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O Agente do Afeto - Por Rogério Medeiros

Ilustração de Moema Rebouças

A maior parte de nós não sabe por que vive e nem porque vai morrer.  Mas Hermógenes Lima Fonseca sabia.

Tanto sabia da vida como da morte, que foi enterrado sob o amor dos personagens que celebrou em suas crônicas. Raro exemplo de que a morte poderia ter sido seu último ato de prazer terreno, como, certa vez, suspeitou a escritora Clarice Lispector em idêntica situação.

Ou quem sabe não tenha ele de fato morrido, pois há determinadas pessoas que não morrem. Para mim, ele não morreu. Acostumado às tradições indígenas, prefiro achar que ele encantou. O mesmo achou o poeta Maciel de Aguiar, que, no clima de emoção do enterro do cronista, sacou o poema: “O Homem Que Virou Lenda”: - Lá se foi o contador de histórias da boca do povo / o guerreiro do Alardo de São Sebastião / o devoto do Ticumbi de São Benedito / o “Armojo” dos negros do Cricaré / com sua vida quase octogenária / encantar-se e virar lenda. / A lenda viva de quem amou e viveu intensamente / a terra que lhe viu nascer / os bichos, as matas, os córregos, as mulheres / e que se misturou às tradições / e aos “causos” da boca do povo / com tamanho e sublime coração / que muitos hão de perguntar / se realmente ele existiu de se pegar... / Todos nós temos o dever de contar / a história dessa lenda / e eu quero começar a conta-lá do jeito que eu aprendi: / - Era uma vez Hermógenes Lima Fonseca / um anjo bom que passou por aqui...

Um anjo bom. Maciel tem razão. Volto há 20 anos, onde minha lembrança vai para o momento em que ele me convoca para levá-lo de volta para Conceição da Barra: “Acabou meu exílio, quero voltar para minha terra para poder contar a vida de meu povo”.

Fiquei temeroso e tentei demovê-lo da idéia, mostrando que em Conceição da Barra não haveria condição alguma de sobrevivência. “Se tiver o mínimo para comprar papel para botar na máquina de escrever é bastante”, respondeu. “Um prato de comida não há de me faltar em Conceição da Barra. O que eu não posso é ficar aqui respirando às escondidas o ar da minha terra”.

Não era um ato simples, como havia interpretado. Mas o impulso da liberdade. Um legítimo personagem de Chateaubriand: filho da humanidade. Pois Hermógenes não foi um simples contador de “causos”, como gostava de ser conhecido. Ele foi, sem dúvida alguma, um personagem inigualável. De origem humilde, filho de camponês, ele retratou como ninguém, porque era portador da emoção do meio, a história de seu povo.

Celebro-o neste pequeno espaço, com a emoção de quem teve a felicidade de ser seu companheiro por quase 40 anos. Mas também com o orgulho de tê-lo visto ser celebrado pelo povo a quem se juntou nos melhores anos de sua vida.

O seu sepultamento foi o coroamento de uma vida servida ao amor. Seu caixão foi carregado pelos braços dos congos, com seus trajes de festa. Era gente do Ticumbi, do Alardo de São Sebastião, das Pastorinhas, dos Reis-de-Boi, da Lira.

Foi levado à sua última morada por quem ele amou e foi amado. Creia, quem me lê que o Hermógenes foi um legítimo personagem do amor. Não conheço outro exemplo de um escritor que tenha escrito a história do povo com quem viveu um caso de amor.

Ele não se tornou um herói, mesmo tendo feito do seu povo um povo vencedor. Para encerrar, utilizou-se de Guimarães Rosa quando disse a Clarisse Lispector que ele não a lia para a literatura, mas para a vida. Também não se leu Hermógenes para a literatura, e sim para a vida.

Em nome dos amigos, dos companheiros, e dos personagens de suas crônicas, obrigado príncipe!

Fonte: Era uma Vez... Hermógenes Lima Fonseca Um Anjo bom que passou por aqui, 1997
Autor: Rogério Medeiros
Compilação: Walter de Aguiar Filho, agosto/2014

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