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Mestre Pedro – Por Elmo Elton

Capa do livro - Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória

Houve tempo, em Vitória, que muito se comentava sobre a figura do curandeiro Mestre Pedro. Não que ele morasse nesta cidade, pois vivia no município de Viana, aqui vindo, contudo, em casos de extrema necessidade, isto é, toda vez que qualquer doente não mais tivesse forças para ir até a seu rancho. Contavam dele curas maravilhosas, "verdadeiros milagres", assim como se acreditava, piamente, na cartomante Dona lsmênia, está com residência em Vitória, nas proximidades da rua Graciano Neves. A Polícia, no que fazia muito bem, não permitia a presença de charlatães, homens ou mulheres, na cidade, prendendo-os e castigando-os, mas, em se tratando de Dona lsmênia, a coisa mudava de aspecto, podendo a mesma exercer livremente sua profissão, tamanha a crença e plena aceitação, de parte da população, no jogo de suas cartas e búzios, nas suas afirmações, predições e conselhos.

Mestre Pedro, embora, como já disse, não morando em Vitória, era nome dos mais populares em nossa capital. Suas garrafadas, seus chás, banhos recomendados e benzimentos foram, anos seguidos, matéria de discussão e louvor, conversa do dia-a-dia em casa onde houvesse doente, seu rancho transformado em ponto de peregrinação constante. Talvez que o poder de Mestre Pedro nada tivesse de sobrenatural mas que se concentrasse apenas no valor medicinal das folhas, frutos e raízes com que preparava suas garrafadas, seus chás e seus banhos, também pomadas, visto que o cientista Martius, já em 1825, afirmava que "as plantas medicinais brasileiras não curam; fazem milagres".

Leia-se, a título de curiosidade, o que, a propósito desse curandeiro famoso, escreveu um de nossos memorialistas:

"Na sua casa, perto de ltacibá, é procurado por todos as que buscam alívio, para males os mais diversos. Do mais humilde, até professores e generais visitam-no, a fim de receberem os prodigiosas passes dos seus guias.

Quando médicos desenganam, Mestre Pedro salva. Muita gente vem de longe implorar o amparo do velhinho, que só vive para o bem.

Se quisesse estaria riquíssimo, porquanto muitos por ele curados voltam para oferecer-lhe bens materiais, os quais renuncia, com desprendimento ultra-natural.

O que mais lhe agrada, porém, é continuar servindo aos que lá aportam. Quem o vê na pobreza, já velhinho, de pele escura, feições curtidas por ouvir tantos sofrimentos, cabelos em carapinha totalmente embranquecidos, percebe, desde logo, no lampejar daqueles olhos miúdos, estranhamente acaboclados, a personalidade transcendental, que dele se irradia.

Dores constantes, comichão permanente, inchação sem motivo, enfim os males que a incompetência terrena dá por incuráveis, são tratados com preces, benzimentos ou notáveis simpatias (...)

... O seu casebre de palha situado numa encosta de morro baixo, tipo meia laranja, fica escondido pela coivara bravia e por touceiras de pés de bananeira esparsamente plantados; quando se vai chegando, nada é necessário dizer. O velho sabe tudo, desde o momento em que, cá de baixo, se toca na porteira enorme, feita de grossas traves trancadas, ou se passa pela tronqueira de arame farpado, que impede a passagem de animais.

Antevê as pessoas, previne os acontecimentos e soluciona as dificuldades.

Sua vivência e poderes sobrenaturais são fatos incontestes e, para os que creem, inexplicáveis.

De certa feita uma dama da sociedade recebeu sobre si mandinga, que lhe foi feita por uma pessoa com quem havia discutido e desfeiteado.

Nasceu nela uma chaga tão grande, que os médicos alegaram não ter cura, por estarem os tecidos cancerosos.

Mestre Pedro curou-a, porém dizendo que no local da ferida ficariam impressas, para sempre, as feições da pessoa a quem ela havia maltratado injustamente.

Essa dama reconheceu, após, na marca deixada, a figura de uma empregada doméstica, que tivera, e a quem maltratara com palavras. Até hoje, esconde e disfarça com meias caras a verdadeira tatuagem que ficara impressa em sua perna.

Esse e centena de outros acontecimentos dão crédito aos constantes milagres de Mestre Pedro, figura inesquecível de mulato bom, cujos filhos são pessoas de bem, que, porém, não herdaram aqueles poderes que o velho possuía".(5)

Mestre Pedro, falecido na década de 50, sofreu, durante algum tempo, perseguição da polícia, sendo preso, nas imediações de Araçatiba, no município de Viana (ES), em 1918, por prática de curandeirismo, conseguindo liberdade imediata, graças a habeas corpus impetrado pelo advogado José Horácio Costa, avô do folclorista Renato Pacheco, a quem devo esta informação.

 

Notas

(5) GONÇALVES NETTO, J.F. - Arengas. Rio de Janeiro, Gráfica Editora LIVRO /SA, 1964.

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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