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O outro lado da revolta de Queimado
01/10/2010

Fonte: ESPÍRITO SANTO - História de suas lutas e conquistas
Autora: Neida Lúcia Moraes

Em 19 de março de 1849, registrou-se na Província um fato que a História denominou “Insurreição do Queimado”. Insurreição é sinônimo de revolta. E tudo aconteceu no Queimado, que é hoje município da Serra.

A história é simples de ser contada.

À margem esquerda do Rio Santa Maria da Vitória que servia de transporte para homens e mercadorias com destino ao interior da região, em certo ponto surgiu um povoado que se denominou São José do Queimado. Aí deveria construir-se uma igreja e não havia recursos para isso. A população era em geral muito pobre e os fazendeiros moravam longe e pouco se interessavam pelo assunto. Mas era uma freguesia e não podia deixar de ter uma igreja bonita, com sinos suspensos numa torre bem alta.

O pároco propôs-se edificar o templo.

Logo correu a notícia de que os escravos que ajudassem a levantar a obra receberiam, no dia da inauguração, a carta de alforria.

O entusiasmo tomou conta dos cativos que se lançaram ao trabalho movidos pelo cântico da liberdade. Os dias santos eram dias de festa e a festa era ver subir as paredes em cujos coroamento estaria o reconhecimento da sua condição de criaturas humanas.

Um ano inteiro trabalharam, isto é, em noites de luar, e aos domingos e nas horas de folga que tivessem nas fazendas.

No dia da inauguração, depois da missa, os escravos esperaram o cumprimento da promessa. Tudo lhes foi negado. O frade italiano, Gregório de Bene, negou tudo e se retirou apressadamente da paróquia.

Mas... teria havido mesmo essa promessa?

Condenar o Padre Bene por uma promessa que não sabemos se foi, realmente, feita, seria uma leviandade. O número de escravos que teriam ajudado a levantar o templo não passou de vinte ou pouco mais. E mais de duzentos participarem do levante.

Não teriam esses negros cativos se aproveitado do episódio para, sofridos e desesperados, fazer ecoar um grito de liberdade?

***

O sacrifício das vítimas serviu de alerta para que as autoridades e o povo em geral pensassem mais e se preocupassem com a terrível dominação do homem pelo homem.

Fonte: História do Espírito Santo - Uma Abordagem Didática e Atualizada 1535-2002
Autor: JOSÉ P. SCHAYDER

Se o frei Gregório de Bene prometera ou não as cartas de alforria, é uma dúvida que os documentos históricos disponíveis não permitem resolver até o momento. Restou, apenas, a versão do padre. No juramento que prestou por escrito alguns dias depois, ele nega tal acusação. Escreveu, em sua declaração: “Eu não podia, nem devia, nem queria lhes dar carta de alforria”.

Há um provérbio popular, segundo o qual “papel aceita tudo”. De qualquer modo, tendo sido sincero em sua declaração ou omitido a verdade, o frei Gregório de Bene foi o pivô do episódio e a suposta promessa quebrada foi o motivo alegado para a insurreição – ou teria sido, apenas, um pretexto artificialmente criado pelos negros?

De acordo com uma interpretação histórica pouco convencional, o principal líder da revolta, um escravo de nome Elisiário, teria intencionalmente distorcido as idéias do padre, em benefício da luta pela liberdade. Essa abordagem está baseada no fato de que negros cativos assistiam às cerimônias religiosas com os brancos, sentados, muitas vezes, nos mesmos bancos ou, na pior das hipóteses, no fundo da nave da igreja. Nos sermões, senhores e escravos eram apresentados como irmãos em Cristo e, portanto, iguais. O discurso igualitário, próprio do cristianismo, teria sido manipulado por Elisiário, para tramar a rebelião. A insurreição, nesse sentido, não foi espontânea e repentina, mas, sim, planejada com bastante antecedência por um grupo de escravos.

O cabeça e ideólogo da rebelião, como já está claro, é Elisiário. Próximo a ele, como segundo homem e líder moral, o escravo Chico Prego. Segue-se uma lista de ativistas, aliciadores e armeiros: Domingos Corcunda, Carlos, Eleutério, Benedito, João da Viúva, João Pequeno e o irmão de Elisiário, também chamado João. Mensageiros foram enviados ao norte e sul da província, a fim de conquistar adeptos para movimento. Esse virtual reforço, se de fato foi solicitado, não chegou a tempo.

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