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O casamento – Por Jair Corrêa

O casamento, em Aimorés, a 27 de dezembro de 1939

Nessa época, eu não tinha morada. Eu só viajava. Quando eu chegava em Vitória, ficava na casa da Anita porque ela não deixava eu ficar no hotel de jeito algum. E eu ficava sempre na casa dela.

E, então, conversando com a Ana, ela me disse: "Olha, se eu não casar este ano, eu também não caso no ano que vem não, porque é bissexto". Isso, mais ou menos, em outubro. Outubro ou setembro. Em 1939. Eu tinha passado lá por Aimorés e recebi esse ultimato. "Minha filha, eu não sei se posso agora", eu disse. Mas ela me apertou. Ela não queria, de jeito nenhum, casar no ano bissexto. Muito religiosa, ela tinha aquelas coisas de irmã de caridade e dizia que casamento em ano bissexto não tinha jeito, não dava certo. Então eu disse: "Então você manda preparar os papéis que eu viajo nessa zona aqui, depois vou a Vitória, dou um jeito de comprar uns móveis lá e volto".

A Ana já morava, nessa época, em Aimorés. Ela morava com a Alcina.

Aí fiz a viagem e vim a Vitória. E fui no Gric, um gringo muito amigo meu que vendia móveis. E eu fui a ele e disse: "Olha, Gric, eu estou apertado. Estou precisando de uns móveis mas só posso pagar a prestação". E ele então me facilitou: "Ah, Jair, você escolhe aí o que você quiser". Então eu escolhi os móveis de quarto, de sala e a copa. Eu sei que foram 5 contos de réis os móveis. "Você paga como puder. Não se incomode não", disse ele para mim. Eu resolvi pagar 500 mil réis por mês. Fiquei dez meses pagando.

Aí fui embora e falei com a Ana: "Olha, você prepara tudo que eu só vou passar aqui na semana do casamento. Não tenho mais tempo". E fui fazer aquela zona de Afonso Cláudio, de Governador Valadares, Teófilo Otoni e aquela zona toda lá da Bahia-Minas. Fui até Nova Era, voltei e na antevéspera do casamento ainda fui fazer Resplendor, Conselheiro Pena e outra estação perto de Governador Valadares. E fazia esse roteiro no trem de carga. E, por infelicidade, quando eu fui tomar o trem em Conselheiro Pena para ir para a outra estação, o trem começou a andar, eu escorreguei e ralei a perna toda. O casamento era sábado e isso aconteceu na quinta-feira. Fiquei com a perna toda arrebentada. Mas consegui me equilibrar e não fui atropelado. Senão, seria pior ainda. Fiz a tal estação, fui a Governador Valadares e voltei. Voltei para o casamento.

Cheguei e casei. E disse à Ana: "Você diz que a vida de viajante é boa, é ótima, então nós vamos viajar. Vamos fazer aquela zona lá de Minas: Conceição do Cerro, São João Evangelista, Diamantina. Você vai comigo". Mas foi no mês de dezembro. E no mês de dezembro, naquela zona, chove à beça. Mas nós casamos, fomos a Belo Horizonte, passamos em Belo Horizonte uma semana passeando e aí fomos para Nova Era. Eu fazia a Praça de Nova Era e outras praças ali perto. Quando chegamos em Nova Era, a Dona Ana não estava passando bem e, por isso, ficamos mais uns três dias lá. Como ela estava comigo, eu resolvi alugar um carro. Com o carro nós íamos a Itabira, Conceição, São João Evangelista, fazer aquela zona toda. Aí aluguei um Ford. O chofer se chamava Dimas. Custava 1 mil réis por hora rodada, era o preço normal da época. Aí saímos de Nova Era e fomos a Itabira. E de Itabira fomos a Mato Dentro, a Conceição, aí descemos, fomos a Conceição do Cerro, mas numa luta danada porque caía uma chuva terrível. E chovia e o carro atolava aqui, atolava ali e a Ana só fazia rezar porque não havia mais nada a fazer.

E depois de um mês de viagem, eu vi que ela estava saturada de viajar. E quando nós chegamos em Diamantina, lá no Grande Hotel, ela me falou: "Ah, Jair, eu estou com vontade de voltar para casa". E aí eu tive que sair lá de Diamantina, ir a Aimorés e depois voltar para prosseguir a viagem novamente. Vim, deixei a Ana em casa e comecei a viajar de novo. Nós já tínhamos montado a nossa casa, que alugamos de Isidoro, aquela mesma casinha que nós moramos tanto tempo. O Isidoro tinha duas casas, uma ao lado da outra. A Dona Delfina morava em uma e nós morávamos em outra. E o Levindo morava na esquina onde hoje mora o Justo de Assis. Ali na Avenida Raul Soares.

