Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O largo do cuspe – Por Serafim Derenzi

Prefeitura Municipal de Vitória, 1936 - Foto: O. Paes

João Rodrigues da Silva, negociante português e próspero, por volta de 1894, se não me falham as notas, construiu, na Rua Sete de Setembro, fundo dos Pelames, alagadiço e campo que demandava o Convento do Carmo, bela residência retangular, sobrado, em meio jardim, defendido por muro e gradil de ferro, pintado de azul com portais brancos. Um aprazível palacete de preço. Ali nasceu grande parte do clã numeroso dos Rodrigues da Silva, cujo neto conspícuo, pelo lado materno, é jurista e ex-senador Jeferson de Aguiar.

O Governo Municipal situava-se na cidade alta, em casarão pouco recomendável, oriundo da era lusitana.

O engenheiro Henrique de Novaes, elevado a prefeito da Capital, em 1916, elaborou um plano de melhoramento urbano perfeitamente lógico. Precisava de mais espaço e conforto para trabalhar. Adquiriu o palacete do senhor João Rodrigues da Silva, fez melhorias internas e transformou a propriedade privada em edifício público, acabando o jardim e muros de vedação.

O doutor Novaes, no silêncio da crise que a primeira grande guerra desencadeou, não pôde realizar seu plano urbanístico. Mas foi meticulosamente desapropriando grande parte dos pardieiros que interferiam no seu plano de descolonização.

Fez o esqueleto físico que seria aproveitado por Florentino Ávidos.

O preço do café era propício.

O serrano Octávio Índio do Brasil Peixoto, cunhado do doutor Ávidos, foi o Prefeito de Vitória no Governo eminentemente realizador. Entendeu de ampliar a sede da Prefeitura.

Trazido pela fama dos grandes melhoramentos que se realizavam em Vitória, aportou um famoso arquiteto tchecoslovaco, Joseph Pitlick, autor do pavilhão de sua pátria nascente, nas comemorações do nosso primeiro centenário de independentes.

Octávio Peixoto deu-lhe a projetar a ampliação e reforma da Prefeitura.

O arquiteto projetou com arte e economia um palacete neoclássico, Luiz XVI, com especificações adequadas ao estilo, inclusive mobiliário e decoração.

A obra foi posta em concorrência. Concorreram André Carloni, Lucióla e Companhia e Politti Derenzi, da qual eu era diretor. Ganhamos o pleito por duzentos e sessenta e poucos contos, se a memória não me trair.

Eu dirigi com o entusiasmo da minha juventude profissional. Fiscalizou a construção o engenheiro Francisco Menescal, que se acapixabou, deixando viúva, linda moça da família Bataglia.

O edifício foi construído rigorosamente dentro do projeto a especificações: lajes em concreto, telhado em peroba campo, com cobertura de telhas tipo Marselha. Escada em mármore carrara, gradil e portões em ferro batido, corrimão em metal, executado por Ricardo Simões, serralheiro que viera de Portugal, guarnecer o pavilhão português na falada exposição centenária. Soalhos de madeira seca, acapu e pau-cetim, vindos de Belém do Pará, tetos, sancas, florões, em gesso, esculpidos por um príncipe russo, exilado, cujo passaporte eu li, Waldemar Bogdanoff. Este notável escultor permaneceu muitos anos em Vitória e decorou o interior de nossa Catedral. O mobiliário, em estilo império, é trabalho da Read Star, famosa mobiliadora que dominou o mercado de móveis finos do Rio de Janeiro.

Os passos comuns, pavimentados em cerâmica alemã.

Os anos se passaram. A cidade cresceu, o edifício ficou pequeno. Construiu-se novo palácio, em estilo moderno, tipo gaiola com alçapões justapostos para apanhar passarinhos. Mal acabado, pisos de oficina pobre, e para lá se transferiu o “Paço Municipal”.

O edifício velho, mas nobre, foi indicado para sede da Academia de Letras, museu, pinacoteca, enfim, para atividades culturais que a cidade reclama.

— Não! Disseram as autoridades. Será praça!

E bons milhões de cruzeiros se despenderam para demolir o vetusto edifício já com o musgo das cimalhas, dos seus 51 anos. A praça ridícula teve brinquedos plásticos que duraram oito dias. Vai servir aos mendigos a cuspir os males trazidos pelo vento sul. Mas as propriedades circundantes ganharam gabarito de 2 pavimentos para novos espigões.

Parabéns aos investidores. Pêsames aos intelectuais.

 

Fonte: Jornal A Gazeta, 12 de setembro de 1975
Autor: Luiz Serafim Derenzi
Compilação: Walter de Aguiar Filho, dezembro/2015

Matérias Especiais

Saldanha da Gama - Ontem e hoje

Saldanha da Gama - Ontem e hoje

O Clube Saldanha da Gama foi inaugurado sobre o antigo Forte São João em Vitória, construído em 1592, no governo de D. Luiza Grinalda, às pressas, logo após a invasão de Vitória pelo corsário inglês Thomas Cavendish...

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

Aspectos do Direito Brasileiro na República - Parte III (FINAL)

Constituição de 1934, não consagrando no seu art. 113, nº 3, aquela cláusula “em caso algum”, veio dar um grande passo para a situação atual em que a irretroavidade das Leis

Ver Artigo
Partido Republicano - Cisão

As divergências de interesses entre os grupos da elite capixaba ficaram nítidas no Congresso do Partido Republicano realizado em Vitória, em 1890

Ver Artigo
Clubes Republicanos

Sob o governo de Pedro II o regime parlamentar brasileiro, se não primou por grandes arrancadas de progresso material, foi contudo uma verdadeira democracia

Ver Artigo
Comparações e fatos alusivos a Proclamação da República

Discurso proferido por Robero Brochado Abreu, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha - Casa da Memória, durante as comemorações da Proclamação da República

Ver Artigo
Canudos e a consolidação da República - Por Hélio Athayde

Os brasileiros ainda questionam a sua forma e o seu sistema de governo, vergados sob o imenso peso de um “complexo de culpa coletivo”, que parece continuar rondando os seus espíritos

Ver Artigo