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O Espírito Santo em 1967

Christiano e seus correligionários - Fonte: Acervo pessoal do Christiano Dias Lopes Filho

"Assumimos o governo com o Estado em crise: crise econômica, crise na administração e crise psicológica." Com essa frase Christiano inicia o relatório de governo referente ao primeiro ano de sua gestão enviado a Assembléia Legislativa. De fato, a situação encontrada no governo era desanimadora. Para Christiano Dias Lopes Filho era um desafio a ser vencido.

O Espírito Santo fora historicamente renegado, em nível nacional. Até então, as formas de crescimento econômico almejadas pelo Estado não haviam sido facilitadas pelo governo Federal, apesar da boa articulação dos governos do PSD com Getulio Vargas e Juscelino Kubitschek. Jones teve grandes dificuldades em obter recursos para executar suas ações de governo, vendo-se, por exemplo, obrigado a taxar as operações imobiliárias visando a efetivar o projeto do Ibes — O Instituto do Bem-Estar Social, que teve seu nome confundido com um conjunto habitacional por ele criado em Vila Velha.

Também Christiano teve que utilizar sistema parecido para criar os meios dentro da própria máquina estatal para subsidiar a execução de projetos. Foi outra lição aprendida por Christiano com Jones. A carência de alternativas para patrocinar a infra-estrutura necessária para o crescimento econômico levou Christiano a criar uma fórmula que, de dentro da própria receita estadual, viabilizou recursos para o desenvolvimento.

Voltemos à conjuntura de 1967, o Espírito Santo era o "Estado passou perto", para usar a feliz expressão do então Ministro Rondon Pacheco, trazida a conhecimento geral por Christiano. A expressão representava perfeitamente a frustração em relação a acontecimentos que não chegaram ao Estado, como a BR 116, a BR 101, a Usina de Volta Redonda e os limites da Sudene. Para nós interessa estritamente este último acontecimento que fez com que Christiano tomasse providências inovadoras para efetivar o desenvolvimento do Estado, mas antes de se aprofundar nesse assunto que é, na verdade, um dos eixos centrais de seu governo, seguiremos descrevendo o clima desalentador que tomava conta do Estado.

O Espírito Santo que experimentou seu primeiro surto de desenvolvimento a partir do fim do século XIX, graças à economia cafeeira, enfrentava a decadência do único produto que cultivava de forma extensiva. Na década de 1950 houve uma seqüência de supersafras do café, ocasionando a queda do preço no mercado mundial. Foi inevitável o baque na economia brasileira e, especialmente, na capixaba, devido à extrema dependência do produto, mas era só uma mostra do que viria a acontecer na década seguinte. Os anos de 1962/63 foram o momento mais crítico dessa crise com a maior queda da cotação do produto.

A economia cafeeira durante anos representou um avanço no desenvolvimento do Estado, mas com o sobe e desce do preço, as crises se fizeram sentir com bastante intensidade. Além disso, o governo brasileiro optou por tornar a oferta do produto compatível com a demanda. Para isso, valeu-se da elaboração do plano diretor do Grupo Executivo de Erradicação de Cafezais (Gerca) que tinha como objetivo reduzir a capacidade produtiva com a erradicação dos cafezais antieconômicos, além de diversificar as lavouras. O Estado teve que suportar a política de erradicação dos cafezais de baixa produtividade, que eram a grande maioria.

O café representava 50% da área cultivada capixaba, e mais ainda, 58% das propriedades agrícolas cuidavam dessa cultura. Além disso, mais ou menos 95% de sua mão de obra dependiam direta ou indiretamente do seu cultivo. Christiano analisa a situação do Estado diante dessa conjuntura: "A economia cafeeira sempre foi para nós uma fonte de sobressalto e de crises, já que estas repercutiam com mais intensidade entre nós do que em relação aos grandes Estados produtores."

A erradicação foi feita em dois períodos. O primeiro, de julho de 1962 a julho de 1966, no qual foram erradicados 723 milhões de cafezais em todo o Brasil; o segundo, menor, de agosto de 1966 a maio de 1967, eliminando 656 milhões de pés. No Espírito Santo, a política de erradicação foi intensa, em decorrência da baixa produtividade do café capixaba. No Estado, foram eliminados 53,8% dos cafezais, que ocupavam uma área de 71% de terras cultivadas com café. No primeiro período, em nível nacional, o Espírito Santo representava 9,3% dos cafezais erradicados com a área liberada em 7,4%. Já no segundo a participação do Estado foi maior, com 35,9% dos cafezais eliminados no Brasil, correspondendo a 35,5% do total de área liberada, justamente no período de governo de Rubens Rangel e início do de Christiano Dias Lopes Filho. A indenização paga pelo IBC-Gerca no Espírito Santo até a metade do ano de 1966 chegou à soma de 70 milhões de cruzeiros, a maior paga entre os estados produtores de café.

Seguramente a crise econômica era grave. No entanto, Christiano, como líder político, tinha o papel de inspirar seu povo, de dar-lhes motivos para acreditar que com trabalho o Espírito Santo, apesar de todos os contratempos, poderia, sim, tornar-se um Estado desenvolvido. Afinal, um estado em marcha para o desenvolvimento precisa de pessoas com desejos de progresso e de uma equipe que mantenha o perfeito funcionamento da máquina estatal.

O quadro administrativo encontrado era caótico. Além do nepotismo, da indisciplina, da ineficiência e da inexistência de processos seletivos, havia atrito de competência entre secretarias estaduais, alguns órgãos não tinham atribuições bem definidas, muitas secretarias estavam desmanteladas, com excesso de funcionários, a ausência de planejamento acarretava soluções improvisadas e descontinuadas. Sem se contar com recursos pré-determinados, não havia como programar e fomentar ações. Nessas condições o quadro administrativo do Estado tornava-se inadequado como instrumento de ação para o desenvolvimento. Urgia criar as condições de gestão pública baseada em novos paradigmas. Era preciso realizar uma reforma administrativa.

 

Fonte: Memória do Desenvolvimento do Espírito Santo - Grandes Nomes - Chistiano Dias Lopes Filho, 2010
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2015

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