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O Chafariz da Capixaba – Por Adelpho Monjardim

Reforma do Chafariz da Capixaba na administração do Prefeito Américo Monjardim, que exerceu dois mandatos: 1937 a 1944 - 1946 a 1947

O Bairro da Capixaba, na historiografia espírito-santense, é um brado de guerra, sinal para se olhar à direita. Famoso reduto político desde os tempos do Brasil Império, conserva intactas as glórias e as tradições.

Configurando a sua importância no dia-a-dia político e social do Estado; a sua contribuição à cultura, o seu apelativo passou a designar os naturais do Espírito Santo, homenagem não só justa como significativa.

Não obstante o progresso, que modificou a sua feição urbanística e à paisagem, impôs o arranha-céu, espigões buscando o infinito, o centenário chafariz, indiferente à metamorfose, permanece intacto, simples na arcaica estrutura. Sólido, acachapado, data de 1828, sem preocupação outra que a de oferecer a água abundante e boa.

É, arquitetonicamente, um órfão das artes. Por muitos anos abandonado, na Administração do Prefeito Américo Monjardim, entrou em obras, recebendo reparos, pintura e um par de belíssimas torneiras de bronze, que não tardaram a ser roubadas.

A água, pura e cristalina, procede de um recanto da Pedra da Vigia. Fonte perene, jamais secou, incólume às mais rigorosas estiagens. Antes corria livre por sob a mataria espessa. Aumentando o número de moradias, em derredor, a Municipalidade promoveu a sua canalização, evitando a sua poluição.

Situado na curva da Rua Barão de Monjardim, tem à sua direita a Ladeira Cristovam Colombo, de acesso aos morros da Vigia e da Capixaba; à esquerda estreita passagem, ajardinada, que leva às moradas ali existentes.

Nas duas primeiras décadas do presente século, no pequeno largo fronteiro ao chafariz, pompeava frondoso e gigantesco pé-de-fruta-pão. Todos os anos, pelo Natal, os moradores promoviam ali festejos, relíquias dos velhos tempos, como pau-de-sebo e o quebra-pote. O pau-de-sebo era um mastro, não muito grosso, medindo cerca de oito metros, caprichosamente untado de sebo e extremamente escorregadio. No topo uma caixinha ou um pote, contendo certa quantia em dinheiro, prêmio para o vencedor. Para evitar truques eram os candidatos rigorosamente examinados. Raramente logravam o intento, porém a vaia era certa e estrondosa. Não menos divertido era o quebra-pote. Em um dos galhos da árvore, a uns cinco metros do solo, penduravam o pote, contendo um prêmio em dinheiro. Empunhando uma vara, o candidato tinha os olhos vendados. Dois ou três rapazes faziam-no girar várias vezes a fim de desorientá-lo. Completamente desnorteado, vara erguida, como um cego, saía a dar varadas ao vento e não raro nos assistentes. Era muito engraçado.

Nesses folguedos presenciamos cenas interessantes e inesperadas. Lá estava o pote, bem visível, à luz das gambiarras. Empunhando a vara o pretenso quebrador parecia bem orientado. Deu varadas a esmo, mas finalmente acertou o pote, que continha metade de água e um espantadíssimo gato preto. O quebrador levou um banho e o espavorido felino empreendeu a fuga por cima de muitas cabeças. A debandada foi geral. De outra feita, ao quebrar o pote, caiu sobre a multidão um enxame de marimbondos. Ferroadas, gritos, imprecações, ranger de dentes.

Por essas e outras os folguedos foram caindo em desuso. O último foi um paus-de-sebo. Nunca ensebaram tanto o mastro. Malaquias, notório grimpador de mastros ensebados, lá estava para mais uma façanha e abiscoitar o prêmio. Escrupulosamente examinado pela comissão, o moleque atirou-se ao mastro. Abraçou-o resoluto, iniciando a ascensão. Subia um metro descia dois, até chegar ao topo. De posse da valiosa caixinha, deslizou mastro abaixo com agilidade simiesca. No chão, sôfrego, abriu-a ante os olhos curiosos da multidão. Apenas uma papeleta com os seguintes dizeres: “Cansadinho, hem? Vá trabalhar, vagabundo!”

O caldo engrossou. O moleque se espalhou e a polícia entrou em cena.

Não deve o chafariz a celebridade aos fatos aqui narrados, mas à propalada virtude da sua água. O forasteiro que a bebe não mais deixa Vitória. Quantas mocinhas casadoiras lançaram mão dela? Que digam os mineiros.

 

Fonte: O Espírito Santo na História, na Lenda e no Folclore, 1983
Autor: Adelpho Poli Monjardim
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2015

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