O Bonde

Editor: Morro do Moreno - publicada: 28/03/2012

Bonde e a Praínha ainda sem o aterro

Vila Velha primitiva dispunha, além de seu núcleo central, de três aglomerados urbanos importantes na sua formação, sendo eles Aribiri, Paul e Argolas. Aribiri e Paul surgiram em decorrência da inauguração da linha de bondes, em 1910, enquanto Argolas, das estações de trem da Leopoldina e da Vitória a Minas.

Aribiri localizava-se mais ou menos no meio da linha de bondes e Paul no fim, às margens da baía de Vitória. O outro extremo da linha ficava em Piratininga, na entrada para o Batalhão do 3º BC, antes 50º BC e hoje Batalhão Tibúrcio. Este ponto era parada obrigatória e ensejava o desembarque e embarque de pracinhas e oficiais, que entravam no Batalhão para as suas obrigações militares ou dele saíam. Dificilmente uma pessoa à paisana, sem assunto tratar naquela paragem, tomava o bonde para no mesmo retornar no percurso de volta. Geralmente ela o aguardava na pracinha da Matriz – Igreja Nossa Senhora do Rosário -, próximo ao famoso e conhecido bar Ponto Chic. Ao lado desse estabelecimento comercial ficava a Casa Paroquial onde, além do pároco da cidade, hospedavam-se autoridades católicas, principalmente em dias festivos da Santa Sé.

O bonde proveniente de Paul fazia a sua última parada para apanhar ou deixar passageiros no ponto que antecedia Piratininga, nas proximidades do bar Ponto Chic, seguindo daí, sem mais parar, até Piratininga. Coincidindo com o horário da saída dos militares do 3º BC, a condução era aguardada com ansiedade, transportando-os até outros pontos de Vila Velha, ou mesmo até Paul, final da linha, de onde seguiam com destino a Vitória. Chegado o bonde, os passageiros acotovelavam-se por um lugar sentado. Aqueles que ao conseguiam esse conforto apinhavam-se pelos estribos, pendurados em seus balaústres, mas uma coisa era certa: soldado raso, cabo ou sargento estavam impedidos de se assentar nos três primeiros bancos, que somente podiam ser ocupados pela oficialidade e permaneciam vazios caso nenhum oficial estivesse presente por ocasião do embarque, uma das exigências da rígida disciplina militar. Aqueles que desobedecessem a essa ordem ficavam sujeitos a penalidades como advertência, recolhimento ao quartel e outras mais severas. Os passageiros comuns ocupavam os lugares que melhor lhes aprouvessem.

Bastante interessante era o final da linha, em Paul. O bonde deixava os passageiros pelo lado esquerdo, com o estribo sobre o beiral de uma casa comercial, sem tocá-lo e, pelo lado direito o estribo, nas mesmas condições do primeiro, sobre calçada a céu aberto, com uma mureta de proteção ao cais de bote abaixo, sustentada por pilares de cimento armado traspassados por dois canos galvanizados. Tanto de um lado como de outro os passageiros que saltavam do bonde tinham acesso livre ao abrigo da estação das lanchas, fosse para tomar a lancha de imediato, fosse para aguardá-la, se ainda não estivesse atracada.

A casa comercial que mencionamos anteriormente abrigava um modesto bar onde podiam fazer pequenos lanches aqueles que aguardavam a chegada do bonde ou das barcas. O fato é que todos os fregueses desse pequeno estabelecimento comercial eram passageiros do sistema.

 

Fonte: Ecos de Vila Velha,2001
Autor: José Anchieta de Setúbal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março /2012

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