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O cinema do seu Raimundo - Vila Velha

Rua Luciano das Neves, esquina com Av. Champagnat, onde ao fundo vê-se a Primeira Igreja Batista de Vila Velha onde funcionou o Cinema de seu Raimundo - Acervo do Prefeito Edelberto Vila Flor, 1966.

O primeiro cinema sonorizado instalado em Vila Velha como casa de espetáculo era conhecido como o cinema do seu Raimundo por não se ter dado a ele uma denominação própria. No entanto, há quem diga que ele se chamava Cine Continental, mas com esse nome conhecemos o de Antônio Saliba, à rua Cabo Aylson Simões, na praça Duque de Caxias. O cinema do seu Raimundo situava-se exatamente onde hoje se localiza a Primeira Igreja Batista de Vila Velha, cuja estrutura — toda ou quase toda — foi aproveitada do cinema. No seu interior, bem nos fundos, no lugar em que estavam instalados a tela e o palco, havia uma mureta separando as platéias da primeira classe e da segunda. Esse espaço da frente, que atendia à segunda classe, dispunha de longos bancos mochos de madeira colocados sobre chão de terra batida. A parte destinada à primeira classe, localizada bem acima dos demais espectadores, era também bastante espaçosa para a população de então. O chão era de cimento e os bancos de madeira tinham encosto, como os utilizados nas igrejas. Esses bancos, ociosos em grande parte pela falta de espectadores, foram sendo vendidos pouco a pouco pelo seu Raimundo às instituições religiosas, deixando um grande espaço vazio nos fundos do cinema. Muitos garotos iam para esse espaço e ali, nos intervalos dos atos, quando as luzes se acendiam, andavam de bicicleta sem que ninguém os incomodasse.

A entrada para a geral dava-se pela lateral direita do cinema, bem nos fundos, sem comunicação com a platéia da primeira classe que, sentada nos bancos de encosto, não tomava conhecimento dos ocupantes da segunda. Por uma questão de foro íntimo, as pessoas que freqüentavam a geral faziam questão de não serem identificadas, e para isso passavam abaixadinhas, protegidas pela mureta de pouco mais de metro e meio. Lá dentro, depois de sentadas, nem as cabeças eram visíveis e, sabendo disso, no conforto dos seus bancos, ninguém na primeira classe se preocupava em sair de onde estava para identificá-las. E sempre funcionou assim.

Para se saber da lotação do cinema bastava acompanhar a exultação e intensidade da gritaria que nele reinava durante determinado filme, compartilhada por todo o público indistintamente. Era impossível avaliar essa lotação pela saída dos freqüentadores, pois os da segunda classe deixavam seus bancos sorrateiramente quando o filme estava prestes a terminar e ficavam à frente do cinema a observar e a se misturar aos que saíam da primeira classe, quando não se escafediam rumo a suas casas.

O preço da entrada da geral era metade do da primeira classe. O estudante uniformizado, de primeira ou de segunda classe, pagava metade do ingresso. Por causa disso era comum ver, à porta do cinema, pessoas trajando uniformes estudantis que certamente não lhes pertenciam, pois ou eram muito apertados ou muito folgados.

Outro dispositivo do cinema do seu Raimundo era uma campainha elétrica ligada na frente e na fachada do prédio. Ela era acionada três vezes: a primeira, quinze minutos antes do início da sessão, a segunda, dez minutos antes, e a terceira, para anunciar o início da sessão. Quando ao longe o toque da campainha não era perceptível, o jeito era correr para apanhar o início da sessão.

A grande atração da meninada nas matinês de domingo eram os seriados de aventura, com Tom Mix montado no seu cavalo branco e Flash Gordon na sua nave interplanetária. A intenção do cinema era dar a impressão de que a nave espacial desenvolvia uma velocidade espetacular, entretanto os gases desprendidos dos seus motores mais se assemelhavam aos rolos de fumaça saídos de chaminés de uma fábrica ou a baforadas sucessivas de um cachimbo. Mas nem por isso deixávamos de ficar ansiosos aguardando o domingo seguinte, para o deslinde do suspense em que parara o seriado.

O seu Raimundo, de vez em quando, principalmente na projeção dos filmes seriados de cowboy, acabava se desentendendo com o operador das máquinas cinematográficas. É que esse funcionário assumia outros compromissos em horários que coincidiam com o término das sessões e, não querendo chegar atrasado ao seu encontro, apelava. Ele acelerava a rolagem do filme e as imagens passavam a ter movimentos anormais. Quando isso acontecia seu Raimundo corria até a cabine de projeção e gritava para o seu operador:

— Jefredo, Jefredo! Mais devagar, Jefredo! Assim não dá. Os cavalos já não andam mais, correm! Os que correm, voam! Devagar, Jefredo! Pelo amor de Deus, Jefredo!

E Jofredo Novaes, o saudoso Jofredo, esquecia o seu compromisso amoroso e passava a obedecer às ordens do patrão, de quem muito precisava. Mas, quando o dono do cinema não estava presente e Jofredo tinha lá os seus compromissos, as imagens eram aceleradas, faltando pouco para saltarem da tela, sob a gritaria dos inconformados espectadores.


Nota: A foto ilustrativa do texto, pertence ao acervo do então Prefeito Edelberto Vila Flor, em 1966
Fonte: Livro ECOS DE VILA VELHA, 2001
Autor: José Anchieta de Setúbal
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2012

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