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Mestre Armojo – Por Eliomar Mazzoco

Hermógenes Lima Fonseca - Fonte: Século Diário (Rogério Medeiros) e Denise Machado, a guardiã da imagem de seu ex-companheiro

Conheci Hermógenes de ouvi falar. Aluno do curso de História, por lá ele era, e é, uma espécie de mito, aquele que tem o título de maior historiador capixaba sem nunca por lá ter aparecido, seja aluno ou professor, destes que se formam na vida ao sabor do vento e da lambida do mar.

E nós – até saber que a UFES lhe negara a contratação como professor na década de 60, por ser comunista, segundo testemunho do próprio – tínhamos a impressão romântica dos alunos que assim era porque ele queria. Não era homem de se acostumar à burocracia e tecnocracia universitária, o que em parte é sábia verdade.

O mito, que já encontrara pelas ruas de Vitória numas esquinas escolhidas por Deus, encontrei em algumas reuniões do PCB. Fazendo parte do Partidão, tive contato com a outra face do mito, a do Hermógenes comunista, um dos poucos que chegou a ser vereador, e que nós, os novos, olhávamos com os olhos de admiração pela sua tenaz resistência. Mais do que a ditadura de plantão – e foram muitas as que enfrentou -, resistência à “esquerda” que ditava o poder partidário, esta sim, no dizer de Hermógenes, sempre a lhe perturbar a vida. Mesmo assim lá estava e, junto aos jovens, assumia de imediato uma função, qualquer coisa como tesoureiro, e nós saíamos companheiros partidários inflados de orgulho, que expressávamos a Hermógenes assim que o encontrássemos de novo dali a alguns meses, muito longe de uma reunião do partido. Lá ele só ia inflar o peito dos jovens libertários do amanhã, contribuindo com sua fleuma na formação dos sonhos de todos nós.

E isto era possível. Era só ver sua biografia valente, destacada. Vereador comunista, embora por outra sigla, o mais votado, com um mandato voltado aos temas sociais. Para os comunistas era chegar ao lugar da utopia, a esperança de forma concreta na palma das mãos. E além disso havia sido prisioneiro de todas as ditaduras. Às vezes, como disse, mais por força de seus inimigos dentro do próprio partido, do que da direita no poder. Disto, o mestre até hoje rumina mágoa. E não é pra menos, pois é de ver o homem e logo se concordar que tamanha alma de passarinho não é de fazer mal a ninguém.

Mas foi através do folclore, outra face do mito, que tive o prazer do contato íntimo com o mestre. Levado pelas mestras e certas mãos de Adelzira Madeira, lá fomos ao povoado de Santanna, apresentar pequenino trabalho, sobre os mascarados do congo de Roda d’Água, em Cariacica, trabalho orientado pela Zira com a sábia complacência do professor Luiz Guilherme.

Encontramos Hermógenes em estrada de chão a contar casos, como ainda pode-se encontrar dando-se o prazer de ir a Conceição da Barra, seu espaço de chão amado. Feitas as apresentações, lembradas as vezes anteriores em que já nos vimos, pusemo-nos a prosear, o que, convenhamos, é do feitio de quem ao folclore quer se afeiçoar, chegando a ser mesmo uma espécie de método de trabalho, quando no encontro com outros colegas e principalmente a gente criadora do folclore.

E aí, embalados por uma rabada de boi ensopada com fruta-pão acompanhada de suco de caju e maracujá, passamos todo um fim de semana com sabor de tarde “ao vento ameno que sopra do Nordeste”, conforme sobrescrito por ele, para mim, em seu “Diário de Viagem” feita com Carmélia de Souza. Passamos toda a tarde a prosear do folclore quando então conheci o Hermógenes folclorista, ou melhor, o “Mestre Armojo”, o braço esquerdo do Mestre Guilherme. E por mais que tivesse eu lido todos os seus artigos na revista Folclore, e o que mais tivesse escrito, é impossível vislumbrar todo o seu conhecimento. “É muita coisa, meu senhor, é muita coisa”. Sabenças e histórias como a dos índios de Caeira Velha, que vieram a Vitória com sua banda, participar do Concurso Estadual de bandas de Congo em 1951 e ficaram por aí a vagar pela cidade alguns dias, terminado o encontro, devido à dificuldade de transporte à época. Os coitados, depois de dormirem debaixo de algumas marquises e tocarem tambor pelos logradouros, foram adotados por um turco que deve ter sido o primeiro empresário a apoiar a cultura e vender seu marketing botando os índios a tocar de frente à sua loja.

