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O Herói de 12 de junho – Por Mário Freire

Monumento a Domingos Martins, localizado na Assembléia Legislativa Vitória ES - Artista: Carlos Crepaz, 2006

Persistindo em demorar-se no Brasil, o último Rei que tivemos foi um empecilho a retardar a independência da colônia, onde já alguns patriotas pretendiam a República.

Por haver pregado e defendido, fervoroso, esse ideal em Pernambuco, viu a Bahia um filho desta antiga Capitania, Domingos José Martins, arcabuzado, no Campo da Pólvora, a 12 de junho de 1817.

Essa naturalidade que lhe atribui Basílio Daemon, apoiado no depoimento de pessoas ainda vivas quando, em 1879, escreveu a História desta Província. É o que assevera Afonso Cláudio. Repetem-no Dias Martins, Studart, Souza Reis, Inglez de Souza, Jonathas Serrano, este, parente do grande repúblico.

A revolução de 1817 foi, em grande parte, estimulada, observa Roberto Simonsen, pelas sucessivas remessas dos saldos da renda arrecadada em Pernambuco, para o Rio, desatendendo-se aos reclamos de inadiáveis melhoramentos. O contrário, sabia-se, vinha sendo praticado na Bahia, governada pelo conde dos Arcos.

Com a autoridade que todos lhe reconheciam, Jonathas Serrano, escrevendo em 1928, enumerou uma série de depoimentos expressivos contra os que pretenderam colocar Domingos Martins em plano secundário dentro daquele movimento Mello Morais reproduziu, no "Brasil Histórico", uma nota escrita, a propósito, por Antônio de Morais e Silva: — "Vi-o na estrada do meu engenho, vindo ele de Pirapama, para Santo André, e mo designaram pelo negociante rico da Bahia, que tinha arrendado Pirapama mui caro. No dia 9 de março foi que ouvi que o tal Martins era o cabeça da rebelião e um dos governadores provisórios".

Joaquim Dias Martins, que lhe descreveu a figura apolínea de delicados traços fisionômicos, também o considerou chefe do movimento.

No mesmo sentido há o depoimento, ainda contemporâneo, do padre Luiz Gonçalves dos Santos. Na recente reedição das "Memórias", que Noronha Santos cuidadosamente anotou, o Padre "Perereca" cita-o também como "cabeça da insurreição". Deixou-nos mais um testemunho de sua insuspeição, valioso ainda porque esclarece outro ponto que se tem pretendido deturpar na vida do nobre e magnânimo capixaba. Aludindo ao combate de Ipojuca, em que as forças reais venceram os insurgentes, as Memórias salientam os numerosos prisioneiros feridos: —"destes, foram muitos remetidos logo para a Bahia; e, com eles, o façanhoso Martins que, deixando a cadeira curial, se apresentou no Campo de Marte como general em segundo, e fora agarrado pelo capitão de milícias da vila de Penedo, Antônio José dos Santos".

Sumido já o fervor das primeiras vitórias, se muitos ensurdeceram à elevada pregação dos princípios liberais, inspiradores da Revolução, Domingos Martins, ao contrário — neta Oliveira Lima — fiel a seus patrióticos ideais, mantinha-se imperturbável entre as desilusões dos últimos dias daquele movimento: somente quando, afinal, se viu impossibilitado de continuar a resistir, por inteiramente desprevenido, entregou-se estonteado... Cedera assim, registra ainda com felicidade o escritor pernambucano, à grande cordura que nunca faltara àquela rebelião...

Handelmann, embora menoscabasse essa Revolução, fez justiça à nobreza dos revolucionários idealistas: "Como se manifestasse a idéia de fazer a abolição, isso arrefeceu a aristocracia dos fazendeiros, detentores de escravos".

A Domingos Martins não se lhe abateu o ânimo, depois, num suspeito processo, apressadamente verbal...

Empobrecido, ele que, sozinho, evitara a falência da firma a que se associara, assumindo-lhe a responsabilidade de liquidar todos os compromissos; que conquistara a animosidade de Tollenare, seu apaixonado detrator, porque não lhe permitiu retirar, para fora de Pernambuco, os pingues fundos e recursos; nada tendo a legar, resumiu todas as suas últimas vontades num soneto expressivo.

Lembrando a esposa, que — "d'alma reinava na metade e com a Pátria partia-lhe os cuidados"; ao preparar-se para morrer aos 36 anos, não deixaria de recordar o pequeno Itapemirim, a cuja margem nascera; e, pensando ainda na sua infeliz Capitania, amesquinhada também por governos displicentes diante de protestos do povo; ou violentada por outros, cujas truculências ainda hoje nos são repetidas, escreveu, por último, inspirado:

"será de uma o suspiro derradeiro;

e será da outra o último gemido..."

Varonil até o derradeiro instante, parte dele a ordem de atirar, ao pelotão do próprio fuzilamento!

Gestos, como esse, fizeram Oliveira Lima afirmar que, no Brasil, só com a Revolução de 1817 se aprendeu a morrer pelos ideais: "a Nação verdadeiramente aprendeu a combater e a morrer pela liberdade".

Sem ligação fácil entre as antigas Capitanias, já de fato consideradas Províncias, a morte do herói não parece ter tido repercussão na que o vira nascer: pela mesma razão, observa Euclides da Cunha, a Inconfidência Mineira não fora admirada pelo norte; nem as regiões meridionais vibraram, como de esperar, ante a expulsão dos holandeses.

Poder-se-á atribuir semelhante falta à preocupação, talvez, de não molestar os imperantes...

 

Fonte: A Capitania do Espírito Santo, ano 1945
Autor: Mário Aristides Freire
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2015



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