Mestre Flores

Editor: Morro do Moreno - publicada: 02/12/2013

Mestre Flores e o seu cavaquinho

Texto escrito em 1996.

O artista socialista.

A arte de criar o socialismo para conscientizar, a música para embalar.

Este é o lema da vida de Mestre Flores.

Todos os domingos, na Praça Costa Pereira, O regional do Mestre Flores apresenta, para o povo, o seu repertório de sambas, choros, serestas e canções.

Mestre Flores foi criado no morro de Jucutuquara, filho de mãe lavadeira e viúva, o que o levou a uma infância e adolescência bastante duras em que a fome, o cavaquinho e o samba caminharam lado a lado até formarem o jovem operário marceneiro da oficina do Estado, tornado cidadão e pessoa já querida na cidade em função da música e dos ranchos carnavalescos.

Mas o desemprego nos anos 40 quebrou-lhe os sonhos e houve uma drástica redução de custos com pessoal na folha do Estado determinada pelo interventor Punaro Bley, e executada pelo Secretário de Obras, Carlos Monteiro Lindenberg, e, na lista de demitidos, constava o nome de Antônio Flores, o Toninho.

A cidade era muito pequena e não oferecia perspectiva para aproveitamento de mão-de-obra operária, uma vez que não havia fábricas, indústrias, etc... Flores teve que se mudar para o Rio.

Os centros comunitários de hoje surgiram nos anos de 40 e 60, e tiveram em Mestre Flores um dos seus principais fundadores, juntamente com Hermógenes Fonseca e outros camaradas do Partido Comunista. Na época, eles deram o nome de “Associações Pró-Melhoramentos dos Bairros”, que se espalharam por toda a cidade, a partir da influência das batucadas carnavalescas, que tinham um sentido de organização muito mais solidário do que as escolas de samba de hoje.

Foi bom Mestre Flores não ter ficado no Rio de Janeiro. Vitória, sem ele, seria diferente. Bem que o capitão Bley, com aquela demissão, o quis fora daqui. Mas ele voltou logo, e a cidade foi quem ganhou. E quem ganhou mais foi o Carnaval.

Ele gosta de falar do Carnaval das batucadas, de quando fundou a Mocidade da Praia, campeã por diversas vezes, a maioria levando para a avenida marchas de sua autoria, com todo o povo cantando os seus versos.

Em 1967, Mestre flores pegou a tradição da batucada da Mocidade da Praia e fundou a escola de samba do mesmo nome. Foi a grande sensação daquele ano, com a escola apresentando samba-enredo em homenagem a Otinho e Rosinha. Em 1980 entregou a presidência da escola. Mais tarde, o próprio carnaval de escolas de samba de Vitória acabou.

Aí veio a tristeza do mestre. Aí, o PCB mudou para PPS, abandonou a foice e o martelo, e a tristeza dobrou. Ele lamentou, mas não se dobrou: homem da música, intensificou sua luta em defesa da música popular. Formou o Regional do Mestre Flores, e caiu em campo. O objetivo era tocar samba, seresta, choro, canções, gratuitamente para a população, não confinado em teatro, e sim em praças públicas. Já percorreu a maioria dos bairros da Grande Vitória e as principais praças de Vitória. E quando alguém pergunta se ele pretende parar, responde: “Se eu parar, eu morro!”

Autor: Antonio Alaerte, jornalista e Técnico Cultural, nascido em São Gabriel da Palha (ES).
Livro: Escritos de Vitória – 15 – Personalidades de Vitória (1996).

Nota do Site: Durante 16 anos, principalmente na Praça Costa Pereira, os amantes de música e do projeto Artes na Praça puderam acompanhar as apresentações de um conjunto capixaba. Trata-se do Regional do Mestre Flores, que estreou durante a administração Hermes Laranja, atravessando as de Vitor Buaiz, Paulo Hartung e principalmente o primeiro mandato de Luiz Paulo Vellozo Lucas.

O Regional, a maior parte do tempo foi formado por Valinho (violão de sete cordas já morto), Liliu e Dissonante (violões de seis cordas), Ivo (sax tenor), Zacarias e Edgar (percussão) e Mestre Flores (cavaquinho).

No Rio de Janeiro, viveu quase 15 anos, só voltando a Vitória em 1961. Participou de muitas campanhas: O Petróleo é Nosso (torres simbólicas eram palanques nos discursos), Campanha pela Paz (contra o uso da bomba atômica) e outras.

Operário do PCB, ia todos os dias de madrugada à gráfica que imprimia os jornais “Imprensa Popular” (diário) e “Voz Operária” (semanário) e saía vendendo os dois, junto com companheiros, sobretudo em feiras.

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