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Monumento a Domingos Martins

Foto escaneada do Livro - Catálogo dos Monumentos Históricos e Culturais da Capital - Vitória - ES, Autores das fotos do catálogo: Sérgio Lobos Martins e Flávio Lobos Martins Filho, 1992

Entre outras homenagens recebidas, Domingos Martins tornou-se nome de cidade, da Assembleia Legislativa, patrono da polícia Civil do Estado e tema do mais importante monumento público edificado em Vitória, capital do Espírito Santo, instalado pelo governador Bernardino de Souza Monteiro (em frente à sede do Governo e da antiga Assembleia que leva seu nome). Encomendado em 1915, ao escultor José Otávio Correia Lima (1878 – 1974), teve sua configuração formal e simbólica definida pelos integrantes do Instituto Histórico e Geográfico local. Seguindo a norma adotada na maioria dos monumentos executados durante a primeira república, a figura do herói e os demais elementos alegóricos que integram o monumento são de bronze, e a base onde se apóiam, em granito, materiais nobres e de durabilidade afiançável, para eternizar o mito.

As reflexões de Omar Calabrese nos ensinam que o herói “resiste a qualquer sentido de atualidade, a partir do momento em que nos abismos se perdeu todo o contato com a realidade que o gerara”. Mas cabe “aos bronzes atestar a sua indestrutibilidade”, tornando-se peças-chave na perpetuação da memória dos mitos e dos heróis pátrios, razão porque a escultura em pedra e bronze leva vantagem em relação à pintura ou a outros processos artísticos:

A forma dos bronzes resistiu à intempérie do tempo, à descontinuidade da história, à degeneração dos acontecimentos. Exprimem, pois, uma duração que vai muito além da vida dos homens e dos seus comuns artefatos, atestando (...) a sua indestrutibilidade. (...) Nada sabemos deles, nem o seu autor, nem o seu proprietário, nem o lugar de origem ou de chegada, nem o título que indicava o seu significado. São sem qualquer nome, isto é, sem qualquer propriedade. Tem a mesma configuração de um milagre ou de uma lenda (...) ao contarem a saga dos heróis. (CALABRESE, 1987, PP 202 – 204)

A concepção do monumento pauta-se em linguagem que carrega resquícios do romantismo e da ideologia positivista, destituída do caráter trágico que envolveu a morte do herói. O busto de Domingos Martins posiciona-se no alto e na parte anterior do bloco escultórico. A crítica costuma enfatizar o realismo que o escultor imprimia ás suas figuras. Neste caso, o escultor parece ter se inspirado na reprodução de retrato do herói, pintado a óleo por artista de seu tempo. A cabeça apolínea do jovem revolucionário possui traços harmônicos e fidalgos, porte atlético, expressão serena. Mantém o olhar fixo no horizonte, como se vislumbrasse que seu sacrifício não seria em vão.

O busto perpetua a ação corajosa e altruísta do personagem histórico no exato momento em que se posicionou frente aos executores, inspirado nas figuras da República francesa: camisa aberta, cobrindo-lhe apenas um dos ombros, permite visualizar o corpo viril e quase desnudo do herói (morto aos 36 anos), pleno de energia e de certa sensualidade. O retrato de Domingos Martins distancia-se, portanto, do caráter dramático, enfatizando a coragem e a determinação do revolucionário mesmo na eminência da morte. Diante do pelotão de militares que o executariam, abriu a camisa e ofereceu o peito, bradando com ironia: “Cumpri a ordem de vosso Sultão! Eu morrerei pela liber...” Sequer teve tempo de terminar a frase (inscrita da face anterior do monumento) e completar a palavra liberdade, atingido por rajada de tiros.

O tecido da camisa enrodilha-se em volta do torso do herói, formando uma espécie de moldura que oculta o corte abrupto do tronco do retratado e se institui como extensão do corpo, que parece prestes a submergir do interior da coluna de pedra, onde ele se apóia. Uma parte do tecido desprende-se e pende ligeiramente pelo pedestal, à direita, como uma fenda a drenar a memória e a continuidade da história, restituindo ao herói “o esplendor do sentido”, emprestando a expressão de José Gil. A fenda faz verter a “energia concentrada e não-codificada, que escorre do fluxo corporal (...) e irrompe como saída de si, no silêncio sem forma, o grande silêncio do corpo” inerte do revolucionário (GIL, 2005, p. 16).

Esse atributo potencializa, ainda, uma espécie de “tensão em movimento ou uma expectativa explosiva”, instaurando um abismo entre a memória e o aprisionamento do mito, através do ideal estético. A grandiloquência do retrato não remete ao passado, mas aponta para a idéia de futuro, subvertendo a lógica do discurso sobre o episódio dramático, para redimensionar o herói num outro tempo e espaço, confirmando a impossibilidade de redimensionar plenamente uma narrativa histórica atravessada por séculos.

