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No Maracanã, 1950 e 2014

O goleiro Máspoli e o jogador da Seleção Brasileira Augusto de abraçam após a derrota brasileira no Maracanã em 16 de julho de 1950 - Foto: José Medeiros

Vi pela mídia, na manhã do dia 30 de outubro de 2007, um Rio de Janeiro inteiramente engalanado de verde e amarelo na Praia de Copacabana.

Bandeiras e faixas descerradas nas janelas dos prédios; bolas, bandeiras, papeizinhos dourados ziguezagueando no céu ensolarado. Muita música, muita cerveja e urras-urras de vitória. Uma alegria compacta na fácil explosão de brasilidade que tão bem caracterizara o pobre povo brasileiro. E o então presidente Lula puxando o cordão. Momento de vitória do Brasil, na Fifa, para sediar os jogos da Copa do Mundo. Uma vitória de peso sobre competidores donos da grana.

Mesmo sem entender de assuntos burocráticos, venho acompanhado com interesse a movimentação frenética que se seguiu depois. Uma bagulhada de projetos, planejamentos, licitações, acordos, desacordos. Hotéis aumentando sua capacidade de receber turistas, aeroportos em restauração, construção e recuperação de estádios, monitoração de favelas, dinheiro rolando não sei pra onde e nem pra quem. É o Maracanã se preparando para voltar a brilhar como o maior palco do futebol mundial.

É a velha história: já que matamos a cobra, temos que mostrar o pau, né? Mostrar ao mundo que também podemos. Só me pergunto: a recompensa virá depois? Não falo em recompensa na economia porque a economia brasileira é complicada demais para minha velha cabeça. Falo como cidadã brasileira futebolística, fluminense de coração e amante incondicional da Seleção verde-amarela. A verdade é que nosso futebol está mais pra lá do que pra cá. Ainda com a pulga atrás da orelha, pois já vi este filme em outro tempo. Movimentações financeiras rolando, alegria e otimismo jorrando de orações aos céus, e, de repente o choro silencioso de uma nação inteira.

Pois é. Aconteceu numa tarde insana do dia 16 de julho de 1950, no Maracanã. E eu estava lá, encaramos, eu e minha irmã, numa viagem de 12 horas num trem noturno do Leopoldina Railway. Destino: o Rio de Janeiro, em festa, tão verde e amarelo quanto o que vi agora em Copacabana. Destino maior: Maracanã. Um Maracanã recém-construído, uma arquitetura inovadora, nunca vista antes, redondo, gigante, impactante, impondo uma visão reverencial. É o templo sagrado do país do futebol.

Subimos uma rampa em fila, agarradas à cintura de meu irmão para não nos perdemos no turbilhão do povaréu em festa. Desembarquei emocionada numa nova dimensão. Além daquele gigantesco tapete verde havia uma Copa do Mundo.

Com o nosso futebol no apogeu, um elenco de craques em alta – Mestre Ziza, Chico, o guerreiro, Ademir, Danilo - estava ali a casa da vitória. O clima eufórico era contagiante, não era só o futebol. Era o orgulho nacional manifestando-se nos gritos e aplausos do torcedor.

Veio o primeiro gol brasileiro e o grito ansioso de “a taça do mundo é nossa”. Um grito de glória que foi se esvaindo após o empate do Uruguai. E que morreu na praia (um empate, ainda, garantia a vitória) 10 minutos antes do apito final quando Ghigia entrou na área e com um chute de bico “apunhalou 200 mil corações num só golpe” (palavras de Zagallo, um jovem torcedor de 18 anos, ali presente).

Não consigo lembrar-me dos últimos momentos do jogo. Talvez tivesse fechado os olhos, tapado os ouvidos, nem sei. Só me lembro da sensação de ter caído no fundo de um poço e da imagem do meu irmão, virado contra o tapete verde num choro silencioso.

Disse Zagallo num depoimento: “Eu pertenci ao time de jovens que tiveram a fantasia do patriotismo rasgada pela maior tragédia sem vítimas fatais”. Eu, dona Santa, também. Era jovem e estava lá.

Bem, seis décadas já se passaram, e agora o Maracanã se anuncia como palco de mais uma final de Copa do Mundo. O Brasil hexacampeão, uma glória, tá certo, né? Mas perder em casa, repetindo a tragédia de 1950, será inesquecível. Meu Deus!!! Fred, Neymar, Paulinho... Por favor, tirem essa pulga de trás da minha orelha. De pé, de cabeça, de barriga, de canela, em pé ou deitado. É a chance de romper o silêncio que, em 1950 se abateu no velho Maracanã.

PS: Quem sabe estarei ali, novamente? Amém.

 

Fonte: Jornal a GAZETA, 14/06/2014
Autora: Elça Melo Soares (Dona Santa)
Título Original da Crõnica: No Maracanã, ontem e hoje
Compilação: Walter de Aguiar Filho, julho/2014

 

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