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Massena, o escritor

O pintor Homero Massena, morto em 1974, escreveu dois livros, dos quais um permanece inédito: “Barbacena”. O outro, já publicado, recebeu o título de “Atribulações de um Capichaba”. Massena teve larga experiência como jornalista, chegou a participar da revolução paulista de 32 e tornou-se amigo do homem que matou seu autor predileto: Dilermando de Assis.


Uma grande obra de arte sempre implica uma grande vivência. O pintor mineiro, mas radicado no Espírito Santo, e que morreu em 1974, Homero Massena certamente teve uma grande vivência: além dos 11 anos passados na França, ele desempenhou funções as mais variadas: prefeito, jornalista e saltimbanco, entre outras. Foi um literato por diletantismo. Esta faceta daquele que é considerado como o maior pintor do Espírito Santo e um dos maiores do Brasil é pouco conhecida.

Massena escreveu dois livros, um dos quais, Barbacena, continua inédito. O outro denomina-se Atribulações de um Capichaba e foi publicado, um tanto precariamente, em 1965, pela imprensa oficial. São livros que mostram uma correção gramatical que revela a longa experiência jornalística do autor e denotam uma sobriedade literária surpreendente. Os dois livros se alicerçam em experiências pessoais do autor: Atribulações mostra, no início, o clima de Vitória antiga, com seus personagens pitorescos, embora posteriormente Massena tenha construído uma ficção pura, altamente divertida; Barbacena, por sua vez, conta episódios em que esteve envolvido seu avô, Rodrigues de Araújo Massena.

De certa forma, o escritor lembra o pintor: econômico e preciso nos detalhes, perfeito na ambientação. Mas a estas características, adiciona-se uma que, para os que apenas conhecem seus quadros, causa surpresa: o humor picante e irreverente, que se manifesta principalmente em Atribulações de um Capichaba. Numa conversa com D. Edi Massena, a viúva do pintor, ela teve a oportunidade de mostrar algumas cartas escritas por ele: o humor corre solto – não há marcas de sisudez.

- Ele era um homem alegre – comenta dona Edi. Nos finais de semana a casa ficava cheia de amigos e ele gostava muito de contar histórias, casos pitorescos. O movimento começava sexta à tarde e estendia-se por sábado e domingo.

O próprio pintor dizia, no prefácio de Atribulações, que “a presente novela foi elaborada para ser lida na intimidade das tertúlias domingueiras, entre os amigos que freqüentam nosso atelier e não nos passou nunca pela mente que insistissem na sua divulgação”. Atribulações mostra um Massena inteiramente descontraído, solto, como dizem que ele era pessoalmente. Ele conseguiu, efetivamente, criar uma história hilariante. A criatividade que ele demonstrara na pintura reaparece em sua obra de escritor.

ATRIBULAÇÕES DE UM CAPICHABA

O enredo deste livro é bastante interessante. Biela, o personagem principal, insistia há seis meses no número 3333 no jogo de bicho. Jogava quase diariamente Cr$ 4,00 e acaba ganhando na milhar Cr$ 20 mil. Decide rapidamente o que fazer com o dinheiro: “Ia finalmente, realizar-se o seu grande sonho “um passeio ao Rio, de avião, e. . . Copacabana! Via-se já vestido com um belo calção de banhos, igual ao dos americanos, com estampas, rosas vermelhas e outras ramagens, nadando ao lado das cariocas de biquíni, como as que vira muitas vezes nas velhas revistas que lá no mercado compravam para embrulhos”.

A partir da viagem de Biela, a estória se desenvolve de maneira surpreendente. Assaltado, caindo em diversos contos de vigário, Biela termina por se ver inteiramente sem dinheiro. Emprega-se numa fazenda, onde termina fazendo parte de rodeios e coisas similares. De episódio em episódio a história segue adiante, com casos extremamentes divertidos.

Atribulações de um Capichaba talvez seja a única publicação que até hoje tenha sido feita pela Imprensa Oficial. Pelo menos em termos de livro. Ele chegou a ser editado à revelia do autor, como relata dona Edi Massena.

- Massena tinha viajado e Guilherme Santos soube da existência dos manuscritos. Durante a ausência de Massena, ele pegou os manuscritos e os levou para o governador da época, Francisco Lacerda de Aguiar, também amigo de Massena. Gostaram muito do livro e resolveram publicá-lo, através da Imprensa Oficial. Só que isto terminou sendo feito sem que Massena tivesse revisado os originais.

As conseqüências disso foram em certo sentido, desastrosas. Há parágrafos inteiramente incompreensíveis, frases integralmente repetidas. Curiosamente, estes erros quase que só aparecem nas primeiras páginas. Massena pelo menos conseguiu voltar a tempo de sua viagem para que imprimisse um aviso em letras garrafais: “A revisão deste livro não foi feita pelo autor”. O elemento surpresa que Guilherme Santos e Francisco Lacerda de Aguiar queriam usar como uma homenagem ao pintor terminou sendo contraproducente em termos editoriais.

Atribulações de um Capichaba contém um elemento interessante: todo ele é ilustrado por um artista chamado J. V. Dona Edi acredita, contudo, que as ilustrações foram de autoria do próprio Massena. Estilisticamente é difícil definir. Mas é um fato que as ilustrações estão bem de acordo com o texto.


“ATRIBULAÇÕES DE UM CAPICHABA”: UM TRECHO

"Biela, já inquieto pela passividade do animal, julgando-o dócil como um cordeiro, audaciosamente aproximou-se, dando-lhe com a capa no focinho.

O animal, excitado pelo desafio, investiu contra Biela. Por um golpe de sorte, tendo a capa estendida bem perto dos olhos, o animal passou não sem dar uma guinada em Biela, que caiu sentado. Apanhando rapidamente a capa, colocou-se em guarda à espera de uma nova investida do touro, o que não tardou. Avançando sem que Biela pudesse desviar-se, suspende-o com a cabeça, engasgando-o entre os chifres que o desastrado toureiro segurava de pernas para o ar, só enxergando o chão que corria diante dos seus olhos, sem saber como desembaraçar-se da posição. Finalmente, o touro parou, com o desejo de aliviar-se da carga. Ao sentir frio no traseiro, Biela compreendeu que as calças haviam rompido, colocou os pés no chão, tentando saltar. Ao sentir o movimento, o animar ergueu a cabeça e o toureiro, na mesma posição, de cabeça para baixo, amargurado ao sentir que o rasgão da calça aumentava, passeado e sacudido pelo touro, no abaixar e suspender a cabeça, obrigando a ridículas perneadas, além dos gritos de zombaria que ouvia da assistência, pensou, mesmo, que seria estraçalhado pelo animal, gritava pedindo socorro, o que não era ouvido, dados os gritos da platéia delirante, apesar do perigo. Finalmente, aproveitando um momento em que o touro o levou suspenso até a cerca, com a destreza de um símio, dando um salto, caiu para fora da arena”.

 

Fonte: A Gazeta 08/10/1980 
Texto: Júlio Fabris


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