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O jeito bár-baro de conviver

Capa do Livro do Artista: Wagner Veiga

É a mesma mesa, é a mesma noite,

é o mesmo barzinho. Abrigados

aqui e debruçados sobre nós próprios,

já não somos tão sós, já não somos tão tristes.

O bar é esta trincheira que nos

esconde ainda, onde falamos de

amor, enquanto nos afogamos em

vinho e poesia.

— "De uma certeza" —

Carmélia M. de Souza


Há quem associe Vitória ao mar: — "esta ilha é uma delícia". Há os saudosistas que lembram: — "Vitória, cidade presépio". Há os que, como Carmélia, celebram o "Vento Sul". Há os que cantam Vitória: "cidade sol, com o céu sempre azul".

Vitória é tudo isso e muito mais. A cidade encanta, à primeira vista, pela natureza que Deus deu e o homem enfeitou, mas é o povo dessa terra que conquista e lança âncora nos corações. Não há quem resista depois de alguns "ôis"! É amor mesmo, por essa gente que cultiva o dom da convivência.

São os bares, hoje espalhados por todos os bairros, o ponto alto para o convívio gostoso — bár-baro — do capixaba, quer nos dias ensolarados, quer nas noites estreladas, quer quando o sol se esconde, quer quando as estrelas se esquivam de brilhar, dando lugar à garoa ou à chuva, estas sempre pré-anunciadas pelo decantado vento sul, capaz de transformar em arremedo de inverno qualquer estação do ano.

A importância dos bares vem de longa data e aqueles que guardam histórias e reminiscências mais antigas são os da Vila Rubim e os do centro da cidade.

Os bares da zona norte que proliferam, principalmente, nas Praias do Canto e Camburi vieram mais tarde, com novos modismos e, se perderam o sabor provinciano, estão cheios de novidades, de atrações. São o mito das grandes cidades.

Continuam como os de outrora, lugar aonde todos vão, todos se reúnem. No meio da algazarra, na disputa por alguma mesa e até nas calçadas, os freqüentadores da noite, a maioria falante, alguns poucos lacônicos, outros reticentes, resolvem seus casos de amor, seus negócios, seus problemas e...o dos outros,de preferência, incluindo política, religião, futebol e até mesmo "a fossa", que essa se esconde no sorriso ou faz o gênero dos que cultivam a tristeza, marca de alguns boêmios assumidos.

Há os bares de vida longa que sobreviveram no tempo.

O Mar e Terra, em Santo Antônio, durante quarenta e oito anos, marcou época. Aberto dia e noite, sem cerrar as portas, consignou a passagem de artistas famosos como Tonia Carrero, Fernanda Montenegro, Betty Faria, Paulo Autran, além da freqüência assídua das figuras marcantes de boemia capixaba: Carmélia, Cariê, Milson Henriques, Marien Calixte, Marcos Alencar, entre outros.

Foi por muito tempo a única opção para a madrugada dos que esticavam depois dos bailes dos Clubes Vitória e do Libanês.

O Bar Santos, à Rua Marcos de Azevedo, fechava tarde e abria cedinho, para o café da manhã dos retardatários, dos que chegavam dos bailes e festas, ou dos médicos de plantão que, descendo a ladeira da Santa Casa, procuravam a canoinha, disputado pão com queijo e manteiga, esquentado em fogão de lenha, servido com a cordialidade permanente dos proprietários, três irmãos portugueses.

O Mar e Terra e o Bar Santos, ajustando-se às mudanças necessárias, são hoje restaurantes.

O Britz Bar, desde os anos 60, reúne amigos da noite, boêmios, estudantes, jornalistas, artistas, escritores. Manteve seu status de bar. Com os mesmos proprietários, fugiu da esquina do centro da cidade — onde nunca teve portas — para outra esquina na Praia do Canto. Agora sofistica suas noites com vernissages, exposições, lançamentos de livros, quando também correm o vinho, a cerveja, o tira-gosto ou o prato elaborado...

Bares novos incrementam, com sabor de metrópole, as noites capixabas. Alguns oferecem shows, música ao vivo ou funcional, discoteca, pista de dança, como em Jardim da Penha o Fantasma da Ópera e na Constante Sodré o Ópera Café.

Um canto da Praia do Canto — o Triângulo das Bermudas — reúne inúmeros bares, permitindo num colorido de jovens, de sons e de tons, imaginar, com feição local, a "ronda madrilena". Copo na mão, os jovens se movimentam de um bar a outro, trocando de parceiros, inquietos desde o começo das noites, até as madrugadas. Sem tempo para chegar, muito menos para sair, a boemia se instala antes do pôr-do-sol até depois do amanhecer. Ali até o lirismo ocupa o seu lugar, abrindo espaço entre os carros que se atropelam e as gentes que se apinham.

Em Camburi as ondas do mar fazem coro com o vozerio e a música barulhenta dos bares que se espalham pela orla. Na areia da praia as barraquinhas, imitando os bares, atraem os que não chegam ao outro lado da avenida.

Depois dos anos 70, transformou-se a geografia da ilha de Vitória. O mar cedeu lugar ao aterro da Comdusa e às praças dos Namorados e dos Desejos. Avenidas, largas calçadas, monumentos, edificações, afastaram as águas para bem longe. Não desalojaram o Miramar, bar do tempo em que as vagas batiam nas muradas da Avenida Saturnino de Brito. Continua como bar, embora tivesse que ceder um pedaço para um self-service, acomodando-se às novas exigências.

Os seus freqüentadores não são mais os mesmos que, outrora meninos, faziam dele o local da concentração da turma da Praia do Canto que se digladiava nas polêmicas sobre a melhor maneira de salvar a pátria e o mundo. Não só de ideologia viviam aqueles jovens. Com esporte, namoros, encontros, desencontros, conversas sérias e conversas vãs, temperavam a bebida da época — a cuba libre.

O velho Miramar persiste. Dali os olhos nostálgicos espiam o mar, agora mais distante, namoram a ponte que, como um grande braço, aproxima Vila Velha de Vitória, descobrem, entre as nuvens, o monumento arquitetônico que há mais de quatro séculos transcende a fé e enriquece a paisagem — o Convento da Penha.

E porque falamos em bar, até mesmo ao pé da Virgem, numa curva da escadaria que leva os romeiros ao alto do Convento, um bar mantém a tradição do jeito bár-baro de conviver.

 

Fonte: Coleção Escritos de Vitória. Nº 8 Bares, Botequins, etc. – ano 1995
Autora: Maria Helena Teixeira de Siqueira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2015

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