E eu continuei a viajar. Aí nasceu a Ana Maria. E quando nasceu o Jairzinho, depois que ele nasceu, eu fui, de novo, viajar. Quatro dias depois que Jairzinho nasceu eu peguei um trem e fui a Resplendor, e de Resplendor fui a Conselheiro Pena para voltar, depois, a Resplendor. Era um trem de carga. E quando estava voltando de Conselheiro para Resplendor, o trem vinha carregado com um dínamo no carro de bagagem. Eu achei aquilo esquisito, porque o dínamo era uma espécie de gerador, muito pesado. Eu tinha até falado para o rapaz: "Você não acha que isso é perigoso de ser carregado desse jeito?". E, naquela época, a Estrada Vitória-a-Minas estava uma miséria, uma porcaria. Tombavam trens toda hora. Aí saímos de Conselheiro Pena. E quando chegamos a uma curva a uns quinze quilômetros de Resplendor, o trem começou a balançar e eu pensei: "Tombou tudo". Tombou, tombou e eu, que estava sentado próximo à porta do trem, tombei também e fiquei preso debaixo do carro. Eu tiquei com os ombros presos com a compressão do carro, entre o trilho e o carro. E todo mundo começou a correr, um machucou a perna, outro machucou a cabeça, só eu tiquei preso. Era comum pessoas viajarem nos trens de carga. Eu tinha uma caderneta de viagem que me dava direito a viajar em trem de carga. Os viajantes podiam.

Então, bate aqui, bate dali, começaram a tentar suspender o carro com um macaco. E quando começaram a suspender o carro eu gritei: "Pára, pára". É que quanto mais o carro suspendia, mais me comprimia. Aí pararam e um deles disse: "O jeito é escavar". E nem ferramenta para cavar eles tinham lá. E tiveram que pedir ferramentas emprestadas, umas enxadas. E com elas cavaram por debaixo dos trilhos. O carro estava escorado por um macaco, o trilho cedeu e então me tiraram. Eu fiquei com duas faixas pretas aqui no ombro, onde eu fiquei preso.

Aí me jogaram num barranco e pediram socorro lá de Resplendor. E eu fiquei encostado no barranco, todo ensangüentado porque eu tive um talho grande na cabeça. E chegou, então, a mulher de um operário lá da estrada e me perguntou: "O senhor está se sentindo mal?". Veja só. Eu todo ensangüentado e ela me perguntando isso. E eu então respondi: "Eu estou mais ou menos, não é?". "O que é que o senhor quer? Quer tomar um pouco d'água?", ela me perguntou. E eu respondi: "A senhora pode fazer isso? Vá lá e traz um canecão com sal e água morna para eu beber". Ela foi lá na casa e trouxe um canecão, daqueles de azeite — ainda me lembro do jeito dele — misturou água e sal e eu bebi aquele troço todo e fiquei esperando o socorro de Resplendor.

Aí veio um automóvel de linha. Veio com um médico porque eles sabiam que havia gente ferida. E quando eu estava sendo socorrido o Doutor Leão, que era o médico, me colocou dentro do automóvel de linha e comentou com outra pessoa: "A situação dele não é boa, não. Anda depressa aí que a situação dele não é boa não". Chegamos em Resplendor e me levaram para um hotel porque lá não tinha hospital. E o médico me deu umas injeções e eu escutei ele dizer: "Se o intestino dele desenvolver, ele está salvo. Se paralisar o intestino, ele está liquidado". Foram as últimas palavras que eu escutei dele e desmaiei. Desmaiei, mas eu tinha tomado aquela água e sal e aquilo devia estar roncando no meu estômago. Quando chegou, então, de madrugada, eu estava com uma vontade de evacuar enorme, E eu evacuei naquela cama toda. A sorte minha foi ter tomado aquela água com sal.

Aí fiquei em Resplendor seguramente quase um mês, mas não deixei ninguém dar a notícia em casa, lá em Aimorés. Fiquei quinze dias em Resplendor e depois fui para a casa da Alcina. O João Campos já tinha aberto outra loja lá em Aimorés, a outra "A Brasileira", no mesmo lugar onde "A Brasileira" está até hoje. E eu fui para a casa da Alcina, mas disse para ninguém falar nada lá em casa. Fiquei uns dez dias lá na Alcina, todo remendado, esperando cicatrizar o joelho e outros lugares que tinham sido feridos. E só depois cheguei em casa, como se estivesse chegando de viagem. Para que nada no meu corpo ficasse paralisado, tive que tomar até estricnina. Era o remédio, na época, para recuperar o que poderia ficar paralisado.

