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O cavaco não cai longe do pau

Luiz Guilherme Santos Neves e Fernando Achiamé

Por: Fernando Antônio de Moraes Achiamé (Associado efetivo do IHGES)

“O cavaco não cai longe do pau”, diziam os antigos. Ireis entender o motivo desse provérbio ser aqui empregado.

A Comenda “Professor Ceciliano Abel de Almeida” foi instituída na gestão da Professora Dra. Lea Brígida Rocha de Alvarenga Rosa à frente do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, a instâncias do ex-presidente da instituição, Prof. Renato José Costa Pacheco, que a concebeu, e redigiu suas normas. Visa distinguir pessoas de renome que colaboraram com a cultura espírito-santense em geral, e com o Instituto Histórico em particular. O professor Renato Pacheco certamente pensou no nome do Dr. Ceciliano para patrono da comenda por razões pessoais – foi seu aluno no Ginásio do Espírito Santo e seu secretário quando ele exerceu a presidência do Instituto Histórico – mas, sobretudo, pelo fato de o Dr. Ceciliano ter sido um espírito-santense ilustre que, da origem humilde em São Mateus, conseguiu se formar em engenharia no Rio de janeiro, tendo participado de momentos decisivos da vida do nosso estado durante a primeira metade do século XX. E o fez na qualidade de construtor da Estrada de Ferro Vitória-Minas, experiência que registrou no livro O Desbravamento das selvas do rio Doce, fundamental para se compreender a incorporação de vastos territórios à sociedade e à economia espírito-santense. E também por ter desempenhado as atividades do excelente professor de inúmeros capixabas, de primeiro prefeito municipal de Vitória, de primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando a instituição ainda estava no âmbito estadual. O Dr. Ceciliano era dessas pessoas que, no exercício do poder, mesmo com sacrifício pessoal, servia verdadeiramente ao interesse público e não se servia do cargo para fins particulares. Um único episódio, retirado do folclore familiar desse mateense notável, serve para ilustrar o seu modo de proceder. Quando prefeito de Vitória, chamou um fiscal do município e determinou que fossem multados os proprietários de uma casa próxima ao parque Moscoso, por estarem secando roupa em desacordo com as posturas municipais. Horas depois, o fiscal retorna com o argumento de que não poderia multar o dono da referida casa, por ser ele o próprio prefeito. Incontinênti, o Dr. Ceciliano deu ordem expressa para que fosse aplicada a multa prevista em lei, já que a maior autoridade de Vitória deveria dar o exemplo aos demais cidadãos...

A primeira pessoa agraciada com a Comenda “Professor Ceciliano Abel de Almeida”, criada em 2003, foi o D. José Teixeira de Oliveira, insigne historiador nascido em Barbacena, que desde moço residiu no Rio de Janeiro, e já falecido. Em 2004, outorgou-se a distinção ao Dr. Luiz Carlos Biasuti, capixaba de Santa Teresa, que se destacou no mundo jurídico de Minas Gerais, sendo alçado ao cargo de desembargador no Poder Judiciário do estado vizinho. No ano passado, a comenda foi concedida ao Dr. João Batista Herkenhoff, referência dos estudos de Direito em nosso país, e um dos poucos espírito-santenses que, nos dias atuais, é considerado reserva moral da nossa terra.

Neste ano de 2006, a Comenda “Professo Ceciliano Abel de Almeida”, por proposta do desembargador Dr. Sebastião Teixeira Sobreira, presidente da Casa do Espírito Santo, prontamente acatada pela diretoria da entidade, foi deferida ao Dr. Luiz Guilherme Santos Neves. Espírito-santense de Vitória, durante mais de trinta anos foi professor de história em diversos colégios da capital capixaba, tendo lecionado por 26 anos na Universidade Federal do Espírito Santo a disciplina “História do Espírito Santo”. Na UFES fui seu aluno, e orgulho-me de declinar tal condição, pois com ele aprendi, da mesma maneira que muitos outros dos seus ex-alunos, a valorizar a história capixaba. Além de ser advogado e membro deste Instituto Histórico e da associação Cultural-ES – Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, o Dr. Luiz Guilherme dedica-se à literatura e à pesquisa histórica. Na qualidade de escritor, possui grande número de livros publicados, dos quais destacamos os seguintes: Queimados (teatro); A nau decapitada (romance); Torre do delírio (contos); História de barbagato (literatura infantil); Escrivão da frota (crônicas); Crônicas da insólita fortuna (crônicas históricas); O templo e a forca (romance); O capitão do fim (romance). Na função de historiador, sua obra é também rica, em quantidade e qualidade, da qual nomeamos apenas alguns títulos: Espírito Santo, Brasil; Índice do folclore capixaba; Dos comes e bebes do Espírito Santo; Mar de âncoras – o comércio exterior no Espírito Santo, todos esses trabalhos em co-autoria com Renato Pacheco.

