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Não Vendo Fiado - Por José Valporto Tatagiba

Bar Barata Tonta

O velho boteco fica encolhido no meio da ladeira, onde todo dia passa o ônibus que vai descansar no ponto final do bairro Jesus de Nazaré e, no boteco, quem comanda o espetáculo por detrás do balcão sujo e quebrado, é uma mulherzinha esquisita, magra, boca torta e cheia de cacoetes por todos os lados.

O pequeno botequim leva o sugestivo nome de Barata Tonta, batizado e dedetizado por meu irmão, em noite de grande inspiração após testemunhar Pergentina, a dona do horrível estabelecimento, rodopiar várias vezes no meio da rua, como se fosse pião, bailando uma música inaudível, num espetáculo catatônico e perceptível a olho nu. Mais tarde, após alguns relatos de vizinhos bisbilhoteiros, vim a saber que Pergentina ocultava em seu “eu” estranhas manias para chamar a atenção dos fregueses.

Por esta razão, o boteco, como diria minha mãe. “é uma verdadeira mixórdia”, uma mistura de bar, armazém, manicure, papelaria, brechó e quitanda como algumas bananas apodrecendo na porta, pois a dona até hoje ainda não se definiu pelo ramo de atividade do local.

Uma curiosidade do Barata Tonta é que em todas as direções que a gente olha, tem um cartaz pendurado com a inscrição: NÃO VENDO FIADO ou FIADO SÓ AMANHÃ, mesmo assim, praticamente todos os fregueses do boteco só compram fiado, pois Pergentina tem vergonha de cobrar dos outros e, então, o pessoal aproveita.

Tem um homem barrigudo e alto, que leva a família inteira para o bar, e enquanto ele e a mulher se empanturram de cerveja e bolinhos, os filhos se lambuzam de refrigerantes. Quando vão embora levam embalagens de ovos, cigarros, balas e bolos para casa. Tudo fiado.

O botequim é freqüentado por todo tipo de gente, cada um com uma mania diferente, cada qual tem sua preferência por bebidas e tira-gostos estranhos.

Tem um sujeito que trabalha numa repartição pública perto do bar, que não sei como seu chefe não dá falta dele no serviço, pois o tal homem, que tem o apelido de “Ferrugem”, não desgruda de sua cadeira cativa, num cantinho perto de uma banca com tomates podres.

“Ferrugem” passa o dia inteiro sorvendo uma estranha bebida escura que Pergentina manipula às sextas-feiras à noite. Acho que a conta de fiado dele deve medir mais de quatro metros.

Outro dia, chegou para morar no bairro, vindo do morro do Alagoano, um sujeito feio igual a dor de barriga e a dona do bar colocou nele o apelido de “Sou Bonito Mesmo”.

Para conquistar amigos e dar bem com os moradores do bairro, o feioso gasta todo o salário que recebe, pagando bebida para os outros e, após pagar a conta, deixa no ar em tom bem alto para todo mundo ouvir: “Sou Bonito Mesmo!”

Durante alguns anos eu também mantive conta de fiado no Barata Tonta, tempos depois descobri que Pergentina mostrava para todos os moradores do bairro as contas de seus fregueses, então resolvi dar por encerrada a minha participação naquela loucura.

O pequeno botequim é verdadeiramente uma peça de teatro, com protagonistas que entram e saem de cena toda hora, uns jogam no bicho, outros saem sem pagar enquanto Pergentina cantarola uma musiquinha enjoada só para pirracear.

Meses atrás, foi inaugurada uma agência bancária perto do bar e Pergentina passou a depositar toda a féria arrecadada durante o dia em uma conta que o gerente abriu para ela.

Pergentina largava o bar aberto por conta dos fregueses, e ia de hora em hora ao banco, depositar os trocados que ia arrecadando. Por fim, o gerente encerrou sua conta e explicou que só com o atendimento dispensado a ela toda hora, o banco levava prejuízo.

Me parece que, semanas antes do Natal, Pergentina viajou para o Paraguai, na esperança de trazer mercadorias para vender no bar pois disseram a ela que dava muito dinheiro.

Ela foi ao Paraguai e voltou com dois radinhos de pilha, quatro bonecas, dois revólveres e algumas caixas de espoleta.

Até mariola paraguaia ela trouxe.

Vendeu tudo fiado e pelo que ouvi falar, até hoje não recebeu nem um centavo.

Ontem, Pergentina pagou a um rapaz do bairro, que tem cacoetes de pintor, para fazer novos cartazes de NÃO VENDO FIADO e espalhou por locais estratégicos dentro do Barata Tonta.

O caminhão que entrega cervejas tem uma semana que não aparece no bar, todas as verduras murcharam, Pergentina coloca mais uma dose da estranha bebida no copo de “Ferrugem”, entrega uma dúzia de ovos a uma criança, desconsolada anota toda a despesa no caderno de fiado e, divagando, senta-se na soleira da porta do bar.

 

Fontes: Escritores de Vitória, 1995
Autor: José Valporto Tatagiba
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014

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