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Livros como presentes

Aproxima-se o Natal e milhares de pessoas correm às lojas para comprar presentes. As livrarias, no entanto, estão às moscas. Não fossem as luas novas e outros vampiros, teriam de fechar. Poucos brasileiros dão livro de presente, porque não há esse costume entre nós. A moda, hoje, são os celulares, roupas e cedês; depois vêm as bijuterias, bebidas e outros produtos mais valorizados.

Lembro-me, com saudade, dos Natais da minha infância. Não havia o consumismo dos dias atuais e nem os famigerados panetones, do bem ou do mal. Havia toda uma magia em armar a árvore em galhos de pinheiros com objetos que nós mesmos fazíamos e em ajudar na montagem do presépio da igreja. À noite, íamos à reza, na igreja, pois não havia padre para celebrar missa, e voltávamos para casa para uma ceia bem modesta, quando recebíamos os presentes. Esses eram carrinhos, para os meninos, bonecas, para as meninas e algum jogo, para os dois, tipo pega-varetas. Depois que aprendi a ler e, devido ao meu gosto pela leitura, passei a ganhar livros.

O único livro que havia lá em casa, o primeiro que li, foi “A História Sagrada do Antigo e do Novo Testamento”, do Frei Bruno Hauser, com ilustrações em preto e branco, que formaram meu imaginário, com seu Deus de longas barbas e triângulo na cabeça. Nunca esqueci a figura de Abraão, com a faca na mão, para imolar o filho Isaac, salvo na hora pelo anjo que o substituiu pelo carneiro e nem a do Absalão com os cabelos presos na árvore, em sua fuga.

Até hoje, gosto de ler romances contemporâneos que recontam histórias da Bíblia, onde se encontrar todos os temas da história humana. Acabei de ler o “Caim”, do Daramago, e o “Manual da Paixão Solitária”, do Scliar. Aguardando sua hora e sua vez, está o “José e seus irmãos”, do Thomas Mann.

O primeiro livro de literatura ganho no Natal foram as “Aventuras de Simbad, o Marujo”. Nunca vou esquecer as sensações que tive ao recebê-lo e espero, um dia, reencontrá-lo, em um sebo, naquela mesma edição da Melhoramentos. Era de capa dura, colorido e, na folha de rosto pedi para um rapaz que trabalhava na sapataria, deficiente físico, para desenhar meu nome em letras góticas, que sabia fazer como ninguém. As aventuras de Simbad, a lâmpada de Aladim, os contos da Carochinha despertaram no menino do Caparão o desejo de viajar por longes terras e encontrar diversas culturas que, adulto, tornaram-se realidade.

Não sei o que serão das crianças de hoje, que sonhos terão com seus objetos eletrônicos, celulares que fazem de tudo, brinquedos sofisticadíssimos, roupas e tênis de marca. Certamente, nenhuma ganhará livros como os de Simbad, que marcaram a minha infância. Talvez o último devedê da Xuxa ou do filme da moda... Também não sei se são mais felizes do que fomos, num mundo em que são programadas para consumir e desejar sempre mais e mais... Mudou o Natal ou mudei eu? Pergunta o velho Machado. Mudamos todos, só não sei se para melhor. Com livros ou sem, Feliz Natal para todos!

Por: Francisco Aurélio Ribeiro
Publicado originalmente em A Gazeta (15/12/2009).

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