Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Mané Cocô - Por Elmo Elton

Condução de canalização para o Reservatório de Santa Clara - 1909

Antes do governo de Jerônimo Monteiro (1908/1912), Vitória não possuía luz elétrica nem água encanada. Ruas e casas eram iluminadas por lampiões, lamparinas, velas e até por tochas. Os bondes eram puxados a burro. Água, só mesmo a das poucas nascentes, sendo que, em decorrência da falta de esgotos, os detritos eram lançados ao mar, também nos mangues e em terrenos pantanosos, - a fedentina poluindo o ar.

Inaugurado o abastecimento de água, foi construído, no morro de Santa Clara, um reservatório que passou a servir, preferencialmente ao palácio, repartições públicas e residências particulares dos abastados (...)

Os menos afortunados, enquanto aguardavam a canalização atingir toda a cidade, se valiam dos chafarizes construídos nos pontos de maior concentração popular: Porto dos Padres, mercados, quiosques e botequins, quase todos situados na orla marítima.

Antes da canalização, toda a população se abastecia de água potável das nascentes da Lapa, Fonte Grande, Vigia, da Capixaba e dos poços artesianos.

Os moradores da cidade alta e locais distantes dos chafarizes pagavam carregadores para levar, em latas ou pipas, a água até suas casas.

Resolvido o problema da água, o governo inaugurou os serviços de eletricidade e esgotos, terminando assim as profissões de conservadores de lampiões e dos 'carregadores de cocô' - que em latas levavam as fezes e outros detritos, jogando-os no mar:'

Manoel de Oliveira Dias, preto, ainda moço, de rígida musculatura, era "carregador de cocô". Tinha freguesia numerosa e certa, de modo que, duas ou três vezes por semana, ia a casas de famílias, mormente de famílias moradoras na cidade alta, apanhar os barris onde eram depositados fezes e urina, além de lixo diverso, - carga que preferencialmente atirava, em maré Vazante, ora no Porto dos Padres, ora no Cais de São Francisco. Esses barris, porque não esvaziados diariamente, se enchiam de vermes, o mosqueiro em redor, tudo provocando sufocante fedor. Um flagelo!

Em Vitória, a esse tempo, havia outros iguais carregadores, mas o certo é que a preferência das famílias recaía sempre em Manoel, dado seu temperamento cordial, sua simpatia e humildade, cobrando ele pelos seus serviços apenas a ninharia de cinco tostões por caminhada. Foi numa dessas caminhadas que, lá por volta de 1911, ao passar pela antiga rua do Egito, despregou-se o, já apodrecido, fundo do barril que levava à cabeça, todo o conteúdo fétido derramando-se sobre ele. Desde esse dia, o serviçal Manoel de Oliveira Dias passou a ser chamado Mané Cocô, daí que, em sendo visto, aqui ou ali, logo alguém lhe gritava:

- Mané Cocô, você vai eu também vou.

O negro respondia:

- Mas eu só vô se a mãe fô.

Mané Cocô - já a cidade dispondo de rede de esgotos - fazia, prestativo, biscates nos mercados, antes tendo sido vendedor ambulante de cocadas, o que lhe não trazia quase proveito algum, o tabuleiro voltava sempre cheio, talvez mesmo em decorrência de seu próprio apelido ou porque fosse portador de uma úlcera na perna direita.

Nos últimos anos, tornou-se irritadiço, zangava-se facilmente, mesmo com amigos e parentes (conheci alguns de seus parentes, cunhadas e sobrinhos, gente humilde mas respeitável), passando a beber desbragadamente. Intrometia-se nos discursos de políticos, quando eram ouvidos em praça pública, interrompendo-os com estapafúrdios apartes, o que lhe valeu algumas detenções, logo relaxadas.

Faleceu no início da década de 30.

 

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

História do ES

A Banda de Música da PMES: História e estória

A Banda de Música da PMES: História e estória

Demoner, na obra sobre a História da PMES (1985), relata: "desde a sua criação em 1840, a banda de música da PMES sempre abrilhantou as grandes festividades, como a chegada do Imperador D. Pedro II a Vitória em 1860 e os festejos com o término da Guerra do Paraguai" (p.131), sem citar a fonte e a data...

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Palavras que vieram da África

A influência do negro na nossa cultura foi bastante expressiva. Os hábitos e costumes africanos penetraram no nosso cotidiano

Ver Artigo
Epidemias e Ameaças - Por Serafim Derenzi

Os franceses, que ameaçaram a costa em 1551, voltaram em 1558 ao Porto de Vitória, onde dormiram 

Ver Artigo
A febre amarela no Espírito Santo em 1850

A Providência Divina vela certamente sobre a população desta Província que, sem o seu auxílio, estaria hoje extinta por falta de recursos da medicina

Ver Artigo
Varíola, cólera, fome em meados do Século XIX no ES

Já em fevereiro de 1855, um ofício do barão de Itapemirim falava em mais de mil vítimas 

Ver Artigo
Porto de Cachoeiro foi marco de crescimento

“Mas o transporte fluvial era tão importante, que a sede da colônia veio para o porto das embarcações, o Porto de Cachoeiro, que hoje é Santa Leopoldina”

Ver Artigo