Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

Minhas memórias da Ufes - Por Francisco Aurélio Ribeiro

Revista Você, ano I - nº 6 - dezembro 1992 - UFES

Não pude estudar na Ufes, apesar de estar preparado para isso. Morava no interior e era arrimo de família. Tinha de trabalhar e estudar à noite, por isso fiz o curso de Letras em Cachoeiro, pago, com dificuldade, pois as aulas eram noturnas e a crise do petróleo, a partir de 1973, dificultou o deslocamento de Guaçuí para Cachoeiro. Pela manhã, trabalhava na roça, com meu irmão; à tarde, dava aulas no Colégio Estadual de Guaçuí e, à noite, ia de Kombi pra faculdade. Isso durante três anos. Em 1976, tive de ir morar em Cachoeiro, para terminar o curso, pois já não conseguia mais ir e voltar todo dia. Lá fiquei até 1979, pois, em 1980, começaram a surgir concursos públicos, pois a ditadura se extinguia, e pude vir pra Vitória como professor da rede estadual e da Marinha. Estudava muito, me preparando para ser professor da Ufes, minha principal meta. O concurso saiu em 1982 e fui aprovado em primeiro lugar, dentre cinquenta inscritos. Fui nomeado ao final do ano e, dois anos após, saí pra cursar o mestrado e doutorado na UFMG, ficando afastado de 1985 a 1989. Em quatro anos, fiz os dois, metade do tempo que, normalmente se gastava.

Na Ufes, desde o momento em que entrei como professor, lutei pela mudança no currículo. Como professor que veio da base educacional, pois comecei minha carreira como alfabetizador, aos doze anos, percebia que o conteúdo ministrado nos cursos superiores não condizia com a realidade. O professor estudava muita teoria literária e gramatical, mas pouco sabia do que deveria realmente ensinar no ensino fundamental e médio. Desde a graduação, já estudava Literatura Infantojuvenil com a professora Maria Antonieta Cunha, da UFMG, e sabia que precisávamos ter essa disciplina no currículo. O Brasil passava pelo chamado ‘boom’ da literatura para crianças e nomes como Ziraldo, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, Lígia Bojunga, Sylvia Orthof, Bartolomeu Queirós e Joel Rufino, dentre outros, produziam uma literatura que destacava o Brasil no cenário mundial. Também comecei a publicar nessa época.

Comecei, então, a organizar Seminários de Literatura Infantojuvenil, na Ufes, e foram seis, de 1983 a 1989, com a presença de grandes autores nacionais e maior número de participantes. Lotávamos o Teatro Carlos Gomes ou os auditórios da Ufes, com mesas-redondas, palestras, oficinas e encontros com o escritor. Paralelamente, estudava a literatura produzida no Espírito Santo, antes desconhecida por mim e pela maioria das pessoas, mas que teve grande incremento nos anos 1980, com a criação da editora da FCAA-Ufes, sob a regência do Reinaldo Santos Neves. A Ufes sempre teve grande importância no cenário cultural capixaba, por ser a única universidade federal, pública e gratuita, até hoje e na vanguarda dos movimentos culturais. Desde os anos sessenta, quando foi criada, a Ufes liderou as pesquisas, a produção e a divulgação nas Artes Plásticas, Música, Teatro, Cinema e Literatura, com maior ou menor visibilidade de cada área, em determinada década.

A partir da década de 1990, começamos a investir na pós-graduação em Letras, criando cursos de pós-graduação ‘lato sensu’, ou especialização, até que, em 1994, eu, Santinho e Geraldo Matos, com aprovação do Departamento de Línguas e Letras, apresentamos à Capes projeto de criação do Programa de Pós-Graduação em Letras, com o primeiro mestrado, na área de Literatura Brasileira, depois, transformado em Estudos Literários. Em 1992, fui convidado pelo Reitor Roberto Penedo para ser o primeiro Secretário de Cultura da Ufes, na reestruturação administrativa da universidade. Ainda que com poucos recursos financeiros, montamos uma equipe idealista e batalhadora com Ana Lúcia Junqueira, na Diretoria de Projetos, Neusa Mendes, nas Artes Plásticas, Paulo de Paula, no teatro, Marcos Valério, no Cinema, Terezinha Dora, na Música, Prof. Karel e Washington, na Orquestra de Câmara, Élia Marli, na Edufes, Reinaldo e Joca, na Literatura e Revista Você, Leonor e Márcia, no Museu Solar Monjardim, Leia Pandolfi, na Secretaria, e alguns poucos mais. Fizemos uma revolução na Ufes, mesmo em tempos de crise econômica e política terrível, pois era época do finado governo Collor, que o diabo o carregue. Sem recursos, cada mês e cada projeto eram uma luta para sobreviver, mas tínhamos credibilidade para buscar recursos e patrocínio na sociedade, além de humildade para pedir. Foi uma época muito fértil e, confesso que tenho saudades. Passou muito depressa, pois não tínhamos tempo para pensar. Era planejar e sair em busca de recursos para executar. O ápice de nossa produção cultural foi em 1994, quando comemoramos os 40 anos da Ufes e, em 1995, quando organizamos a Reunião anual da SBPC, pela primeira vez ocorrida na Ufes.

