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Maria Nilce ou o tiro que calou Vitória
16/02/2012

O volume um pouco alto da TV fez-me acordar mal-humorado naquela manhã de 5 de julho de 1989. Os apresentadores do programa Bom Dia Espírito Santo, transmitido pela TV Gazeta, anunciavam que a jornalista Maria Nilce tinha sido baleada e levada às pressas para o Hospital das Clínicas. Vítima de crime encomendado, ela foi covardemente assassinada na rua Aleixo Neto, onde se exercitava todas as manhãs. Seu corpo foi sepultado, no mesmo dia, no Cemitério Jardim da Paz. O crime nunca foi esclarecido, assim como os culpados também não foram punidos.

“Entre a multidão ela é a escolhida”, escreveu Amylton de Almeida. Já Milson Henriques a achava “Presença, personalidade, sofisticação, charme, dinamismo, temperamental, voluntariosa, dominadora”. Maria Nilce, a colunista social que agitava Vitória, na verdade era tudo isso e muito mais.

“Existem muitas Marias em mim, que todas juntas formam um coquetel de Marias. Eu gosto muito da Maria romântica, poética, sonhadora. A que faz versos quando a madrugada vem chegando.”

Maria Nilce foi a mais importante colunista social de Vitória. Sua coluna diária no Jornal da Cidade era lida por milhares de pessoas. Não havia concorrentes para ela. Em seu jornal cresceram outros colunistas sociais como Tão Mendes (in memorian), Nirlan Coelho, Carlos Vaccari, Jorginho Santos, Geraldo Bulau e Cesar Viola, que desenvolveu um estilo informativo mais bem elaborado para o colunismo social, até então muito arcaico, e foi quem me apresentou à Maria Nilce.

Com personalidade de muitas facetas, às vezes estava alegre como uma criança, querendo abraçar a todos. No dia seguinte, caía em fossas terríveis e chorava sem saber por quê. Não se penteava, recusava-se a atender aos telefonemas, vagava pela casa, triste e descabelada. Mas de repente, transformava-se. Quando amiga, era sincera e não invejava nada e ninguém. Sentia uma intensa vontade de viver. Era do tipo de pessoa que não podia pensar em parar jamais e por isso sempre estava fazendo alguma coisa, sentindo a vida e vibrando com tudo.

Desconfiava sempre das pessoas que não a encaravam nos olhos e nem apertavam a sua mão com firmeza. Detestava a classificação de boazinha, bonitinha, engraçadinha. Não havia meio termo para ela. Costumava confessar-se alegre, extrovertida e dinâmica, conseguindo tudo o que queria, e jamais ter encontrado portas fechadas. “Quem trabalha não conhece fracassos”, afirmava.

Maria Nilce nasceu em 23 de julho de 1941, na fazenda Fundão dos Índios, distrito de Timbuí, em Fundão, Espírito Santo. Filha de Tertuliano Tauríbio dos Santos e Ana Cleta dos Santos. Era a nona filha de uma prole de onze. Casou-se com o jornalista Djalma Juarez Magalhães em 29 de abril de 1961 e veio morar em Vitória, onde teve quatro filhos: Fernanda, Milla, Juca e Paloma.

Começou sua vida profissional em 1967, escrevendo uma coluna social diária no jornal A Tribuna, intitulada “M.S.M”, galgando rapidamente o sucesso devido à sua versatilidade e espírito irônico, que de certa forma provocaram uma transformação naquele tipo de jornalismo provinciano de Vitória. Ela também produziu e apresentou, durante um bom tempo, o programa Coisas e Gente Muito Importante, na TV Vitória.

Ainda na televisão, Maria Nilce foi a primeira mulher-jornalista a aparecer no vídeo em âmbito nacional, integrando o júri do Chacrinha na Hora da Buzina, apresentado aos domingos na TV Globo, Rio de Janeiro. Em 1969 saiu de A Tribuna para, junto ao esposo, comprar o Jornal da Cidade, que se tornou muito importante para Vitória.

Escreveu vários livros: Eu, Maria Nilce, uma autobiografia; Crônica de uma ilha muito doida; Como o Diabo gosta; entre outros de crônicas de suas viagens ao exterior e sobre destaques e personalidade de Vitória.

Os seus desfiles de moda e festas beneficentes agitavam a ilha. Anualmente, realizava almoço para os guardas de trânsito e para o Dia Internacional da Mulher. Quando aparecia nos estádios de futebol, nos festivais de música jovem ou como jurada de Miss Espírito Santo, a platéia a aplaudia de pé e gritava seu nome. Certa vês, no Ginásio do SESC, na praça Misael Pena, centro de Vitória, uma multidão cantou Ave Maria em sua homenagem. A cronista Carmélia Maria de Souza escreveu que as festas da sociedade de Vitória só começavam a existir depois que Maria Nilce chegava.

Todos a consideravam diferente. Até ela. A turma da malhação, classificada por Maria Nilce de “turma do tambor” – devido ao barulho, mas oca -, não lhe perdoava. “A verdade às vezes fere a quem não está habituado a ouvi-la”, escrevia em suas colunas. Muita gente temia o seu temperamento expansivo de quem diz tudo o que quer.

“Algumas pessoas que me malham não têm coragem de abraçar um amigo na rua, como eu faço, mas têm coragem de abraçar um amante na cama. Muitos me acham esnobe, sofisticada, requintada. Considero-me a pessoa mais simples do mundo. Começando pelo nome Maria. Gosto de andar de calça Lee e camiseta Hering, mas também uso um longo rebordado no Libanês.”

Maria Nilce era daquelas mulheres que jamais dão a outra face. Quem lhe desse uma bofetada acabava recebendo muitas outras. “Aprendi cedo a não levar desaforos para casa. Acho que a mulher deve saber se defender e jamais precisar de terceiros. Contudo, apesar das explosões temperamentais, sou incapaz de agredir fisicamente alguém, mas depois tudo passa. Embora não esquecendo, perdôo. Mas a amizade só é possível entre iguais.”

“Muitos nessa cidade julgam-se com o direito de analisá-la, exaltá-la e até criticá-la. Os que analisam não possuem o conhecimento necessário capaz de discernir entre o seu temperamento extrovertido e sua alma simples, imersa em profundos devaneios. Os que a exaltam ainda assim não conhecem a verdadeira Maria Nilce. A que longe dos brilhos dos salões e dos aplausos se transforma em moça simples de Fundão dos Índios, que com méritos reais conquistou um merecido lugar de destaque na sociedade. O arrebatamento de alguns diante de sua beleza impede-os de enxergar a Maria Nilce que realmente me arrebata, com sua amizade, com seu imenso coração, com sua lealdade e com sua honradez intocável. As pessoas em evidência, como ela, estão sempre sujeitas à malícia e antipatias fora de propósitos”. Assim a definiu seu esposo Djalma Magalhães.

 

Por: Carlos Benevides Lima Júnior, historiador
Livro: Escritos de Vitória – Personalidades de Vitória, 1996
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 
 

 

 



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