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O Padre Anchieta e minhas reminiscências - Por Ormando Moraes

Santo Padre José de Anchieta

A simpática figura do padre Anchieta, como incansável andarilho de nossas praias, como protetor de nossos índios, como um dos primitivos habitantes de Reritiba, depois de denominada Benevente e hoje cidade de Anchieta, despertam-me velhas reminiscências de minha infância a beira mar vivida.

Contava-me minha mãe de nossa breve morada em Benevente, onde meu pai exercera a função de coletor de rendas estaduais, de 1917 a 1918. Transferido para Barra de Itabapoana, na divisa com o estado do Rio, o melhor meio para chegar, naquela época, àquele local era por mar, em pequenas lanchas a motor. Por terra, só montado em éguas, ou a pé, como fazia o santo padre Anchieta.

Naquela madrugada de 1918, às 2 horas, com a família e seus teréns acomodados como possível, a lancha "Sgarta" a motor e vela, sob o comando de Mestre Jorge, saía de Benevente barra a fora, com a esperança de bom tempo e da ajuda do vento terral, chegar a Itabapoana entre 8 e 9 horas. Mas, depois de ultrapassar Barra de Itapemirim, na altura de Lagoa do Siri, as primeiras rajadas de vento sul, o mar muito agitado e uma cortina de chuva fina reduziram bastante a velocidade da lancha. E, ao chegar às proximidades da barra do Rio Itabapoana, lá pelas 11 horas, Mestre Jorge percebeu ser impossível ultrapassá-la, por estar muito baixa a maré e só às 15 horas conseguiu fazê-lo. Embora com todos molhados, sujos, pálidos e vomitados, foi um alívio desembarcar em Barra de Itabapoana e ocupar de qualquer jeito a casa onde a família iria residir durante cerca de 10 anos.

Em Barra de Itabapoana, nós tivemos uma vida de muita ligação com o rio, os mangues, o mar e as praias, pelas quais viajava a pé o santo padre Anchieta, em sua época, e muita gente o imitava pelos tempos afora.

Lembro-me, por exemplo, de uma visita que recebemos de meu avô materno e de um tio. Viajaram de trem de Cachoeiro a Barra de Itapemirim, de onde prosseguiram a pé pela praia, chegando a nossa casa à noitinha, para surpresa e muita alegria de todos e certo constrangimento de meu pai, que, no seu regresso, alugou dois cavalos para viagem menos penosa.

Mas as viagens a pé pela praia não eram incomuns. Além do padre Anchieta, umas das figuras mais admiráveis que as praticava era o estafeta dos correios que, de 15 em 15 dias, levava de Itapemirim a Barra de Itabapoana, um saco de jornais, ofícios para a coletoria e cartas em linguagem correta ou "em mal traçadas linhas". Esse estafeta às vezes pernoitava lá em casa, por deferência de meu pai, que gostava muito de sua conversa e noticias.

As pessoas de maiores posses preferiam cavalos para suas viagens pelas praias, estradas naturais em que os muares não se adaptavam bem. Para o transporte de produtos rurais, a preferência era pelas éguas. Com seus balaios cheios de melancia, mandioca, batata doce, cana, farinha, rapadura e também peixes para venda nas povoações, as éguas, coitadas, ainda tinham a obrigação de atender às suas crias queridas, mas exigentes, a chupar de vez em quando suas tetas, para matar a sede e a fome.

Outra recordação da infância, provocada pela simpática figura do padre Anchieta, é a da igrejinha de Nossa Senhora das Neves, construída pelos jesuítas nos campos de Muribeca, a uns 50 quilômetros Rio Itabapoana acima e a pouca distância de sua margem.

O dia da Santa é 5 de agosto, porém, desde o dia 1°, grande parte dos moradores da redondeza e curiosos de pontos mais distantes se instalavam com barracas em torno da igreja e se estendendo pelo campo afora, para venda de comestíveis e toda sorte de mercadorias, montagens de roletas e outros jogos de azar. Além disso, havia bailes e jongos, circos e outras exibições, e nós, crianças, também tomávamos conhecimento das fugas de casais pelas capoeiras, mas seus objetivos ainda não eram bem claros para nós.

As famílias que se consideravam mais importantes em Barra de Itabapoana (embora não fossem nada importantes) participavam da festa apenas no dia 5 de agosto. Em grandes canoas com toldos, cheias de gente, de bichos de estimação, comidas feitas e bebidas, impulsionadas a varões por pretos enormes, que diziam com exagero terem participado da Guerra do Paraguai, subiam o rio em disputa divertida, e ali pelas 8 da manhã, já estavam armando suas barracas, se possível, protegidas por alguma árvore. Enquanto as mulheres ajeitavam suas bagagens e se arrumavam para a missa, as crianças já começavam a comer e se espalhar pelo campo enorme, descobrindo novidades e os homens saíam para encontrar os amigos, fazer seu joguinho e conversar sobre mulheres exibicionistas ou recatadas, que surgiam de todos os lados. Eram milhares de pessoas naqueles campos, dando vazão aos seus desejos de comer, beber, jogar, amar e se divertir.

Às 4 horas da tarde iniciava-se o movimento e as arrumações para o retorno, que era bem divertido, embora um tanto perigoso. Rio abaixo, os canoeiros se desafiavam uns aos outros e as canoas desenvolviam bastante velocidade, às vezes se abalroando e correndo o risco de acidentes mais sérios, nunca, entretanto, por nós presenciados - quem sabe? - pela proteção que todos recebiam do Santo Padre Anchieta e de Nossa Senhora Das Neves. À noitinha, todos estavam chegando em casa para o merecido descanso e o retorno à rotina.

São estes acontecimentos singelos que, agora, me vêm do fundo da memória, neste ano do IV Centenário da morte do padre Anchieta.

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 49, ano 1997
Autor: Ormando Maraes
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2014 

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