Aí fui para casa e cheguei todo limpinho. Normalmente eu chegava todo sujo. Mas a Ana, inocente, nem desconfiou de nada. Eu tinha escrito para ela normalmente e a Alcina botava a carta no correio para que ela não desconfiasse de nada. Ela não sabia de nada. Quanto aos meus machucados eu dizia que tinha escorregado no trem. Só depois de muito tempo que a senhora do Assbú disse a ela: "Ei, Ana, você viu? O Jair se salvou por um milagre!" E ela: "Milagre de quê?" Isso na saída da missa. "Você não soube, não?", ela perguntou. "Ele ficou imprensado no trem", disse. "Eu não soube de nada não", disse a Ana. "Ah, você está fingindo que não sabe", comentou a mulher. Aí é que ela veio me perguntar e eu contei o acontecido.

Passada essa fase, a Ana me disse: "Você precisa deixar de viajar, isso é muito sacrifício. O Miro está com uma agência de loteria aí e quer vendê-la. Compre a agência de loteria do Miro". A Ana, nessa época, lecionava na Estrada.

Então eu fiz negócio com o Miro e comprei a loteria dele.

 

Apresentação do Livro “Os Caminhos por onde andei” – Por José Carlos Correa

Foi durante as conversas que sempre tenho com meu pai que nasceu a idéia desta entrevista. Sempre gostei de fazê-lo recordar as passagens da sua infância e da sua juventude. É que percebi que essas recordações são por ele guardadas com muito carinho. Com admirável riqueza de detalhes ele descrevia os fatos, as datas, os cenários, os diálogos. E quando repetia alguma história meses depois, o fazia com notável precisão, com depoimentos rigorosamente iguais. Esse detalhe mostrava, com clareza, que suas recordações eram verdadeiras, rigorosas, fiéis, sem exageros ou omissões tão comuns nas conversas coloquiais.

Inicialmente planejei apenas gravar suas histórias. Queria guardar uma fita com aqueles casos mais conhecidos da vida de meu pai, que eu já tinha ouvido algumas vezes mas tinha sempre receio de esquecer algum dia. Ali estaria a sua voz, o seu jeito característico de falar, as suas memórias mais importantes, suas lutas, seus ideais. Seria, para mim, uma lembrança preciosa a guardar junto com os meus álbuns de fotografias.

Tudo combinado, passamos uma tarde inteira de um domingo de junho de 1988 a conversar diante do gravador ligado. E a medida em que ele falava, mais me convencia que estava diante de um documento importante. Porque enquanto a fita rodava, papai narrava com desenvoltura toda a sua vida, fluentemente, sem pausas, sem vacilações, sem o menor cansaço. E o que seria uma conversa despretensiosa, passou a ser uma entrevista comovente. Papai abriu seu coração, mostrou-se de corpo inteiro como realmente ele é: um homem de coragem, que viveu intensamente a sua época, que construiu uma vida de trabalho que é um exemplo e um orgulho para todos os que puderam compartilhar dos seus dias.

Quando ele colocou um ponto final na gravação, a noite já descia sobre Vila Velha. E ao acender a luz do seu quarto, onde conversamos, eu já sabia que tinha feito a entrevista mais importante da minha vida.

Foi então que decidi passar tudo o que havia sido gravado para o papel. Quem sabe, reescrever as histórias, rearrumá-las dentro de uma seqüência de mais fácil leitura e passar um exemplar para cada filho. E por que não também para os netos? Para as pessoas mais chegadas?

E comecei a transcrever o material. E quanto mais transcrevia mais percebia que a seqüência estava correta. Papai se mostrava um perfeito e competente contador de histórias. Até algumas idas e vindas, a citação de um fato mais recente antes de um mais antigo, um comentário perdido adiante referindo-se a caso já contado, até todas essas coisas tomavam a leitura mais agradável. E resolvi transcrever a sua fala até o fim.

O resultado é o que aqui está. Não foi preciso reescrever coisa alguma. Não foi preciso rearrumar nada. Bastou ouvir e passar para o papel.

A comemoração dos 80 anos de papai me dá a ocasião perfeita para fazer essa homenagem. Uma homenagem que, certamente é dirigida mais a nós, filhos e netos, do que a ele. Porque, em verdade, é ele quem nos dá esse presente no dia do seu aniversário. O presente de deixar, para cada um de nós, um pouco de sua vida, das suas lembranças, da sua emoção. O presente de podermos sentí-lo bem pertinho. Para sempre.

José Carlos Corrêa 

Fonte: Os caminhos por onde andei, Capítulo III O casamento- 1989

Autor: Jair Corrêa
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2018

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