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Marataízes - Por: Ailton Rocha Bermudes

Antiga estação ferroviária de Marataízes

No frontispício da antiga estaçãozinha da estrada de ferro Itapemirim, atual rodoviária, está gravado Marathaysis, de uma forma que só uma fantasia ortográfica pretenderia inutilmente justificar.

Ao final da tarde, o triunfal resfolegar da locomotiva e as alegres badaladas da sineta que o maquinista brandia, vaidoso, anunciavam a chegada do trenzinho obstinado, que vencia em três horas e meia os quarenta quilômetros desde Cachoeiro de Itapemirim. Passara pela estrada mais bucólica do mundo, numa velocidade estonteante de até vinte quilômetros por hora, torcicolando pelas margens férteis do rio Itapemirim, recebendo a homenagem da ingênua curiosidade de crianças e mulheres à porta de seus casebres e parando nas estações de Safra, Coqueiro e Paineiras, com tempo rigorosamente dosado para que se consumisse o saboroso estoque de pamonhas, bananas, milho verde cozido e pastéis.

Os passageiros, de semblante satisfeito, deliciavam-se com a carícia refrescante do nordeste – as boas vindas do clima gostoso – e maldiziam o calor que torrava Cachoeiro e as outras cidades, Alegre, Castelo, Muqui e Mimoso do Sul, de onde vinham. Marataízes era um refrigério. Lá estava o velho mar, grandioso e imutável, no eterno vaivém das ondas, que, na maré baixa, estendiam uma praia larga, imensa, plana e compacta, boa de se passear nela, à noite, úmido espelho no qual os pés trituravam os reflexos da Lua.

Por volta de 1946, Marataízes era quase uma rua só, que se alongava da estação até pouco mais de cem metros além do Praia Hotel, então uma construção modesta, com uma puxada de paredes de tábuas e umas poucas ruas perpendiculares ao morro, Mas como era deliciosa a Marataízes daquele tempo, autêntica aldeia de pescadores, que pessoas de Cachoeiro de Itapemirim e de outras cidades do sul do Estado estavam transformando num balneário aprazível. O vento nordeste espalhava frescor nas ruas e nas casas e trazia os barcos pesqueiros abarrotados de peroás, calungas, corvinas e cações. Era pouca gente para tanto peixe.

De manhã, os veranistas observavam a chegada das redes de arrasto, que alguns ajudavam a puxar, misturando a sua curiosidade à expectativa meio desconfiada dos pescadores. A imensidão do mar, que prometia fartura, às vezes mostrava-se avara na exígua quantidade de peixes, que tentavam escapar às finas malhas invencíveis. Outras vezes, cardumes de pescadas, grandes, prateadas, a debater-se inutilmente dentro da rede, recompensavam o trabalho daqueles homens cuja esperança atávica se renovava com o fluxo das ondas. Os peixes pequenos, relegados na praia, eram recolhidos meio às escondidas pelos pobres ou devorados por porcos vadios.

Durante o dia todo, mas sobretudo na parte da manhã, cargueiros desfilavam na porta das casas com os produtos da roça – abóbora, aipim, cana, manga, laranja, coco, inhame, batata, abacaxi, banana, verduras, galinha, ovos e farinha. A terra é fértil e o maratimba (habitante da região) se preparava para abastecer veranistas e ganhar dinheiro.

Quem vê, hoje a praia imensa, tomada até quase a Ponta do Siri por uma multidão vinda do sul do Estado, de Minas Gerais e de outras partes do País, num colorido estendal de barracas e jovens que desfilam seus belos corpos, e não encontra uma brecha para fincar a barraca, não imagina como era a Marataízes sossegada de cinquenta anos atrás. No trecho de praia até em frente ao Praia Hotel, apenas uns cem banhistas, nos dias de semana, estiravam ao Sol e à brisa do nordeste o privilégio de usufruir a doçura do descanso e a vista da imensidão das águas.

Aos domingos, o trem transportava também em vagões abertos destinados, nos dias úteis, ao transporte de cana para a usina Paineiras, uma pequena multidão, operários em sua maioria, que ia aproveitar a amenidade do clima e a gostosura do banho de mar. Afinal, a praia, o mar, nem que fosse por um dia, não eram prerrogativa de uns poucos felizardos... Era um espetáculo presenciar as gôndolas repletas de gente alegre, que gritava e cantava, arrastando-se em meio aos canaviais e às pastagens pontilhadas de reses.

À tarde, - as longas tardes que se espichavam em conversas, jogos d ebaralho e de vôlei, namoro de jovens, leituras – fazia parte do programa escasso, rotineiro, ver os barcos chegarem da ousada pescaria, cavalgando as ondas, desdenhando o perigo. Tinham saído às dez horas da noite anterior, levados pelo vento que, a essa hora, sopra da terra par ao mar e, por isso, se chama terral e que os conduzia para longe, para a vastidão das águas, onde moram os cardumes abundantes. Depois de quinze horas na imensidão indistinta do oceano que, para outros é uma amedrontadora massa informe e sem limites, mas que seus olhos experimentados reconhecem como caminho habitual, voltavam com uma confiança ingênua e tranqüila, como se as ondas observassem um pacto de preservar aquele barco tão frágil e tão ousado. Primeiro eram pequenas manchas, lá longe, desenhadas pelas velas distantes, depois cresciam, tomavam forma e corpo até onde arriavam o pano, enquanto o mestre, sobranceio, de pé, leme em punho, guiava o barco impelido pelos remos dos pescadores, até a praia. Os olhares curiosos dos veranistas esquadrinhavam os cestos, que despejavam na grama a profusão de peixes, alguns de nomes estranhos, como boca-de-velho.

Depois do jantar, era o footing na rua principal, quase todo mundo de tamanco, o plac-plac ressoando na areia, com blusa de lã ou outro tipo de agasalho, pois as noites de Marataízes, se faziam sonhar, faziam também tiritar de frio, Outros se precipitavam para o víspora do Piquitote no térreo do prédio vizinho do Hotel Balneário, de Dona Alzira Cordeiro, o mais antigo da cidade, de acomodações modestas, mas de peixadas fartas. O salão ficava repleto de veranistas e também de maratimbas, fascinados e atentos ao “cantar” excitante das pedras retiradas do globo, receptáculo de surpresas e de sonhos frustrados. A impaciência e a emoção estacavam de súbito ante o grito de “vispei”, de um jogador sortudo.

Retornava-se para casa pelas ruas escuras, que a luz fraquinha do motor a óleo apagava às dez horas da noite, noite quase toda encapuzada de silêncio, não fosse o sibilar do vento nordeste.

Mas a temporada de verão não durava tanto quanto o desejo de que continuasse pelo menos até a Festa das Canoas, geralmente em fins de março. O trenzinho pachorrento se atulhava novamente de gente feliz, saudável, tostada de sol, que deixava Marataízes posta em sossego.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. N 50, ano 1998
Autor: Ailton Rocha Bermudes, dedicada a Aparecida, Miguel e Fabiano Depes Tallon
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 

 

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