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No Crepúsculo do Setecentos – Por Serafim Derenzi

Igreja do Rosário - Vitória 1860 Foto: Victor Frond

A população negra de Vitória, crescendo sempre, congrega-se em Irmandade e, por súplica, obtém do Bispo da Bahia, em 14 de setembro de 1765, provisão para construir a igreja de Nossa Senhora do Rosário. Modesta, simples e bem localizada, é belo testemunho de devoção dos humildes cativos africanos de Vitória.

Como se não bastasse tanta mazela aos capixabas, foi a população de Vitória sacudida, em 1° de agosto de 1767, às 8 horas da noite, por um terremoto que não causou prejuízo maior do que susto coletivo.

Fato curioso da anacrônica legislação monárquica, assinala Daemon, como o pitoresco castigo sofrido pelo Ouvidor Geral, Dr. Joaquim José Coutinho Mascarenhas, empossado em 11 de junho de 1787. Tendo-se consorciado com D. Maria da Penha, sem licença de El-Rei, foi preso por dois anos e remetido para Lisboa. Homem de fortuna apreciável, abandonou a Magistratura e fixou-se em Vitória, onde constituiu numerosa família. Seu neto, Cel. Manuel Ribeiro Coutinho Mascarenhas, ocupou altos cargos políticos. Uma rua na cidade lembra-lhe o nome.

Nesse ano torna-se regular o serviço de correio entre Campos e Vitória e por conseguinte, com o Rio de Janeiro. Era feito por índios civilizados. Em 1789, a 22 de janeiro, o Comandante das fortificações de Vitória, Cel. Ignácio João Mongeardino, é nomeado Capitão-mor da Capitania. Não lhes são gabadas os picuinhas temperamentais, porém revelou-se conhecedor dos problemas administrativos e os expunha com franqueza aos Governos responsáveis.

A língua tupi, estudada e cultivada pelos missionários, generalizara-se entre os brancos ao ponto de ser usada até nos púlpitos pelos pregadores. Apesar de proibição régia, desde 1727, o hábito não declinara; ao contrário, pois a Câmara Municipal, em 23 de maio de 1795, baixou postura obrigando o uso da língua portuguesa. Conseqüência absoluta da falta de escolas primárias.

O último Capitão-mor da Capitania foi Manuel Fernandes da Silveira. É o primeiro a trazer o título de Governador Regente. Citamo-lo por marcar uma inovação, não porque houvesse praticado feitos históricos de relevância. A extinção do título de Capitão-mor, atribuído ao governo das Capitanias, data de 12 de maio de 1798; mas somente por Aviso de 12 de agosto, D. Rodrigo de Souza Coutinho, Ministro da Marinha e dos Negócios Ultramarinos, futuro Conde de Linhares, apostilou a nomeação do primeiro Governador do Espírito Santo, feita por D. João, Príncipe-Regente, com a patente desse teor. O agraciado, Antônio Pires da Silva Pontes Leme, oficial de Marinha e bacharel em ciências matemáticas, pela Universidade de Coimbra, só tomou posse em 29 de março de 1800.

A intenção do Príncipe-Regente foi desagravar o Espírito Santo dos maus governos. Assim se expressa o futuro D. João VI: "Tendo-me devido um particular cuidado o reanimar a quase extinta Capitania do Espírito Santo, (o grifo é meu), confiada até agora a ignorantes e pouco zelosos capitães-mores. Fui servido nomear para a mesma um governador particular que vos fica sempre subalterno e escolher um homem de conhecidas luzes e préstimos na pessoa do capitão de fragata Antônio Pires da Silva Pontes Leme".(13)

Recomendava o rei abrir caminho para Minas Gerais, ampliar e conservar as matas (!) da Capitania, o que não se fez até, hoje, incrementar as culturas e civilizar os índios, abandonados após a expulsão dos jesuítas. Muito bem informado andava o bonachão Regente sobre o descaminho do Espírito Santo, para usar o termo contemporâneo. Mas nada foi feito. Tudo ficou nas intenções.

 

NOTAS

(13) Extraído da citação de José Teixeira de Oliveira. Carta Régia ao Capitão General Francisco da Cunha Menezes, Governador da Bahia.


Fonte: Biografia de uma ilha, 1965
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2017

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