Quem conhece um pouco o Dr. Luiz Guilherme, sabe ser ele avesso a ao tipo de homenagem como a que agora lhe é prestada. Mas acredito que ele tenha aceitado essa comenda por compreender que a iniciativa do nosso presidente, Dr. Sebastião Sobreira, representa também um ato de consideração à memória do prof. Renato Pacheco, ao distinguir aquele que foi um dos seus mais próximos amigos. De fato, o Dr. Luiz Guilherme era amigo fraterno do nosso ex-presidente Renato Pacheco, e juntos escreveram obras valiosas de caráter histórico e didático, como algumas antes citadas. Apesar de o Dr. Luiz Guilherme freqüentar esporadicamente as reuniões de diretoria do nosso Instituto Histórico, sempre colaborou com esta Casa, de maneira discreta como é do seu feitio, e a esse respeito poderíamos citar diversos exemplos, mas mencionaremos apenas dois: participou da elaboração dos projetos de cursos e ementas de disciplinas ministradas por sócios efetivos do Instituto Histórico a professores de história da rede municipal de ensino de Vitória; e emprestou o concurso das suas luzes jurídicas para a reforma dos estatutos da entidade a fim de adequá-los ao novo Código Civil. Ele sempre se manteve às ordens da diretoria, especialmente depois do falecimento do prof. Renato, para que os ideais do seu amigo não esmorecessem. Sim, porque, em certo sentido, para a grande maioria dos atuais sócios efetivos da Casa do Espírito Santo, ela é também a Casa de Renato Pacheco. Casa que comemora neste ano o seu nonagésimo aniversário, sendo assim a mais antiga instituição cultural espírito-santense, referência que o saudoso prof. Renato gostava de fazer, coberto de razão.

O Dr. Luiz Guilherme, da mesma forma que seu amigo de toda a vida, pode ser chamado de protéico. A comparação do nosso homenageado de hoje com Proteus, o ser fantástico da mitologia grega, célebre por suas metamorfoses, é inescapável. Parece mesmo que estamos cercados no Espírito Santo atual de inúmeros Luizes Guilhermes. Ao abrirmos o talão de cheques do banco do Estado, aí está estampada bonita frase do Dr. Luiz Guilherme, comentando uma foto sobre tema capixaba, e sempre terminando com a expressão “nesta fotogênica terra do Espírito Santo”. Ao nos deparamos com as obras adotadas no vestibular da Ufes, vislumbramos o romance O capitão do fim do Dr. Luiz Guilherme, que sempre ambienta sua ficção em terras e motivos capixabas. Ao lermos a revista Essa, publicação de grande valor por apresentar o Espírito Santo aos próprios espírito-santenses, nos enriquecemos com um artigo do Dr. Luiz Guilherme, realmente informativo e valorizador da nossa história. Ao visitarmos o site tertúlia.art.br temos contato coma produção de Tertuliano, um pseudônimo do Dr. Luiz Guilherme, para dar expansão à sua vocação literária. Se abrirmos os jornais da capital capixaba, lá está registrada a contribuição do Dr. Luiz Guilherme na revitalização do sítio histórico de Vitória por meio de palestra no Centro Cultural Majestic. Se buscarmos alguma luz sobre assuntos do folclore espírito-santense, encontramos em outro site, estacaocapixaba.com.br , úteis indicações elaboradas pelo Dr. Luiz Guilherme. E se queremos informações sobre a expansão de bairros para o norte do município de Vitória, nos defrontamos coma atuação do Dr. Luiz Guilherme, assessor jurídico do Inocoops. Enfim, não vos quero cansar enumerando todas as atividades do homenageado, mas estais certos que elas são vastas e de muito boa qualidade. Podemos sintetizá-las afirmando que esta comenda é muito merecida pelo Dr. Luiz Guilherme por ele ser uma espécie de entidade cultural, mesmo mantendo a condição de pessoa física. E que norteia suas atividades tendo por base a vida e a história do estado do Espírito Santo, sempre imbuído de um saudável capixabismo, que não nega as contribuições válidas provindas de outras terras, mas procura conhecer e valorizar os nossos predicados.