Desta visita veio o apoio definitivo para transformar o pequenino estudo dos mascarados em livro, conforme já havia sido o conselho do professor Luiz e desejo de Zira. Mas nas mãos do mestre, como bem sabia a mestra, o pequenino trabalho agigantou o autor, quando este se viu condenado a ser “viçosa árvore a produzir sazonados e deliciosos frutos”, cravando-lhe fundo na alma o amor pelo folclore, que a esta altura já lhe roubara a vida em sua dedicação.

Deve ser por isto que escrevo esta crônica. Porque de fato assim é. Quando me sugere a Secretaria de Cultura lembrar de uma personalidade estou no justo momento, por indicação do professor Renato Pacheco e de Hermógens, assumindo a presidência da Comissão Espírito-santense de Folclore, criada por Mestre Guilherme Santos Neves, e cuja perenidade deseja Hermógenes. Vamos carregar o andor, mestre!!

 

8 de maio de 1996

 

Foram dias emocionantes. Encontrei Hermógenes na casa de sua filha Angélica, eu e o Pig, e tratamos de informar os acontecimentos do VIII Congresso Brasileiro de Folclore, aonde fôramos representando a Comissão, ele e Renato Pacheco. Depois de declinar seu desejo de ter ido, danou a chorar lembrando de Mestre Guilherme, para em seguida perguntar de onde surgíramos e completava: - “Eu dizia a mestre Guilherme, quando ele se preocupava em quem ia continuar a comissão e eu afirmava que isso não era preciso de catar. Tinha que esperar que vai aparecer, vai amadurecer em alguém aquele calor folclórico necessário.” (...) E por aí ia, entre riso e choro. Depois de deixar as pastas com os resultados do Congresso, nos despedimos. Amanhã seria um dia cheio. Era o dia da posse da Comissão.

 

9 de maio de 1996

 

Pelas 10 horas, pegamos Armojo e fomos, eu e mais o Condebaldes, ao aeroporto, encontrar com Renato e receber nossos convidados para a posse da Comissão: Prof. Bráulio do Nascimento, vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore, e Cáscia Frade, secretária geral. Ainda no café do aeroporto, para fumar um cigarrinho que não largava nunca, Armojo soltou aquele seu morticínio, que eu já vira ele predizer de outras vezes: - Rapaz, mas vocês chegaram na hora, eu vou morrer semana que vem! Eu já vira Armojo declarar estas falsas profecias outras vezes. A primeira delas em sua casa em Conceição aonde eu, Zira e Rogério Medeiros chegáramos certa manhã de sábado, e, assim como Rogério, tratei de desconversar. – Ora vai ver se este homem com tanto a contar e fazer tem que pensar nestas besteiras de morte!!!

E foi Bráulio chegar, começou de novo o chororô e chorando fomos cumprir extensa agenda. Entrevistas: desta dos repórteres na chegada de Hermógenes; visita ao reitor da UFES: prontamente aceito pedido para encaminhar aos conselhos superiores a concessão de título de professor emérito a Hermógenes; Rede Gazeta de Comunicações: a gentil-dama Maria Alice Lindenberg se auto-intitula madrinha da Comissão, entre tantos outros compromissos, até o almoço onde, após prazerosa moqueca, deixamos Armojo para descansar. À noite teríamos profundas emoções.

Pegamos Armojo, eu e mais o Condebaldes, às 19 horas já atrasados, ele leve, alegre e brincalhão mandou essa: - “Sabe como vou? Vou aos peidos.” Feitas as risadas fez o segundo vaticínio: - “Morro semana que vem, afinal agora já posso, a Comissão de Folclore de Mestre Guilherme já tem futuro!!” Mais uma vez descartei: - “Vê se isso lá é coisa que se diga.”

Foi emocionante. O discurso de Renato Pacheco colocou os “pingos nos is”. Traçou o histórico da Comissão de seus 50 anos de trabalho e outros tantos desejou de continuidade. Mestre Bráulio deu posse à nova Comissão, deu sua versão dos fatos, e o orador deu a palavra a Hermógenes. Contendo o choro que naquele encontro em sua viva alegria muitas vezes refrescou sua face, foi sintético ao dizer tudo o que tinha a dizer com a vida por testemunho: - “Minhas senhoras e meus senhores, tenho dito!”

O mais curto discurso dele que, todos sabíamos, adora falar para muitos como se fosse uma prosa à beira-mar, por longa maré cheia.

