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José versus José – Por Pedro Maia

Pedro Maia - Jornalista

José Gonçalves era um operário comum e como todo mundo sonhava com dias melhores. Trabalhava muito e suas folgas eram quase todas consumidas à frente da televisão do hotelzinho onde morava. Na sua terra, no interior, nunca havia visto uma. Por isso se embevecia frente ao colorido do aparelho, perdendo a noção das horas, mergulhado no mundo de fantasia bem diferente da realidade que enfrentava em seu dia a dia.

Um outro José, o José Francisco, era soldado da polícia e se orgulhava disso. Nascera no subúrbio e como todo suburbano enfrentava as durezas de uma vida difícil, onde o orçamento da família é sempre ameaçado pela ganância de uns poucos. Conseguira ingressar na Polícia Militar e estava a caminho de uma merecida promoção, graças ao seu esforço neste sentido. Como o outro José, ele também sonhava com dias melhores.

José Gonçalves, o operário, estava feliz. Recebeu seu primeiro pagamento com aumento depois de uma brava luta de seu sindicato de classe. Mesmo sendo adverso a bebidas achou que naquele dia seria bem gratificante gastar uma grana com umas cervejinhas, como todo mundo fazia de vez em quando. Afinal era agora um operário de primeira, sindicalizado, e ganhando um salário que, para de, do alto de sua ingenuidade provinciana, era compatível com o seu trabalho, considerado uma sopa se comparado com a dureza do interior.

O outro José — o policial — também estava satisfeito naquele dia. Ele havia sido escolhido, entre dezenas de outros, para formar o grupo especial que ia trabalhar à paisana, dando apoio a investigadores civis nas caçadas a marginais nos bairros mais pesados da cidade. Para ele aquilo foi mais que uma promoção: era o reconhecimento de seus superiores pelo seu esforço durante todo o tempo que patrulhava as ruas da cidade, formando dupla com colegas de farda. Serviço enfadonho e difícil. Horas e horas de caminhadas a pé, sem nenhum encanto ou ação. E ação era o que José queria. Ele sonhava em ser um grande policial e seu principal desejo era encontrar um bandidão, procurado pelos quatro cantos, e prender a fera depois de uma movimentada troca de tiros. Esta era sua fantasia preferida e por vezes perdia horas limpando o pesado trinta-e-oito de serviço, imaginando como seria o seu primeiro entrevero sério no combate ao crime.

José Gonçalves, o operário, naquela noite vestiu a melhor roupa que dispunha, passou brilhantina nos cabelos, engraxou os sapatos e saiu para a rua. Era um brasileiro, senão feliz, pelo menos satisfeito consigo próprio. Levava nos bolsos uma parte do salário destinado à comemoração pessoal e solitária.

José Francisco, o policial, por sua vez se certificou que o revólver estava carregado, colocou a arma na cintura e procurou disfarçá-la ao máximo. Depois trocou as pesadas botas de serviço por um par de chinelos e vestiu uma camiseta de malha. Estava pronto para o serviço. Mirou-se no espelho do seu guarda-roupas de solteiro e ficou satisfeito com o que viu. Ninguém diria que ali estava um policial. Só então se considerou pronto para sair em sua primeira caçada importante na companhia do pessoal da pesada, os canas-duras da Civil. Todo mundo gente com muita experiência e com muitas prisões de bandidos registradas nas fichas de serviços. José estava realizado.

Os dois Josés se encontraram no início da noite, em um boteco próximo ao hotelzinho onde o José operário morava.

José, o operário, olhou para José, o policial, e de pronto sentiu que ali estava um assaltante. José, o policial, por sua vez percebeu quando o outro saiu do bar apressado na tentativa de evitá-lo.

Naquele momento forjava-se mais uma tragédia que depois ninguém explica. Então formam-se inquéritos, crucificam-se inocentes e procura-se consertar o que nunca vai ter conserto.

José, o operário, pensando tratar-se de mais um assalto correu do outro José, que viu ali a realização de seu sonho: a captura de um marginal perigoso. Foi aí que, entre os gritos, se ouviu um disparo. Momentos depois José Gonçalves era um operário morto e José Francisco era um policial fracassado e marcado para sempre em sua carreira, que acabava sem ter começado.

E o pior veio depois: os velhos policiais tudo fizeram para disfarçar o que realmente tinha acontecido. Arranjaram até um revólver para José, o operário, que de arma só conhecera em toda sua vida as velhas chumbeiras de matar passarinho no interior. José o policial, ficou como perdido em meio a todo aquele envolvimento e seu nome galgou as manchetes servindo de alvo para toda descarga acumulada por uma comunidade insatisfeita.

José, o policial, talvez continue sendo policial. Porém nunca mais será o mesmo homem, isto é certo...

 

Capa: Helio Coelho e Ivan Alves
Projeto Gráfico: Ivan Alves
Edição: Bianca Santos Neves e Lúcia Maria Villas Bôas Maia
Revisão: Rossana Frizzera Bastos
Produção: Bianca Santos Neves
Composição, Diagramação, Arte Final, Fotolitos e Impressão: Sagraf Artes Gráficas Ltda
Apoio: Lei Rubem Braga e CVRD
Fonte: Cidade Aberta, Vitória – 1993
Autor: Pedro Maia
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2020

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Paulo Marreco surfa há mais de 25 anos. Desde 2007, mantém uma coluna no maior portal de surfe do Espírito Santo, onde escreve contos e crônicas que retratam o universo do surfe 

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