Atrás do busto de Domingos Martins posiciona-se uma alegoria feminina, de rosto idealizado, vestes drapejadas deslizando com leveza e transparência sobre o corpo de harmoniosa anatomia. Essa sensualidade potencializa a altivez, nobreza e atitude destemida da mulher. Tem na cabeça um barrete frígio e inclina-se na direção do herói, mantendo o olhar pousado nele. O corpo em genuflexão posiciona-se lateralmente ao busto do herói, tangenciando-o, enquanto suas enormes asas se projetam em sentido oposto, formando uma espécie de nicho acolhedor do torso do mito. Os pés descalços e bem talhados da figura são lançados para trás. Enquanto um deles está quase obstruído por vestes; o outro e parte de sua perna nua, projetam-se para fora do espaço cênico, flutuando no ar, sem qualquer sustentação.

Com firmeza e convicção, a imagem alegórica puxa uma corrente, mantendo o braço direito levemente arcado, enquanto a mão cerrada aproxima-se do ombro do revolucionário. O braço esquerdo tensionado ao longo do corpo levanta a corrente que se projeta no espaço, para além do suporte, pondo em destaque o símbolo do ideal libertário defendido e difundido por Domingos Martins: o rompimento dos grilhões que nos uniam a Portugal. Caracterizando uma atitude protetora e maternal da figura em relação ao herói, a cabeça deste insere-se no intervalo gerado entre o braço e o corpo da mulher.

A alegoria feminina como exaltação da Pátria é um anacronismo, que tem origem na antiguidade, Foi apropriada pelas representações artísticas da República francesa, e como mulher destemida e corajosa matéria igualmente destaque na simbologia da república brasileira, Idealizada pela filosofia positivista de Augusto Comte, essa representação alegórica dominou os símbolos republicanos militares e civis, sendo adotada também pelos acadêmicos dos Institutos Históricos e Geográfico brasileiros, para os quais a humanidade, a pátria e a família constituíam a mais significativa tríade.

A alegoria feminina que integra o monumento a Domingos Martins representa ao mesmo tempo a liberdade, a pátria e a humanidade (o que explica sua proporção avantajada, em relação ao busto do revolucionário). Remete à combatente destemida da pintura do francês Eugène Delacroix (1798 – 1863), A Liberdade guiando o povo (1830). Entretanto, vale a pena observar que a mulher como alegoria da república aparece no Brasil antes mesmo da proclamação, tendo destaque nas charges publicadas na imprensa carioca, principalmente a partir da metade do século XIX.

A inauguração do monumento a Domingos Martins estava prevista para ocorrer dois anos após a definição da encomenda ao escultor José Otávio Correia Lima, para homenagear o centenário de morte do revolucionário (1917), mas, por motivos ignorados, a obra acabou sendo concluída com atraso de um ano, confirmado pela datação inserida no bronze pelo escultor juntamente com sua assinatura. Por essa razão acabou sendo inaugurado somente em 1922, para marcar a comemoração do aniversário de Vitória e o Centenário da Independência do Brasil.

Os elementos alegóricos desse monumento encontraram alguma simetria nas imagens aladas representado a Pátria e a Vitória, esculpidas por Correia Lima no Monumento ao herói da Guerra do Paraguai, Almirante Barroso (1909); ou em outros, edificados no Rio de Janeiro entre 1889 – 1930, como o de autoria de Eduardo de Sá, e memória daquele que consolidou a República, Floriano Peixoto (1910), período em que muitos monumentos públicos foram integrados à paisagem urbana da Capital Federal, que desde o início do século passado foi submetida a completa remodelação.

Se para Félix Duque, a multiplicação de monumentos na paisagem permite inserir “no espaço caminhar, passear, do deleite, do aprendizado” da arte e da revitalização da história, que é “uma concepção tipicamente moderna”, e própria do conceito Baudelaire ano de “flâneur”, Calabrese situa o monumento numa outra perspectiva. Afirma que, formatar um monumento é para o artista “renovar o passado”. Segundo o teórico italiano, isso significa que o artista “não o reproduz, mas antes, tirando dele como de um depósito formas e conteúdos esparsos, o torna novamente ambíguo, denso, opaco (...)”, operação que denomina “deslocamento”. Tal processo “consiste em atribuir ao que foi desvelado do passado um significado a partir do presente, ou em proporcionar ao presente um significado a partir do que foi desvelado no passado.”

Reflexão similar é postulada por Ruyssen, ao afirmar que os monumentos aos heróis, enquanto representações históricas e fenômenos culturais de um passado mítico instauram a possibilidade de arrolar discursos e narrativas sobre memória e esquecimento, “emergindo como preocupação” nos diferentes continentes. A revitalização de determinados feitos cívicos e acontecimentos políticos da história mundial gerados em passados-presentes muitas vezes traumáticos, que permaneceram na memória cultural impregnados no corpo-matéria dos monumentos públicos, permitem repensar e “entender situações locais específicas, historicamente distantes e politicamente distintas do evento original”. Por esse viés, o fato histórico se transforma “em metáfora para outras histórias e memórias”, possibilitando arrolar e refletir sobre “questões fundamentais como violação dos direitos humanos, justiça, responsabilidade coletiva”, liberdade, e “criar esferas públicas de memória contra as políticas do esquecimento”.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nº 64 - 2010
Autora: Almerinda da Silva Lopes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2011



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