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O Espírito Santo na 1ª História do Brasil

Capa do Livro: Tratado da Província do Brasil, de Pero de Magalhães de Gândavo cujo livro original é do ano de 1576

Pero de Magalhães de Gândavo, autor da 1ª História do Brasil, em português, impressa em Lisboa, no ano de 1576, intitulada: “História da Província de Santa Cruz”, referindo-se à Capitania do Espírito Santo escreveu que na mesma podia ser encontrada uma infinidade de peixes e caças com o que os moradores se abastavam fartamente, concluindo nesses termos envaidecedores: “E assim é esta a mais fértil capitania e melhor provida de todos os mantimentos da terra que outra alguma que haja na costa.”

Dois testemunhos anteriores a esse, foram emitidos em 1551, pelos jesuítas Antônio Pires e Afonso Braz. Escreveu o primeiro: “É terra mais abastada, a melhor de toda esta costa, segundo dizem todos.” E, o segundo o qual era mestre de obras e obreiro do Colégio: “É esta terra onde ao presente estou a melhor e mais fértil de todo o Brasil. Há nela muita caça de monte, muitos porcos monteses e é mui abastada de pescados."

Um outro jesuíta, o Padre Manoel da Nóbrega, em depoimento mais antigo (1560), não fora menos gentil: "Esta Capitania se tem por a melhor cousa do Brasil depois do Rio de Janeiro ..." Mas, noutra carta que escrevera anteriormente, deixara consignado: "...Outro pecado nasce também desta infernal raiz, que foi ensinarem os cristãos ao gentio ao furtarem-se a si mesmos e venderem-se por escravos. Este costume, mais que em nenhuma capitania, achei no Espírito Santo, Capitania de Vasco Fernandes, e por haver ali mais disto se tinha por melhor capitania."

Cai-me às mãos o "Tratado da Província do Brasil" que Gândavo teria redigido em 1570. Trata-se duma reprodução fac-similar de um manuscrito pertencente ao Museu Britânico, editado peio I.N.L., em 1965.

Fartando-me com os comentários eruditos do Prof. Emanuel Pereira Filho, não resisto à tentação de transcrever todo o capítulo sétimo dessa crônica histórica, procurando modernizar o vernáculo e ajuntar umas poucas considerações próprias.

Assim começa o historiador lusitano: "A Capitania do Espírito Santo está cinqüenta léguas do Porto Seguro em vinte graus da qual é capitão e governador Vasco Fernandes Coutinho." Lembremos que se trata do segundo donatário, herdeiro do feudo. Prossegue Gândavo: "Tem um engenho somente. Tira-se dele o melhor açúcar que há em todo o Brasil". O humanista e glotólogo, moço da Câmara del-Rei, "testemunha de vista" do que escrevera, não esclarece se o engenho era movido a água ou se tocado por tração de cavalos. Mas, noutro tópico do original manuscrito diz: ".... A maior parte dos engenhos do Brasil moe com água".

Fernão Cardim, outro cronista dos tempos coloniais, o qual também esteve no Espírito Santo e sobre o mesmo escreveu, disse dos engenhos que "cada um deles é uma máquina e fábrica incrivei: uns são de água rasteiros, outros de água copeiros, os quais moem mais e com menos gastos: outros não são d’água, mas moem como bois, e chamam-se trapiches; estes têm muito maior fábrica e gasto, ainda que moem menos, moem todo tempo do ano, o que não têm os d’água, porque às vezes lhes falta."

Prossigamos na transcrição de Gândavo: "Há nela muito algodão e pau-brasil”. Num capítulo referente às coisas da terra ele elucida: "Os moradores desta costa do Brasil todos têm terras de sesmarias dadas e repartidas pelos capitães da terra, e a primeira coisa que pretendem alcançar são escravos para lhes fazerem e granjearem mais roças, porque sem eles não se podem sustentar na terra..." Mas, voltemos à transcrição do capítulo sétimo: "... pode ter a Capitania até duzentos vizinhos. O autor referia-se, naturalmente, aos moradores.

O Padre Francisco Soares, em seu relato das "Cousas Notáveis do Brasil”, redigido duas dezenas de anos depois do trabalho de Gândavo, fez uma estimativa populacional para o Espírito Santo de 400 portugueses; 6 engenhos; 700 escravos e 9.000 índios.

