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O Governador Afonso Cláudio – Por Maria Stella de Novaes

Casa onde morou Afonso Cláudio, depois Banco Panamericano, depois Irmãos HelaI

Maria Stella de Novaes

(Historiadora - IHGES)

Quando aquiescemos ao distinto convite do ilustrado diretor da Ancora, Nestor Cinelli, para que escrevêssemos a História do Espírito Santo, nosso principal objetivo foi a realização de uma obra de justiça àqueles que nos legaram trajetória de trabalho honrado e sincera dedicação à terra e ao povo Espírito-santense. Nosso livro, - dissemos - "é uma evidência de que não se deve escrever a História, à distância, com informações e notas colhidas aqui e ali, longe das verdadeiras fontes".

Isso, no capítulo 27, página 320, quando tratamos da República e, conseqüentemente, posse do primeiro governador do Estado, Afonso Cláudio de Freitas Rosa.

Acontece, porém, que perdura, ainda em nossos dias, o vezo característico da terra, que abre os braços, em aplausos aos estranhos, que jamais se deram ao trabalho de vir realizar pesquisas locais, enquanto os da casa recebem a dureza das críticas injustas, o desprezo do seu labor sincero, do seu tempo empregado em arquivos e bibliotecas, dos seus haveres gastos em obras subsidiárias, com sacrifício até do próprio conforto!

Surgem-nos, à mente, essas lembranças, quando lemos a afirmativa de que "ao Dr. Afonso Cláudio faltava o indispensável aprendizado da administração. Era um inexperiente, na arte de governar. Encontrou o Tesouro depauperado. Para as despesas com o funcionalismo, teve de pedir empréstimos".

Em nosso livro, que representa apenas uma síntese, para uso didático, registramos o que fez Afonso Cláudio, - um trabalho hercúleo, numa época de transição política e sem recursos financeiros. Teve mesmo de vender uma casa de sua propriedade, por 4:500$000, ao Sr. Rufino Azevedo, para atender ao decoro do cargo. A casa foi, depois, o Panamericano; hoje, é Irmãos HelaI.

Nós que, anos e anos, estudamos o passado do Espírito Santo e conhecemos todos os jornais da Biblioteca Pública Estadual, tivemos elementos inapreciáveis, para o conhecimento dessa vida nobre, extremada ao berço natal. Em resumo: Nomeado governador do Estado, a 16 de novembro de 1889, Afonso Cláudio tomou posse do cargo, a 20, perante a Câmara Municipal da Vitória. Tinha trinta anos de idade. Para estar com o povo e atender-lhes as dificuldades e esperanças, marcou logo audiências públicas, diárias, das 14 às 15 horas. Tornou-se um governador popular. Voltou-se para a situação financeira. Dado o balanço, existia no cofre do Estado o insignificante saldo de 3:191$824, e a pagar a quantia de 116:397$591, proveniente de vencimentos do funcionalismo, culto público e obras autorizadas. Esse foi o motivo por que o governador viu-se obrigado a contrair um empréstimo de 60:000$000, com a União, por intermédio do ministro da Fazenda, Cons. Rui Barbosa. Recebida a mencionada quantia, junta ao saldo das estações fiscais, pôde o governador atender as despesas urgentes. E tratou de amortizar a dívida contraída, de modo que, ao encerrar o exercício, restavam apenas 26:397$091(despesas ordinárias).

Afonso Cláudio revelou-se, de pronto, um administrador seguro. Todos os responsáveis pelos trabalhos do Estado tinham de prestar-lhe contas rigorosas das quantias recebidas.

Num atestado de nobreza e civismo, ordenou que se respeitasse o feriado de 2 de dezembro, aniversário de Dom Pedro II.

Faltava água na cidade. Era o clamor geral; mas o governador providenciou a remodelação e a ampliação da Fonte da Lapa, cujos trabalhos visitou, a 30 de dezembro do mesmo ano. E a 1º de janeiro de 1890, inaugurou esse melhoramento e o monumento ao Presidente Moscoso, trabalho de Franz Berlanda.

Chamado ao Rio de Janeiro, o governador Afonso Cláudio viajou, a 7 de janeiro de 1890.

No decorrer desse ano, o Governador empreendeu diversos melhoramentos, na cidade da Vitória, como o aterro dos Pelames, antes pavoroso charco. Surgiu, então, uma grande praça arborizada, cujo nome seria "Afonso Cláudio". Ele, porém, jamais aceitaria o seu nome enaltecido. Propôs que se prestasse, no lugar, homenagem ao cap. Paula Castro, empenhado que foi no respectivo trabalho e nos melhoramentos da Santa Casa de Misericórdia.

