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O cheiro dos velhos tempos

Quando eu era criança tinha o olfato apurado e o nariz de perdigueiro... Por isso mesmo, as pessoas, lugares e até coisas se relacionavam a algum cheiro.

O Rio de Janeiro, por exemplo, tinha cheiro de cuspe. A Praia do Canto era pura maresia, os livros na estante do escritório de meu pai cheiravam a naftalina, a Fazenda Nova Grécia, onde passávamos as férias, a café. O Sacré-Couer recendia a desinfetante, mas o Carmo cheirava à goma dos chapéus das Irmãs de Caridade. O quintal de Dindinha tinha cheiro de goiaba madura, e da minha rua vinha sempre o aroma inesquecível da terra e das plantas molhadas pela chuva...

As sábados íamos ao açougue no Pontiac (com cheiro de poeira), lá em São Torquato. E o cheiro, por incrível que pareça, era de... coentro. Na volta passávamos pelo mercado da Vila Rubim, cheio de cheiros os mais variados: de peixe, de tomates esmagados, de cebolas e batatas, que eu adorava escolher nos grandes sacos de cânhamo ao pé das barracas. Quase todas vendiam flores, eu gostava dos sorrisos-de-Maria, embora não tivessem perfume algum. Ali, sim, me divertia em identificar odores, em descobrir mexericas, as cascas se espalhavam pelo chão, mas ninguém ligava, nem escorregava. Já as cascas das bananas eram conscienciosamente atiradas nos latões de lixo, de cheiro estranho pelas muitas misturas.

O mercado da Vila Rubim era uma festa em nossas infância. E minha mãe, "freguesa" antiga de algumas bancas, onde todos se conheciam, trocavam novidades: "A melancia dali está uma maravilha. É muito mais barata!"...

O tempo de mercado passou rápido. Logo, meu pai começou a comprar carne em um açougue mais perto e mais sofisticado, com cheiro de linguiça. E a feira de rua foi inaugurada no meu bairro. Tinha cheiro de beiju. Aquele beiju de São Mateus, que a gente comprava no mercado e era uma delícia. O mercado de São Mateus não mudou de cheiros: farinha de tapioca e de coco, beiju de amendoim, peneiras, cordas, sacos de juta. O cheiro da Bahia, de São Salvador, como se os mateenses, irmãos que adotei por amor, baianos fossem, por aproximação...

Da feira da rua eu não gostava - nem gosto até hoje. Preferia "Seu" Totonho Verdureiro, equilibrando nos ombros o grosso cajado que segurava suas duas cestas redondas, uma de cada lado, derramando verduras fresquinhas, com aquele aroma gostoso de antigamente, quando não havia agrotóxicos e as alfaces vinham verdinhas, lavadas, dava pra saborear ali mesmo, no portão, era só querer. As cenouras tinham cheiro de lápis de cor, as beterrabas, cheiro de milho verde, que tinha cheiro de beterraba..

O mercado perdeu o charme - e seus cheiros. A feira de rua caiu de moda. Agora é a vez dos "quilões", que nem cheiro tem. As pessoas pulam apressadas de banca em banca, escolhem ao acaso, tomates, limões, cebolas, batatas e vagens, pepinos e berinjelas, mandam partir a abóbora, ver se está macio o aipim. Os kiwis, os figos e morangos, sem perfume, ganharam mais status que as mangas sumarentas, os abacaxis, os cajus. Peras e maçãs, uvas de todas as espécies e preços, ameixas e pêssegos são frutas nobres, como o melão. Sem cheiro. Como o moderno mamão. Macho. Que mamão-fêmea nunca mais vi. Desde os tempos cheirosos do velho mercado da Vila Rubim.

Crônica de: Marzia Figueira
Publicada no livro: Escritos de Vitória - Mercados e Feiras

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