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Morro da Ucharia

É aquele morrinho localizado em área do Exército, onde após 1997 foi colocada a bandeira nacional na entrada da Baía de Vitória perto do Forte São Francisco Xavier, na Prainha, em Vila Velha – ES.

Ucharia ou Axaria em português antigo significa armazém, depósito. E Luíza Grinalda no final do século XVI quando doou o Morro da Penha aos franciscanos (Frei Pedro Palácios já havia falecido e ainda não existia o Convento e sim apenas a Ermida das Palmeiras), já cita no termo o Morro da Ucharia também doado aos referidos religiosos.

Tudo indica que essa toponímia se dá que em seu topo ou perto da atual Enfermaria do 38º BI, perto do Forte (que na época de Vasco Fernandes Coutinho deveria ser uma paliçada), havia um depósito estrategicamente colocado e mais defensável. Na certa lá estocavam o valioso açúcar, com torrões para juntar numa carga que coubesse numa caravela a fim de exportar o produto para Portugal ou para Angola.

Quando nos anos 70 do século XX ocorreram obras, ali perto apareceram alicerces que podem ter sido da antiga Ucharia de Coutinho (o pai).

A partir de 1651 quando de fato começou a surgir o Convento da Penha, esse morro abobadado foi usado pelos religiosos para plantio de lavouras em alguns trechos de meia encosta que servia para isso, o que fotos do século XX chegam a mostrar. Depois a mata atlântica retomou seu lugar.

Moradores de Vila Velha percorriam trilhas no Morro da Ucharia para irem a ponto de pesca, o que cheguei a ver e andar a partir de 1961 com o aterro que ali atingiu iniciado em outubro de 1960 na orla da Prainha. Pelo menos tentava-se a sorte num ou noutro ponto da Ucharia.

Ali próximo o Exército chegou a fazer um molhe que lá está, muito procurado por pescadores credenciados que fazem arremesso de anzóis. O pesqueiro parece que dá para “quebrar galho”.

Pois bem, o tamanduá que havia na mata do Convento por lá deveria andar também, e ao passar à noite pelo posto de guarda assustou muitos sentinelas, que apavoravam vendo assombração, no turno mais silencioso depois da meia-noite, quando o relógio do Convento dava as últimas badaladas...

Aquele morrinho sempre chamava atenção e nele passeavam bandos de sagüis.

Em final de outubro de 1997, no momento em que se fundava a Casa da Memória de Vila Velha, coincidentemente ouviu-se estouro de fogos de artifícios vindo do Exército e era porque o Comandante Coronel Edson Admiral inaugurava o hasteamento da Bandeira Nacional no topo da Ucharia. Depois, mais à frente outro comandante elevou o mastro e o iluminou melhor.

De minha casa vejo a bandeira que lá fica dia e noite. Sei qual vento dominante está soprando e se está a meio pau por algum luto.

Quando ia na casa do amigo então Tenente Bueno na Vila Militar I (da Prainha) dava para ouvir o drapejar da bandeira quando passava na ladeira que acessa a referida casa, situada num afloramento rochoso. Era um privilégio, rever ali perto o aterro da Prainha com seu areal onde brinquei na faixa de 9 a 10 anos de idade.

A ilhota famosa, está lá aflorando; insiste em não sumir, é testemunha de quase cinco séculos do início da colonização portuguesa que por ali iniciou. Quantos da Prainha que nunca mais puderam ver a ilhota ou andar pelas trilhas da Ucharia ou em meio às pedras das Timbebas, logo depois do Cais dos Padres. Essa história e saudades ficam para a próxima.

Quem dera se o mar retomasse a Prainha. E olha que ele voltou levando cerca de 100 metros do maldoso aterro e se não fosse o entroncamento colocado ali em 1978 para proteger o aquaviário, em dias de hoje as correntes marinhas haveriam de ter levado a areia de volta para o canal e a graça e o esplendor da natureza que conheci ainda ou também teriam voltado.

Ucharia, nome que não pode ser esquecido, como Grinalda ou Athayde esqueceram.

 

Fonte: Adaptação de Roberto Brochado Abreu. Membro da Casa da Memória de Vila Velha.


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