Tendo percorrido e, assim, conhecido todo o estado, nas campanhas abolicionistas e da propaganda republicana, Afonso Cláudio conhecia muito bem o que era necessário fazer. A Vila de Cachoeiro de Itapemirim foi elevada à categoria de cidade; diversas Intendências Municipais tiveram auxílio financeiro; comarcas foram criadas e providas de seus juízes; o povoamento do interior estudado e, para tanto, o Governador providenciou a introdução de vinte mil integrantes italianos. Cuidou Afonso Cláudio dos cemitérios, na capital; da navegação do Rio Doce; dos presos, sua alimentação e seu vestuário; da vigilância urbana e de um projeto de quartel de polícia, no aterro do Campinho; percorreu o Estado para observar diretamente o trabalho das Intendências, o ensino e as aspirações do povo. Fiscalizou escolas, estradas e tudo o mais que relacionasse com o Serviço Público. Isso, a cavalo e, naquele tempo, sem o menor conforto! Diversos jantares e discursos foram programados, mas..., a ordem foi rigorosa: "Nenhuma despesa para os cofres das Intendências".

Visitas domiciliares entraram na ordem do dia, porque a febre amarela rondava a cidade. Registra a imprensa as zonas visitadas pelo médico da Saúde Pública, Ernesto Mendo de Oliveira.

A instrução pública foi sempre um dos seus pontos de vista. Ao assumir o Governo, declarou vagas todas as cadeiras primárias, providas interinamente. Quem desejasse preenchê-las devia cumprir as formalidades: diploma de habilitação, folha corrida e atestado de conduta passado pela Municipalidade. Afonso Cláudio delineou a reforma da Instituição Pública, no Espírito Santo: tempo de acesso; preferência às habilitações provadas; a remuneração justa, para não deixar na penúria a quem tanto serve à família e à Pátria, na missão de ensinar. Muitas outras providências tomou Afonso Cláudio sobre a instrução; abriu concurso para o magistério primário e suplementar, e a 5 de fevereiro de 1890, Comissões Examinadoras estavam distribuídas em cinco seções de Estado. E foi criada a Inspeção Escolar.

Afonso Cláudio procurou, logo ao assumir o Governo, a conciliação dos ânimos, a fim de acalmar os monarquistas e aproximá-los dos republicanos. Assim orientado, nomeou a Comissão encarregada de organizar Projeto da Constituição do Estado, trabalho vultoso, do qual foi o maior participante, o mentor. Mas, apesar de sua retidão, do seu abnegado esforço, diante do Estado, Afonso Cláudio amargou traições e incompreensões de companheiros da véspera. Em oposição ao Partido Republicano, surgiu a União Republicana Espírito-santense.

Mas, Domingos Vicente Gonçalves de Sousa, Moniz Freire, Henrique Coutinho, Constante Sodré e Joaquim Pinheiro fundaram outra corrente política, de apoio ao governador, o Partido Republicano Construtor, em substituição ao primeiro Partido Republicano prejudicado pela referida dissidência.

Apoiado pelo novo grupo, Afonso Cláudio guiou o Estado, até a eleição para Constituinte. Temos, assim, uma pequena história dos Partidos políticos no Espírito Santo. Seria interessante um estudo através das elevações e quedas, até os nossos dias de Arena e MDB. Quantas brigas, quantos versos e tiroteios?...

Este é apenas um resumo da passagem de Afonso Cláudio pelo Governo do Estado. Roído pelo desgosto causado pela incompreensão e ambição de muitos, exaustão do trabalho e de preocupações, atento à fiscalização de tudo, para levantar o crédito do Estado, Afonso Cláudio viu-se preso de intenso esgotamento nervoso que o levou a transmitir o Governo ao Dr. Constante Gomes Sodré, a 9 de setembro de 1890. Retirou-se com a família, para sua fazenda Mangaraí; mas, a 18, seguiu para o Rio de Janeiro, acompanhado pelo seu devoto amigo, Dr. José Horácio Costa e pelo cunhado Adrião Batalha.

Lembremo-nos de que o Dr. Afonso Cláudio, ao assumir o Governo do Estado, vinha de duas campanhas intensas: a batalha pela abolição e a Propaganda Republicana. Foi, portanto, um forte, na dedicação à República e ao Espírito Santo.

(A GAZETA, 21/06/1974)

 

Fonte: Sesquicentenário do nascimento de Afonso Cláudio (1859-2009) - Revista da Academia Espírito-Santense de Letras
Autora do Texto: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

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