Em 1996, com a mudança na administração universitária, assumi a coordenação do PPGL e do Mestrado, tendo orientado a primeira dissertação, defendida em 1997 por Maria Thereza Ceotto. Mesmo acometido de grave doença e impossibilitado de dirigir, ia amparado por Tania Canabarro e Lúcia Kopernick, minhas alunas e orientandas, exercer minhas funções, pois era um momento crucial para a sobrevivência do PPGL. Permaneci por mais dez anos como professor voluntário no Mestrado e vi o programa se expandir, com a criação do Mestrado em Estudos Linguísticos e, mais à frente, o Doutorado em Letras. Nesse período, orientei umas trinta dissertações, sobretudo nas áreas de Leitura e Formação do leitor, Literatura Infantojuvenil e Literatura do Espírito Santo. Infelizmente, essas áreas não progrediram, com a minha saída, a do Busatto, da Bernadette Lyra dentre outros que ofereciam essas disciplinas. O que ainda permanece de nossa administração e de nossa intenção primeira de dar uma cara regional ao nosso PPGL foi a criação do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Literatura do Espírito Santo, o NEPLES, hoje sob a regência do Paulo Sodré e outros, e o Seminário Bravos Companheiros e Fantasmas sobre o Escritor Capixaba, bianual, cuja oitava edição foi o ano passado, homenageando a escritora Haydée Nicolussi (1905-1970). Tive a honra de fazer a palestra de abertura sobre essa nossa notável escritora. Espero, ainda, viver para ver criado, na Ufes, um Arquivo do Escritor Capixaba, como existe na UFMG do escritor mineiro, pois nossos escritores se vão e sua memória se perde no olvido do tempo e da fragilidade da memória humana.

 

Fonte: UFES: 65 anos – Escritos de Vitória, 33 – Secretaria de Cultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), 2019

Conselho Editorial: Adilson Vilaça, Ester Abreu Vieira de Oliveira, Francisco Aurélio Ribeiro, Elizete Terezinha Caser Rocha, Getúlio Marcos Pereira Neves

Organização e Revisão: Francisco Aurélio Ribeiro

Capa e Editoração: Douglas Ramalho

Impressão: Gráfica e Editora Formar

Foto Capa: David Protti

Foto contracapa: Acervo UFES

Imagens: Arquivos pessoais

Autor: Francisco Aurélio Ribeiro. Professor e Escritor. Presidente da Academia Espírito-Santense de Letras

Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2020

Variedades

Jesuítas fundam o primeiro colégio

Jesuítas fundam o primeiro colégio

Afonso Brás foi assim o fundador do primeiro colégio da Capitania do Espírito Santo e também o primeiro professor de letras

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

O Último Dia – Por Betty Feliz

Fomos passear na Lanchonete Sete e copiar alguns modelos do verão nas vitrinas da Doll Sport, que era o must da moda capixaba em 1968 

Ver Artigo
Nascida em 23 de maio - Por Terê Thomazini

Dia 23 de maio de 1970 foi meu nascimento aqui na cidade de Vila Velha. Na verdade dez anos antes, na cidade de São Gabriel da Palha Dona Lacy Thomazini dava a luz a uma menina que seria a primeira dos seus seis filhos

Ver Artigo
O Titânio na Costa do Espírito Santo – Por Archimimo Mattos

Os depósitos litorâneos de Benevente, Guarapari, Itapemirim  são de fácil exploração comercial, como, aliás, já foi feito com as areias monazíticas

Ver Artigo
A origem do nome Morro da Manteigueira

A Casa da Manteigueira, um antigo solar que tinha fama de ser assombrado pelos espíritos de dois amantes...

Ver Artigo
Sítio da Família Batalha – Por Edward Athayde D’Alcântara

Constituído de uma pequena gleba de terras de um pouco mais de três alqueires e meio (173.400,00 m²), fica localizado às margens do Rio da Costa

Ver Artigo