Depois isso foi soltar nossa alegria ao tambor da “Amores da Lua” em festa linda e maravilhosa em que a alegria de Hermógenes por todos foi vista dançando ao sabor do sorriso de uma morena do congo.

 

14 de maio de 1996

 

Srs. Editores:

São momentos de angústia. Na data prazo final para entregar qualquer coisa sobre Armojo, o faço sem a sua alegria habitual. Escrevo sob o impacto do boletim médico sobre a sua saúde. O seu derrame ocorrido na manhã do dia 10 de maio teve sérias repercussões. O quadro não é positivo e as chances são poucas.

É difícil escrever, Não sei se falo de sua alegria quando o deixei à porta de casa. Alegria que espraiou pelas suas filhas ao contar de sua própria alegria, e felicidade do evento ocorrido da posse da nova Comissão. Ou se falo do nada. Do silêncio que vem à alma passar para o papel.

Não sei, senhores editores, se meu dever é calar, em dor; ou se é falar, porque contar é preciso. O prazer de escrever para esta coleção por indicação de Renato Pacheco, sobre Armojo, umedece meus olhos.

Só posso pedir perdão ao mestre por ter demorado a chegar para trabalhar o folclore e assim desfrutar destas maravilhosas horas de prazer a seu lado, de mim furtadas pela distância das gerações. Ou pedir perdão por ter chegado. Devesse eu me perder nos desígnios de Deus e vagar universo sem rumo, de forma a se ter na terra eternamente o Armojo a catar o folclore e contá-lo a quem quisesse ouvir.

Senhores editores, a publicação disto a quem não posso chamar de crônica deixo a vossa decisão.

O ocaso deste mestre, ora moribundo, não é a morte anunciada de um homem, é a passagem de um tempo. Sinto-me como quem vê um furacão por dentro. Ao sabor do vento e da história à espera dos acontecimentos.

 

Me ilumine, meu mestre.

 

Praia de Itapuã

 

14 de maio de 1996.

 

CONVOCAÇÃO AOS FOLCLORISTAS

Para Estilaque

 

Companheiros,

perfilai-vos. Já se faz a hora.

Os beija-flores de Ruschi há muito bailam o corpo entre orquídeas à cata do seu néctar vital.

O canto dos bem-te-vis já denuncia a aurora.

A natureza no seu passar e repassar mutante já trama e anima desde tempos imemoriais o folclore como parte de sua carne feita bicho-homem.

 

É preciso, pois, acudir ao norte destas terras sem males,

onde as areias em dunas encobrem as cidades.

É preciso peregrinar em alegre cortejo a esta terra benta.

É em seu brenho que a estrela sideral de maior grandeza chamada Armojo das Peroba,

que brilha há bilhões e bilhões de anos-luz dentro do coração do homem,

viça a terra,

junto a todos os guerreiros de África, fazendo a mágica de seus sazonados frutos,

santos.

 

Lá repousa o guerreiro.

É preciso correr e ouvir e contar as maravilhas que os congos

bailarão em sua homenagem.

É preciso ir, venerar e bradar retumbante o estribilho registrado

como promessa e profecia,

no canto de sua poetisa, a Lira de lá,

e que se encontra no brado do seu Ticumbi:

"A guerra continua", meu mestre.

 

Fonte: ESCRITOS DE VITÓRIA — Personalidades de Vitória – Volume 15 – Uma publicação da Secretaria de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Vitória-ES, 1996.
Prefeito Municipal - Paulo Hartung
Secretário Municipal de Cultura e Turismo - Jorge Alencar
Sub-secretário Municipal de Cultura e Turismo - Sidnei Louback Rohr
Diretor do Departamento de Cultura - Rogério Borges de Oliveira
Diretora do Departamento de Turismo - Rosemay Bebber Grigatto
Coordenadora do Projeto - Silvia Helena Selvátici
Chefe da Biblioteca Adelpho Poli Monjardim - Lígia Maria Mello Nagato
Bibliotecárias - Elizete Terezinha Caser Rocha e Lourdes Badke Ferreira
Conselho Editorial - Álvaro José Silva, José Valporto Tatagiba, Maria Helena Hees Alves, Renato Pacheco
Revisão - Reinaldo Santos Neves e Miguel Marvilla
Capa - Vitória Propaganda
Editoração Eletrônica - Edson Maltez Heringer
Impressão - Gráfica e Encadernadora Sodré
Autor do texto: Eliomar Mazzoco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2018

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