Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Maria Ortiz: mea culpa...

Combate entre holandeses e luso-brasileiros no Espírito Santo. Presumivelmente a mais antiga cena de batalha pintada no Brasil (séc. XVII). Pretende-se atribuir sua autoria ao pintor holandês Gillis Peeters I (1612-53). Coleção Marcos Carneiro de Mendonç

Espírito Santo, perdoe-me, pois errei. Confesso: parte da culpa é minha, se a Caprichosos de Pilares “rebaixou” Maria Ortiz à condição de prostituta. Falsifiquei a história, profanei a memória da heroína e ultrajei a honra do povo capixaba. Quero penitenciar-me, publicamente.

Em 2002, na pressa de cumprir prazos para publicar um livro sobre a História do ES, não fui criterioso o bastante para confrontar os documentos sobre Maria Ortiz e, baseando-me apenas em fontes secundárias, concluí, equivocadamente, que ela “era prostituta, proprietária de um bordel em Vitória”. Cometi uma “heresia histórica”, mesclando ficção e realidade. Conforta a minha consciência, no entanto, a convicção de que não estou sozinho nesse processo de falsificação do passado e mutilação da história. Explico-me.
Na versão oficial, a única fonte primária referente a Maria Ortiz é uma carta datada de 1625, onde o donatário da Capitania do Espírito Santo informou ao Governador Geral do Brasil como os capixabas reagiram ao ataque dos piratas holandeses a Vitória. Eis parte do relato: “Na repulsa dos invasores audaciosos é de justiça destacar a atitude de uma jovem moça que astuciosamente retardou o acesso dos invasores à parte alta da vila, permitindo que organizássemos a defesa da sede. Essa jovem se tornou para todos nós um exemplo vivo de decisão, coragem e amor à terra”.

Exposto o fato, surgem as dúvidas. A “jovem moça” citada nesse documento é a nossa Maria Ortiz? Na descrição do acontecimento, a testemunha ocular não faz menção ao tacho com azeite quente, água fervente e aos demais objetos “pedras, paus, brasas) com os quais acredita-se que Maria Ortiz “queimou horrivelmente” os invasores e “decidiu a batalha”. Quando, onde e por que esses “pequenos detalhes” foram acrescentados à versão original, transformando Maria Ortiz (?) em super-heroína?

O escritor Afonso Cláudio, em 1909, já alertava que o “empolgante episódio de Maria Ortiz” foi adornado com elementos maravilhosos. Uma narrativa histórica lendária tem sido perpetuada pela tradição, inventando significados simbólicos para o gesto daquela “jovem moça”. Todavia, o francês Jean Chesneaux adverte que o historiador “que cria falsas lendas para o povo ou que o agrada com histórias melodiosas, é tão criminoso quanto o geógrafo que elabora mapas mentirosos para os navegadores”.

Absolva-me, Espírito Santo!

 

Fonte: A Gazeta 02/03/06
Autor: José Pontes Schayder é professor de História e autor do livro “História do Espírito Santo: uma abordagem didática e atualizada”

Compilação: Walter de Aguiar filho, abril/2013 

 

>> Maria Ortiz, heroína inesperada
>> Maria Ortiz

Literatura e Crônicas

Newton Braga e Ribeiro Couto - Por Levy Rocha

Newton Braga e Ribeiro Couto - Por Levy Rocha

O passamento de Ribeiro Couto, em Paris, três anos atrás, avivou-me a lembrança de outro poeta, da mesma escola penumbrista, o nosso Newton Braga

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Anos de 1567 e 1569 - Por Basílio Daemon

Ainda outra aldeia em Reritiba, hoje Benevente, na rampa de uma montanha e ao redor dela com outra principiada ainda no lugar chamado Orobó, a dez quilômetros pouco mais ou menos do mar

Ver Artigo
Ontem, Hoje e Amanhã - Por José Carlos Corrêa

Gostávamos muito dali pois o Parque na época era o melhor lugar da cidade. Lá morava a Lurdinha, melhor amiga de Dodora, no Edifício Moscoso

Ver Artigo
Quarta-feira no Parque - Por Maria Helena Hees Alves

Admiro as peças antigas que o Parque ainda guarda: um sinaleiro apagado, um chafariz sem água e um relógio parado

Ver Artigo
Fumaça nos meus olhos - Por Marzia Figueira

A jovem de longo vestido branco, em renda e tule,...correm os anos dourados, suave é a noite, o salão é do Clube Vitória e a debutante sou eu...

Ver Artigo
O Fim - Por Maria Amélia Dalvi

A imagem mais recorrente quando eu pensava nele era: nós dois prendendo as bicicletas com correntes nas calçadas da Rua Sete

Ver Artigo