, em 1979, quando então se celebrava o centenário de nascimento de Jerônimo Monteiro, um dos mais reconhecidos homens públicos da história do Espírito Santo.

Esta nova edição, bastante melhorada, também sob os cuidados do APEES, contém a reprodução de uma seleção interessantíssima de fotografias da época — acervo de inestimável valor estético-histórico, encomendado pelo próprio Jerônimo Monteiro e produzido durante o seu governo — que por si só, já justificaria a reimpressão, além do extraordinário conteúdo histórico que relata.

 

 

Autora: Maria Stella de Novaes
Fonte: Jerônimo Monteiro - Sua vida e sua obra
2a edição Vitória, 2017 -  Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (Coleção Canaã Vol. 24)
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2019

 

 

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