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Judith Castelo Ribeiro

Judith Castelo Ribeiro

Eram treze irmãos. Todos vieram do interior e ficaram numa casa de sobrado, na extinta Rua José Marcelino, podia se dizer, engaiolados. Entre o bando de crianças estava JUDITH LEAO CASTELLO RIBEIRO que, muitos anos depois, se consagraria como política e valorosa parlamentar. Eles passaram a ocupar uma casa de sobrado, na extinta Rua José Marcelino, onde o sonho de todos era a chegada do período de férias quando, metidos numa canoa, deixavam o Cais Schmit. A embarcação mais parecia uma palha à flor da água. Depois, a beleza azul e branca do Santa Maria, que se arroga o direito de fazer ondinhas. Adiante, as escuras águas do Una, como bem assinala o nome indígena. Aí, a canoa passava por cima da vegetação aquática. Nenúfares brancos, iguais a xícaras, sobre folhas redondas, verdes, picotadas de vermelho, cenário maravilhoso que ainda hoje povoa a mente saudosa de dona JUDITH.

Depois, a estrada, velha conhecida, um carro de bois, todos dentro dele. A Serra aparecia, horas depois, lá embaixo, no pé da ladeira do Saco.

Tempos felizes, recorda hoje JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO com saudade, o congo a ensaiar nas caladas da noite, anunciando a festa de São Benedito, o mastro percorrendo as ruas em procissão até ser, afinal, "enficado”. As lágrimas corriam pelo rosto dela, chorando por uma saudade que ela mesmo não entendia.

Em janeiro, o segundo mês de férias, em Jacaraípe, onde seu coração pulsava, ao rever, de memória, o mar, as praias festonadas de campânulas dos cipós floridos! Sentia, não sabia como, o cheiro de salsugem vindo da brisa do mar. Tinha nítida, nos olhos, a imagem das algas crespinhas, verde-mar, aos montes, na praia. Os pezinhos dos aitis brancos, rendilhando a areia molhada. Ainda hoje, ela sente profunda gratidão pelos pais, que lhes permitiram passar férias em contato com a Natureza.

JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO, nasceu no município da Serra, filha de João Dalmácio Castello e Maria Grata Leão Castello, tem onze irmãos, dentre eles o Rômulo Leão Castello, considerado um dos maiores benfeitores da Serra. Casou-se em 1938, com o Sr. Talma Rodrigues Ribeiro. Diplomou-se professora pelo Colégio do Carmo, lecionou no Ginásio São Vicente, tendo sido lente catedrática por concurso, durante dezoito anos, na Escola Normal Pedro II. Ingressando na política foi eleita para a Assembléia Constituinte do Espírito Santo, tomando posse de sua cadeira de deputado no dia 29 de março de 1947. Reeleita através de quatro legislaturas foi presidente da Comissão de Educação durante todo o seu mandato. Fez pane do Conselho Estadual de Educação. Reeleita, sucessivamente, exerceu o mandato público durante vinte anos. Sempre colaborou intensamente em jornais, revistas e emissoras de rádio do Estado, publicando crônicas, proferindo palestras, discursos, comentários históricos e relatos sobre a vida social do município da Serra e do Espírito Santo. Exerceu inúmeras funções públicas de destaque.

Foi ela a fundadora da Academia feminina de Letras do Espírito Santo, onde deixou profundos vestígios de sua inegável capacidade intelectual. Foi durante 18 anos, primeira secretária da Associação Feminina de Combate ao Câncer, sendo membro fundadora do Hospital Santa Rita de Cássia, cujo nome foi adotado por sua sugestão. Foi a primeira mulher a receber a Comenda Jerônimo Monteiro, a maior honraria concedida pelo Estado, durante a gestão do governador Élcio Álvares. Após ter sido agraciada com a Comenda, JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO disse em seu discurso: “Cumpriu-se hoje, a profecia, estou aqui. Espero não ser acoimada de saudosista, sujeita ao fenômeno psíquico da regressão. Retorno ao passado por afetividade que transpõe os limites da gratidão, torna-se veneração. Em nossa família era cultuada a figura do Dr. Jerônimo Monteiro. Ufanava-se meu pai por haver seu irmão, Cassiano Cardoso Castello, nos idos de 1910, colaborado na magistral obra de Jerônimo Monteiro, como um dos prefeitos da recém-criada prefeitura. Orgulhava-se do reconhecimento do Dr. Jerônimo de Souza Monteiro, integrando por merecimento, Cassiano Cardoso Castello na magistratura. Lá, longe de Vitória, na Serra, passei a conhecer a história de quem teve o poder de dizer ao Estado do Espírito Santo, dizer a Vitória, como Cristo à filha de Jairo: "Levanta-te e anda". O Dr. Jerônimo de Souza Monteiro não desapareceu. É um símbolo, uma bandeira, um oráculo ouvido pelos administradores neste palácio Anchieta. Ouvido sim, por aqueles que na prática interpretaram a sempre difícil e atual definição: "A Política é a arte de bem servir ao povo"

É notório na personalidade de JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO a veneração, a admiração que tem à memória do seu irmão falecido, Rômulo Castello, na sua opinião o maior benfeitor do Município da Serra.

