Morro do Moreno: Desde 1535
Site: Divulgando há 16 anos Cultura e História Capixaba

O Morro do Alecrim – Por Maria Stella de Novaes

Enseada de Inhoá, 1912 - Local onde está localizada a EAMES - Vila Velha, ES

Conta-se que, em tempos remotos, à meia-noite, os pescadores da Praia de Inhoá ouviam prantos e lamentações, que pareciam vir de um oratório encantado, existente no meio do Morro do Alecrim.

Certa vez, em conversa à beira do fogo, uso daquele tempo, surgiu a explicação, quando certo romeiro foi à Penha e, depois, ao Forte de Piratininga, pedir ao Comandante que lhe desse pousada e permissão de aguardar o navio, para Campos ou Cabo Frio. À noite, relatou episódios da viagem, perante a referida autoridade, o Mestre de Campo, José de Alcobaça, e outros.

Conversa-vai, conversa-vem, e José de Alcobaça deu sua nota: — Ouvira que, em certa parte do Morro do Alecrim, havia um poço onde foram atirados os ladrões de alfaias da capela do Pe. Gouvêa, — o oratório ali existente. O sacrilégio assinalou o declínio das ordens religiosas, na Capitania. O próprio sacerdote ali jazia detido, sob uma pedra, e precisava de fazer revelações.

Afirmava o orador verdade nessa história. Fora mesmo testemunha de certa visão: — um vulto de batina vagava algumas noites, pela região; sumia-se, à presença de alguém. Viam-no as mulheres, sobre as águas, quando iam à fonte. Padres dançavam, por cima dos cardais. E, nas pontas das pedras, encontravam-se cabeças e pés de criaturas que, repentinamente, se convertiam em gansos. Apareciam, ainda, criaturas informes, cobertas de escamas! ... Espumavam. Fervia a água, então, e os monstros debatiam-se, até que desapareciam. Piratas infestavam as praias e salteadores, o sertão. Arrancaram até as entranhas de um íncola, porque se recusara a indicar a jazida de ouro, no Marinho. (1)

Contava ainda que, à meia-noite, no Morro do Alecrim, subiam fantasmas, armados de punhais ensangüentados. Entoavam hinos de morte aos vivos, que eles esperavam, no Além.

À tarde, rugidos subterrâneos, semelhantes aos de um gigante, abalavam o Morro.

Dizem que, em confirmação dessa lenda, foram encontrados, numa das salas do velho Convento dos Jesuítas, um esqueleto e um pergaminho, com estes versos:

- Tu que passas, na esplendente

abóbada do Morro ardente,

sombra pálida, tremente,

como os raios do luar,

de onde vens? Qual é o teu fito?

És tu arcanjo proscrito?

Por que passas, no granito?

Voa ao Céu, ou voa ao mar?

Por que sempre, a noite, velas?

Quando o espaço é todo estrelas,

tu surges, entre elas?

Nos ermos e sempre só?

Por que corres tais paragens

e usas dessas roupagens,

 fugindo ao ar e às aragens,

rojando-te, assim, no pó?

 

Resposta do fantasma:

 

Sou a inveja; curto fome!

A mim se prende um mistério.

Réprobo sou; vivo triste, aéreo,

qual ave agoureira, em cemitério.

 

Ando, assim, na penitência,

porque fui denunciado,

Recebi as alfaias da igreja.

Repare, - sou um excomungado!

 

Atualmente, o Morro do Alecrim está desbravado; acabaram-se as matas e os cardais. É um arrebalde promissor de Vila Velha, na margem da rodovia, para os municípios do Sul e o Rio de Janeiro.

(Esta lenda encontra-se na coleção de Peçanha Póvoa e nos jornais da Biblioteca Pública do Espírito Santo).

 

NOTAS

1 – Relação com a lenda “O Tesouro de Caçaroca”.

 

Fonte: Lendas Capixabas, 1968
Autora: Maria Stella de Novaes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2015

Folclore e Lendas Capixabas

A Capela de N. S. de Belém – Por Adelpho Monjardim

A Capela de N. S. de Belém – Por Adelpho Monjardim

No acanhado espaço entre as arruinadas paredes o piso era uma sucessão de crateras. Transitar por ali era uma aventura

Pesquisa

Facebook

Leia Mais

A Pedra dos Ovos – Por Adelpho Monjardim

Consiste a interessante formação em compacto bloco de granito, sofrivelmente oval, superposto a outro menor, em perfeito equilibro

Ver Artigo
Horas de Lazer nos anos 40 em Vila Velha – Por Seu Dedê

As brincadeiras eram comuns a todas as crianças, sem distinção de classe social. Tínhamos muitas e muitas

Ver Artigo
Carta ao meu cumpade Almando Azevedo (Aribiri, Vila Velha)

Meu cumpade que sódade / que vontade de chora, quando me alembra das noiques / que ensaiemo no Celestiá, foi só pra toma amizadi / com o cumpade do Arraia

Ver Artigo
A Manteigueira Assombrada – Por Maria Stella de Novaes

Desse romance entre a mulher índia e o colono luso, resultou a lenda de uma "assombração", para a Casa da Manteigueira

Ver Artigo
As Timbebas - Edward Athayde D’Alcântara

A Prainha era um berçário de mariscos; ali, você colhia com fartura o burdigão

Ver Artigo