Anchieta, em sua "Informação do Brasil e de Suas Capitanias", registrou, em 1584, no Espírito Santo, "quatro ou cinco engenhos a 3 e 4 léguas, por mar e por terra, com índios", acrescentando: "Há ao longo da costa, 8 léguas para o sul e outras 8 para o norte, 4 ou 5 aldeias de índios que os nossos visitam por mar e às vezes por terra onde há conversão e se batizam e casam ordinariamente. Além estas, tem duas aldeias muito populosas de índios [N. Sra. da Conceição (do Guaraparí) e São João], algumas léguas da Vila por água com suas igrejas, as quais há muitos anos que sustentam e têm nelas residência ..."

Adiantemos a transcrição do "Tratado": "Há dentro da povoação um mosteiro de padre da Companhia de Jesus." Referia-se à Casa de Santiago, que o Padre Affonso Braz fundara em 1551, e funcionava como Colégio e Residência e que teria como Reitor, naquele ano de 1570, o Padre Antônio da Rocha. Prossegue Gândavo, tratando do Rio Doce: "Tem um rio mui grande onde os navios entram no qual se acham mais peixes-bois que noutro nenhum rio desta costa". Referia-se ao manati, dos índios. A espécie, que não deve ser confundida com o leão-marinho, é mamífera, herbívora e habita unicamente a água doce. Descreve-a o mesmo cronista, quando disserta sobre uma lagoa distante sete léguas da Capitania de llhéus: "Criam-se nela muitos peixes-bois os quais têm o focinho como de boi e dois cotos com que nadam à maneira de braços; não têm nenhuma escama nem outra feição de peixe senão o rabo.

Matam-nos com arpões; são tão gordos e tamanhos que alguns pesam trinta a quarenta arrobas".

"... Há um certo peixe a que chamam boi marinho — escreveu Anchieta, em carta ao Padre Geral, de São Vicente, em 1560 — "os índios o denominam iguaraguâ, freqüente na Capitania do Espírito Santo e em outras localidades para o norte..."

Há mais de um século que o peixe-boi está completamente extinto no Espírito Santo.

Voltemos a Gândavo: "No mar, junto desta Capitania, matam grande cópia de peixes grandes e de toda maneira, e também no mesmo rio há muita abundância deles".

A piscosidade da orla marítima capixaba ainda hoje se faz notar, a despeito da pesca desordenada e o conseqüente extermínio de algumas espécies de peixes. No presente, pode-se assistir, mesmo em Vitória, a pescaria de arrastão, com redes pejadas de manjubas que são amontoadas nas praias ou em grandes eiras, em quantidades de encher caminhões!

Volto ao "Tratado": "Cousas Notáveis do Brasil", do Padre Francisco Soares, o qual escrevia, em 1589: "Tainhas há muitas e são os peixes que comumente há, porque os salgam e dão aos escravos. É para ver-se estas tainhas que são comumente de bons dois palmos de comprido e chamam-lhes curimãs; vêm em cardumes de fora do mar largo a desovar nos rios. Este peixe vi nas Capitanias do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Vicente...”

Passa a descrever a matança nas semas ocorridas três vezes ao ano; o envenenamento das águas com o timbó ou barbasco; os índios caindo sobre os peixes, com flexas, fisgas e à mão. Diz que viu, por vezes, perto de duas mil pessoas a encherem canoas de peixes para a salga e, textualmente: “... contudo, mais era o que se perdia do que se aproveitava.”

Reatemos a narrativa de Gândavo: “Nesta Capitania há muitas terras e mui largas onde os moradores vivem mui abastados tanto com mantimentos da terra como de fazendas, e quando se tomou a fortaleza do Rio de Janeiro, desta mesma Capitania do Espírito Santo sustentaram toda gente e provieram sempre de mantimentos necessários enquanto estiveram na terra os que a defendiam.” Aqui caberia um comentário quanto à semântica de fazenda, parecendo claro que o autor alude não à propriedade rural e sim às riquezas dos vizinhos ou habitantes da Capitania, ou mesmo, às suas fontes de lucro. No capítulo em que se referiu à Capitania de Pernambuco, escreveu: “Esta se acha uma das ricas terras do Brasil, tem muitos escravos índios que é a principal fazenda. Daqui os levam e compram para todas as outras capitanias porque há nesta muitos e mais baratos que em toda costa.”

O historiador quinhentista passa a escrever sobre o rio Paraíba, que é “mui grande e fermoso e tem infinito peixe”, mas vamos nos restringir às fronteiras do Espírito Santo...

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos
Autor: Levy Rocha,1977
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

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