Isto talvez se deva, ao fato de ambos políticos pelo Município, terem enfrentado o fogo de duros combates, em vários períodos fervilhantes da História do Estado, jamais se rendendo ou abandonando a trincheira onde permaneceram até o fim.

E tão forte é esta afeição que ela teve e, ainda tem, pela figura de Rômulo Castello que, assim se refere ao seu desaparecimento: "Sábado, dia 10 de dezembro de 1960, à hora do 'Angelus’, floresciam os flamboyants, em festa. Eu chorava. Sabia que Rômulo receberia de Deus seu presente de Natal. Mas eu chorava em desespero. A saudade é dor. Dezoito anos passados. Saudade, dor de querer e não poder ver. Há fé na Eternidade. Um reencontro com Ele, Rômulo, irmão querido".

JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO, lembra bem as Judites das lendas, mulheres de profundo civismo e inabalável coragem, a empurrar com seu destemor a maioria dos homens vacilantes diante do perigo. E, tantas vezes, no recinto da Assembléia do Estado, ela combatia ferozmente a oposição antipessedista, defendendo não apenas seus pontos de vista e seus ideais mas, acima de tudo, a fidelidade canina e a lealdade para com os governantes do PSD, seus aliados.

Era uma figura imponente e, acima de tudo respeitada, pelo dom privilegiado da palavra, pela firmeza de suas decisões e pelo profundo interesse que dedicava às coisas do Estado e do seu povo, especialmente as reivindicações da Serra, onde sempre foi recebida com carinho e aplausos.

Mulher admirável, seu nome será sempre lembrado no velho Palácio Domingos Martins, como um raro exemplo de dignidade. Tanto que se lhe homenageou com a indicação do seu nome para a "Sala da Comissão de Educação, Saúde e Assistência Social".

Todos ainda estão lembrados das palavras que ela então proferiu em agradecimento, que soou no plenário do Legislativo como um hino de reafirmação ao valor incontestável da mulher, no engrandecimento da Comunidade: "Nada de extremismos para glorificação da Mulher na afirmação de sua personalidade. Liberdade plena é utopia. Nem vós, homens, a possuis. Sois escravos de vossas responsabilidades. Do lar à Pátria, o senso íntimo — a consciência; o senso comum — a sociedade, vos vigiam no cumprimento dos deveres. Seremos igualmente livres, sofreando a nós mesmos. A "Mulher" não grite por liberdade. Faça-se pelo trabalho silencioso, pela renúncia no plano das liberdades que aviltam a licenciosidade. As vitórias femininas os homens as aceitam. O passado afirma e o presente confirma. A exaltação da "Mulher Capixaba", hoje, nesta sessão, fala alto, em favor da elevação espiritual do Homem, sintonizando seus sentimentos com os da "Mulher" homenageada, aceitando sua colaboração. Diz Tommaso Campanella, em a "Cidade do Sol": "Não é de uma só corda, mas de várias que se tira a harmonia".

JUDITH LEÃO CASTELLO RIBEIRO será sempre lembrada como mulher baluarte, como pensadora emérita, como figura exemplar. Mas, acima de tudo e, em especial, será recordada pelas futuras gerações como uma alma de grande sensibilidade, que algum dia caminhará a passos seguros para o fundo do horizonte, recitando palavras cheias de sinceridade e poesia: "O barquinho do seu coração faz-se o largo. Confiante, de velas pandas de esperança, jornadeou no mar das ilusões. Um dia, correntes profundas arrastaram-no para longe, afastaram-no, para sempre, da luz daquele olhar castanho. Hoje, sem norte, sem a cruz da fé, quebrando o mastro do barquinho, no remanso nostálgico de águas mortas, chora, o coração, a dor de um amor perdido. — O barquinho de velas cansadas, à esperança de monções".

 

Fonte: Personalidades do Espírito Santo. Vitória – ES. 1980
Produção: Maria Nilce
Texto: Djalma Juarez Magalhães
Fotos: Antonio Moreira
Capa: Propaganda Objetiva
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2020

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