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O menino Gil Vellozo - Por Renato Pacheco

Praça do Carmo - Foto Walter de Aguiar Filho, setembro/2011

O menino Gil vai ao comício (1ª Parte)

O dia 13 de fevereiro de 1930 amanheceu com sol forte, típico dia de verão. O adolescente Antônio Gil Vellozo, de 13 anos, acordou contente. É que o pai, o provecto professor Luiz Adolfo Thiers Vellozo, lente do Ginásio Espírito Santo, prometera levá-lo ao comício que a Caravana Liberal iria realizar no largo do Carmo, pequeno e apertado, dando acesso a três ruas.

Um cronista contemporâneo escreveu que “ninguém (...) seria capaz de imaginar que tanto sangue e tantas lágrimas se viessem a derramar, naquela noite, de céu limpo e constelado, em que a vida normal de nossa cidade se fazia sentir em sua plenitude: grupos de famílias nos passeios dos parques e praças, em direção dos cinemas: pelo cafés e às suas portas, a mesma animação, a mesma alegria comunicativa dos habituais”.

Mas na caserna, lembra o articulista, a cavalaria estava em fila, e os soldados muniam-se de cunhetes de balas, os telefones segredavam ordens severas.

O governo na admitiria provocações, embora tivesse autorizado, para a noite, no largo do Carmo, um comício da oposicionista Aliança Liberal, que propugnava pela vitória de Getúlio Vargas contra Júlio Prestes, nas próximas eleições de março.

Quando falava o senador Pires Rabelo, do Piauí, ao dizer que – Este governo é um ladrão (de votos), - a Força Pública, sob pretexto de que a linguagem dos caravaneiros se tornara violenta, postada ao lado dos assistentes, atirou neles matando quatro pessoas e ferindo muitas mais.

Gritos, súplicas, correria, a multidão estoura.

O velho professor Thiers, desgarrado, na confusão, de seu filho Gil, procura-o como louco. Desce a viela até a praça da Independência. Volta e vai encontrar o filho homiziado entre as irmãs vicentinas do Colégio do Carmo. O fato abalou-lhe a saúde. E, na madrugada seguinte, outro golpe: seu jornal A Gazeta é empastelado, por certo pelas forças governistas. Não mais se recupera o velho mestre. Com grave cardiopatia, suas forças o abandonam, e em 21 de agosto seguinte vem a falecer, aos 68 anos de idade. Seu velório, no Ginásio do Espírito Santo, e seu sepultamento com acompanhamento de estudantes por toda a avenida Capixaba marcam o fim da República Velha no Espírito Santo.

O governo que apoiava a candidatura contrária, de Júlio Prestes, mandou realizar inquérito sobre o evento, chegando-se a conclusão de que houve cinco mortes: os tenentes José Jacob, Pedro Gonçalves, os civis Cláudio Santana, Afonso Pires Madeira e Cecília Soares e, tendo ouvido os liberais Francisco Ribeiro, coronel Alziro Viana, deputado Alarico de Freitas, Romualdo Perrota, Trajano Souza, Ary Viana, José Sandoval e Mário Leve Wanderley, concluiu pela responsabilidade dos “caravaneiros”.

No ano seguinte, novo inquérito é feito, e com base em ambos, são denunciados ao Tribunal Especial, Aristeu Aguiar, ex-presidente, Mirabeau Pimentel, ex-secretário, e os militares tenente-coronel Hermínio de Holanda Cavalcanti, tenentes José Hortêncio Messias, Inácio Gonçalves, Adolfo Bittencourt, Otto Neto e Leósculo de O. Campos, sargentos Manoel Pereira de Miranda, Newton Santos Neto, Francisco Fernandes de Miranda e o soldado José Esteves dos Santos. Nenhum foi condenado.

A crise econômica mundial e a crise da sucessão presidencial deflagaram a Revolução de 30, colocando Getúlio Vargas com chefe do Governo Provisório.

No Espírito Santo, a notícia da próxima chegada da Coluna Amaral, de Minas Gerais, no dia 16 de outubro, praticamente vitoriosa a Revolução Aristeu Aguiar embarcou no cargueiro italiano Atlanta. Alegou que iria ao Rio consultar Washington Luiz, que entrementes, no decreto do mesmo dia, nomeara o coronel legalista José Armando Ribeiro da Penha interventor federal do Estado. Antônio Athayde, engenheiro, baixo e magro, 50 quilos se tanto, presidente da Assembléia Legislativa, assumiu o governo e explica: “Diante do pânico da população de Vitória, que dominou todas as classes sociais, com a notícia da chegada dos revolucionários de Minas, pela Estrada de Ferro Diamantina, após um combate na povoação de Baixo Guandu, em que um destacamento de nossa polícia foi derrotado, produziu isso um tão grande sobressalto em nosso meio, dando lugar a que o Dr. Aristeu Borges de Aguiar, Presidente do Estado, com sua exma. Família, bem assim o Dr. Mirabeau da Rocha Pimentel, secretário do Interior, embarcassem imediatamente em um navio mercante italiano, o “Atlanta”, que se achava em nosso porto, em viagem para Gênova”.

O presidente da Casa Legislativa assumiu o governo, nomeou o secretário da Educação, acumulando com o secretário do Interior, Atílio Vivacqua, e Jair Dessaune, delegado geral, os quais restabeleceram a ordem pública. Ficou três horas no governo, sendo substituído pelo já referido coronel José Armando.

No dia 18 a Força Pública aderiu à Revolução e no dia 19 o governo foi entregue a uma junta composta do tenente Bley e dos civis João Manoel de Carvalho e Afonso Lyrio, magistrados.

O tenente Bley (chegou no final da carreira a general do Exército) foi logo a seguir promovido a capitão e nomeado interventor federal, tendo tomado posse em 21 de novembro de 1930, iniciando governo que iria até 1943.

Pertencia ele às forças legalistas; viera para Vitória em 6 de outubro, num navio Ita, com mais oito oficiais e treze sargentos, sob a chefia do já citado coronel Armando.

O objetivo era que eles comandassem o 3 Batalhão de Caçadores, a Polícia Militar e os “batalhões patrióticos, compostos de operários recrutados por empreiteiros.

Diz Bley: “O 3 BC contava com efetivos reduzidos, estava mal armado, havia poucos oficiais fiéis à legalidade estando os demais francamente favoráveis à Revolução.” Logo o tenente Bley aderiu aos tenentes revolucionários homiziados na casa de um pescador. Os oficiais legalistas e revolucionários do 3 BC prendiam-se, mutuamente, ao sabor das notícias.

Imediatamente após a vitória. “revoltosos de todos os matizes, entre civis e militares, iniciaram então verdadeiro assalto aos cargos de direção em funções de destaque no quadro do funcionalismo público. Era só alegar que estava em plena posse do espírito revolucionário para merecer tratamento especial prioritário”.

Tais fatos são corroborados pelo historiador Luiz Derenzi: “Os primeiros dois anos foram de muita confusão e intrigas. Grupos antagônicos disputavam a preferência do jovem capitão.

À crise econômica e financeira, somava-se a política, cada vez mais negativa e perniciosa. Resistiu o interventor aos maus conselheiros e aos poucos se prestigiou junto às classes conservadoras e ao governo central”, libertando-se da politiquice local e passando a seguir as diretrizes getulianas.

 

Livro: Os dias antigos (Coleção José Costa), 1998
Autor: Renato Pacheco
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2013

 

LINK RELACIONADO:

>> A era Bley (2ª Parte)



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