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O novo arrabalde

Novo Arrabalde, projeto do engenheiro Saturnino de Brito

No início do século, o engenheiro Saturnino de Brito elaborou o Projeto do Novo Arrabalde, abrangendo a área primitiva da Praia do Canto, que ainda hoje conserva alguns traços originais da sua concepção.

A expansão urbana de Vitória seguiu a regra geral da quase totalidade das cidades brasileiras tradicionais. De um sítio histórico, núcleo da antiga vila de Nossa Senhora da Vitória, erigida na parte alta e meridional da ilha, a expansão se processou de forma centrífuga, ganhando os espaços periféricos disponíveis ou até criando-os, mediante aterros de mangues e sucessivas conquistas ao mar.

Esse processo expansivo despolarizante foi, todavia, lento. Seu grande impulso situa-se no século XX, embora no final da centúria anterior tivesse sido laborado o primeiro projeto urbanístico de Vitória, de autoria do engenheiro Saturnino de Brito, denominado Novo Arrabalde. Sua área abrangia a parte primitiva, sem os aterros, do atual bairro da Praia do Canto – antiga Praia Comprida – e porções adjacentes.

A implementação do projeto se deu sob a ação oficial do Governo Moniz Freire cujo quatriênio, de 1894 a 1898, foi fortemente favorecido pela alta do preço do café.

Já o orçamento do Estado, no ano anterior à posse de Moniz Freire, acusara um saldo positivo da ordem de 32 por cento em relação à receita orçamentada. O incremento das atividades comerciais, centradas no movimento das exportações do café, manteve-se nos anos seguintes, assegurando condições propícias à economia estadual.

Cidade Do Sem – Um programa de remodelamento e modernização da cidade de Vitória, que conservava ainda nítido perfil colonial, não só podia começar a ser pensado, como se tornava também, necessário.

Essa necessidade transparece na descrição que o presidente Moniz Freire traça da capital do Estado, apontando suas condições precárias, típicas de uma “cidade velha e pessimamente construída, sem alinhamento, sem esgotos, sem arquitetura (...) apertada entre a baía e um grupo de montanha”. Somando-se a isso o mau abastecimento d’água, o serviço arruinado de iluminação a gás, a carência “de um fornecimento regular de carnes verdes, sem edifícios notáveis, sem teatro, sem um passeio público, sem hospitais, sem serviço de limpeza bem organizado, sem um matadouro decente, desprovida de toda defesa sanitária, necessitando de construir novos cemitérios...” – tem-se a exata dimensão dessa cidade do sem que era Vitória no final do século XIX.

Moniz Freire não fica, porém, na retratação desse sofrível panorama. Avoca ao Estado a iniciativa de formular uma proposta inovadora de programação da vida urbana, planificando para o futuro, abrindo, arrojadamente, perspectivas até então inimagináveis para o aproveitamento de um espaço físico cinco vezes maior do que o limitado sítio onde estava assentada a acanhada cidade de Vitória. Nasceu, assim, o Projeto do Novo Arrabalde, cuja execução coube à Comissão de Melhoramentos da Capital.

Nessa Comissão, como responsável pela autoria do Projeto, preponderaria a figura de diretor, o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, cujo nome ficou ligado a uma gama de serviços e obras de planejamento e saneamento urbanos realizados nas mais diferentes cidades do Brasil.

Filosofia Positivista – De Saturnino diria, por exemplo, Gilberto Freire (in Ordem e Progresso, José Olympio, Rio, 3ª Ed., 1974, Tomo II): “Figura exponencial de engenheiro e de administrador de serviços públicos que está a merecer um estudo, além de biográfico, sociológico, um estudo que fixe suas relações com o meio e com a época – chegou a fazer escola, caracterizada pelo empenho dos engenheiros sanitaristas que obedeciam a sua orientação, de se conservarem apolíticos, nos postos técnicos que lhes eram confiados pelos governos-apolíticos e intransigentemente honestos”.

Adepto do Positivismo, Saturnino de Brito impregnaria a concepção do Projeto do Novo Arrabalde, sem prejuízo de suas virtudes técnicas, com elementos extraídos à filosofia positivista. O historiador Luiz Derenzi, também ele engenheiro, destaca o fato em sua obra Biografia de Uma Ilha (Ed. Pongetti, Rio, 1965): “Usando os artifícios da numerologia positivista (Saturnino) deu às vias e quadras dimensões múltiplas de sete, perfeitamente harmônicas”. Lembra ainda, e com propriedade, aquele mesmo historiador: “Não obstante ter sido concebido antes do aparecimento dos veículos automotores, o bairro teve todas as condições ótimas de tráfego” – verdade que os dias correntes continuam confirmando.

Fatores modernamente problematizados e discutidos pelos técnicos e planejadores de cidades – ou pelos seus críticos e contestadores da massificação urbana – tais como qualidade de vida, aproveitamento racional do solo urbano, integração social e comunitária, preservação da paisagem ambiental, lazer, saúde, serviços públicos, vias racionais e transporte, aparecem pioneiramente contemplados e priorizados no Projeto do Novo Arrabalde.

Não sem razão, o próprio autor, no fecho do ofício de 23 de maio de 1896, em que dirige ao cidadão Sr. José de Mello Carvalho Moniz Freire – Presidente do Estado – o relatório final e completo sobre o Projeto elaborado, externa votos para que não redundassem perdidos “os esforços e sacrifícios” empenhados pelo Estado “no sentido de dar à Capital terreno são, ou saneado, por onde possa se desenvolver com as garantias higiênicas e com os predicados estéticos das cidades modernas”.