Outro aspecto que distingue toda a obra intelectual do Dr. Luiz Guilherme é seu apurado senso crítico. Por ser uma pessoa simples e um daqueles raros brincalhões que não perde a piada nem o amigo, ele exerce o mais saudável tipo de humor – o praticado por aquelas pessoas que riem de si mesmas e dos que as rodeiam, Dessa forma, mantém sempre de sobreaviso sua autocrítica em relação a tudo que produz – o Dr. Luiz Guilherme é o mais rigoroso crítico de si mesmo. Talvez essa característica explique, aliada os seus outros dotes de inteligência, o fato de sua produção ser sempre esmerada, em gêneros os mais variados, nos quais estão presentes de forma constante idéias originais, belas representações imagéticas, metáforas inusitadas e requintadas construções vocabulares. Isso tudo, convém frisar, na prosa da ficção, na poesia, na crônica histórica, na crônica de costumes, na historiografia. E assim, na sua criação artística ele reserva á palavra o papel de prima-dona e detém um expressivo estilo literário, que, seguindo o costume de todo pesquisador, nos apressamos em classificar de estilo luizguilhermino. Em compensação, já que ninguém é perfeito, seus ouvidos são pouco afeitos à música, sabendo-se que Stardust é uma melodia que lhe diz algo ao sentimento.

Dr. Luiz Guilherme Santos neves. Pelo pouco que se declarou e pelo muito que se omitiu aqui de vossa vida, podeis ter uma certeza – vós sois um vencedor. E podeis ter outra certeza ainda – a homenagem que hoje recebeis, além de que se constituir em novo título na vossa vasta contribuição à cultura capixaba, engrandecerá sobremodo o rol das pessoas ilustres distinguidas com essa comenda, ao mesmo tempo em que enriquece a história do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, numa quadra em que rumos promissores para a instituição são ardorosamente almejados por muitos de seus abnegados sócios efetivos. Pois este é um daqueles casos em que o homenageado e a instituição que lhe presta homenagem se equiparam em qualidades, circunstâncias que a ambos dignifica.

Por vezes, Dr. Luiz Guilherme, não se deve comungar com as idéias difundidas pelo senso comum, quando afirma, por exemplo, que “certos nomes e pessoas dispensam apresentação”. Para as novas gerações de espírito-santenses, de nascimento ou por opção, nomes como os de Ceciliano Abel de Almeida e de Renato José Costa Pacheco devem ser recordados de forma reiterada, como exemplos maiores de cidadania, por sua retidão de caráter e pela luta que empreenderam em favor dos altos interesses da cultura capixaba. Também pessoas como vós, um intelectual atuante e compromissado com o Espírito Santo, devem der sempre lembradas, por servirem de boa referência a todos nós, devido, entre outros aspectos, ao amor que devotam ao nosso estado.

No entanto, Dr. Luiz Guilherme, às vezes se deve buscar no senso comum certo apoio para o que se deseja demonstrar. Os antigos, quando nas lides rurais desbastavam um tronco d emadeira, observavam que as lascas sempre caíam perto da tora em que trabalhavam, fosse ela de madeira-branca, madeira-fraca, de pouco valor, ou de madeira de lei, resistente, de boa qualidade, E criaram um provérbio, que denota o poder de sínteses da sabedoria popular: “o cavaco não cai longe do pau”. Provérbio bastante empregado outrora para atestar que determinado indivíduo era bom ou ruim devido às influências recebidas dos seus antepassados. No vosso caso, porque “o cavaco não cai longe do pau”, podemos afiançar – vós sois um neto digno de um digno avô. Vós sois, Dr. Luiz Guilherme, a lasca de madeira de lei proveniente do tronco-patriarca chamado Ceciliano Abel de Almeida. E por meio desta singela mais cordial homenagem, neto e avô hoje estão novamente reunidos por laços de uma espiritualidade verdadeira.

Esta sessão em vossa homenagem se inscreverá de forma indelével nos corações de todos os que dela participam, em especial de vossos jovens netos aqui presentes – serão eles que se lembrarão num futuro longínquo deste momento único, porque agora, Dr. Luiz Guilherme, vós sois o nobre tronco-patriarca de onde saíram novas lascas. A história não pára.

Recebei, Dr. Luiz Guilherme, da parte da diretoria e dos associados efetivos do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, as mais efusivas saudações, e os votos sinceros de felicidade pessoal, de modo que, por longos anos ainda, continueis atividade intelectual, cercado por vossos familiares e amigos.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nº 61, 2007
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Desde menino acostumei-me a guardar coisas antigas como objetos, fotografias e documentos. Da mesma forma, no que se refere à leitura, sempre preferi os livros de história. Com isso estou querendo justificar a mania que sempre tive de, vez em quando, escarafunchar o antigo arquivo da prefeitura de Vila Velha e as velhas estantes da biblioteca municipal, onde por várias vezes fui surpreendido com achados interessantes.

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