Direcionamento Futurista – O Projeto do Novo Arrabalde globalizava, de forma integrada, uma área principal e maior e duas outras menores, que se estendiam, a partir de Jucutuquara, nos sentidos das praias da ilha de Vitória, abarcando superfície de 3.293.713 m2.

Compreendia assim, os terrenos disponíveis, situados entre os morro Grande, da Gurigica, de Bento Ferreira, de Itapeanmbi, do Suá, Itapebuçu, Guajuru, Barro Vermelho e Gamela, constituindo-se “campo verdadeiro de expansão para uma vida muito diferente do viver acanhado que ofereceu a velha cidade”, afirmativa que revela o direcionamento futurista que presidiu o Projeto Novo Arrabalde.

Seu partido urbanístico compunha-se de 178 quarteirões (quadras), totalizando 2.129 lotes, todos com testada superior a 14,00 metros, sendo: 117, na Vila Monjardim, área seguinte a Jucutuquara, destinada a núcleo operário; 36, na Vila Hortícola, de destinação agrícola; e, finalmente, 1.976 lotes no Novo Arrabalde propriamente dito.

Servido por quatro grandes avenidas – a Norte-Sul (hoje Leitão da Silva), a Avenida da penha (“orientada no rumo da extraordinária Capela”, atingindo a Ponte da Passagem), a Ocidental (atual Rio Branco) e a Ordem e Progresso (“justo preito ao lema Política Positivista”, que começava onde é a Avenida César Hilal) – o Projeto preconizou a criação de bosques de eucaliptos, nos quais Saturnino identificava “preciosos fatores higiênicos” para combater moléstias e salubrizar o meio-ambiente.

Bosque Sagrado – Além de jardim, um passeio público foi projetado no morro da Barrinha – onde fica hoje o Colégio Sacré Couer de Marie – preservando a mata ali existente e proporcionando visual para o mar largo, com previsão de construção de “alamedas transitáveis ou carruagens até o ponto culminante”.

Reconhecendo ser “difícil, se não impossível”, encontrar nos terrenos do Novo Arrabalde local apropriado para o estabelecimento de cemitério – problema crônico da ilha de Vitória – mesmo assim o Projeto destinou o morro do Barro Vermelho para esta serventia com a denominação de Bosque Sagrado. No outro extremo, junto ao morro de Bento Ferreira, reservou-se área para a construção de um novo hospital, outra das grandes e persistentes carências da Capital.

O Projeto visava a beneficiar uma população da ordem de 15.000 habitantes, com a taxa estimada de ocupação de sete moradores por lote, num evidente e também precursor princípio de valorizar a implantação de habitações unifamiliares. Essa proposta perdurou durante muito tempo como marca de origem da Praia Comprida até que o boom imobiliário dos últimos vinte anos alcançou o local, com a proliferação dos edifícios residenciais plurifamiliares e das construções verticalizadas para comércio e serviços, hiper valorizando o preço dos terrenos na região.

Plantas isoladas, planilhas, cortes e outros detalhamentos técnicos compõem o Projeto, revelando o critério adotado no planejamento dos serviços estruturais básicos, como aterros, barragens, cais, diques, galerias e coletores de águas, compondo o sistema de drenagem, além de outros serviços indispensáveis.

Os estudos desenvolvidos para o abastecimento d’água concluíram pela sua captação no córrego Jucutuquara, com previsão de armazenamento em reservatório próprio. Ficou ainda equacionada a possibilidade de esforço dessa captação com o aproveitamento do manancial da Fonte Limpa, no morro do Mestre Álvaro, “onde existe água abundante e de superior qualidade”, canalizável até o novo bairro através de linha adutora de apenas 12.500 metros de extensão.

Traços Originais – A estreada de rodagem, com 3.500 metros de comprimento e tendo plataforma de 7,00 metros de largura, integrava o Novo Arrabalde ao velho núcleo da cidade de Vitória. A estrada nascia no contraforte da Capixaba, próximo ao Forte São João, e vencia o córrego Jucutuquara, graças a um pontilhão de cinco metros, cuja estrutura foi criteriosamente projetada.

Através da estrada obtinha-se a fácil ligação do novo bairro com o centro vitoriense, dada a curta distância entre ambos, Atendia-se, assim a um dos pré-requisitos básicos que orientaram sua localização, a NE, na própria ilha de Vitória: o de oferecer “condições tais que o transporte para ele fosse o menos oneroso e o mais acessível em cada momento e a cada algibeira”, condicionante suprida satisfatoriamente, nas décadas de 30 a 50, com o uso do bonde elétrico como meio de transporte coletivo.

Essa localização – “após a série de pitorescos outeiros da fazenda Maruípe” – na descrição de Saturnino de Brito – era, além do mais, a única possível, na restrita geografia insular de Vitória.

Foi, portanto, dentro desse quadro geral de diretrizes e limitações que surgiu, há cem anos atrás, o Projeto do Novo Arrabalde, no qual, ainda hoje, são identificáveis os traços originais de sua concepção técnica, arrojado e bem sucedido planejamento urbanístico.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. 1994, Nº 44
Autor: Luiz Guilherme Santos Neves
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2012 

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