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O pescador de sons - Por Marien Calixte

Maurício de Oliveira

O rio Vístula divide a cidade em dois setores. Dez anos se passaram desde que terminou a Segunda Guerra Mundial. De um lado e do outro das águas mansas do rio, Varsóvia está em reconstrução. As paredes das casas e prédios, aqueles que ficaram de pé, ainda mostram o rendilhado de buracos produzidos pelas balas dos fuzis alemães. A paisagem de Varsóvia se refez, porém, a brutalidade do exército nazista jamais se apagará da memória dos seus cidadãos. E isso é compreendido pelo visitante, ao observar os rostos do povo daquela cidade de mil anos. Em cada rosto o cenário particular de suas dores, de suas mágoas.

A figura do visitante é bem nítida, seu terno branco faz contraste contra o tom cinza da cidade, ainda que seja julho e o céu esteja muito claro. O visitante é um homem de poucos anos de idade. A cabeça povoada de sonhos, um rosto latino com sua alegria própria dos trópicos. É um visitante deslumbrado com a paisagem urbana que o recebe com delicadeza. É a primeira vez que Maurício de Oliveira sai do Brasil. O filho do pescador Sebastião e da lavadeira de roupas, d. Maria, aceitara o desafio de concorrer com músicos de outros países, num festival de violinistas, em Varsóvia. Ao seu lado estariam músicos profissionais e estudantes escolhidos por causa de seu excepcional talento. Autodidata, com experiência na relação direta com a música popular brasileira, Maurício já exibia intimidade com o repertório clássico. A austeridade e o rigor das escolas europeias não o assustavam. Bom filho de pescador, a paciência era seu método.

Para chegar a Varsóvia, onde o maior desafio de sua vida o esperava, Maurício de Oliveira contou com o apoio decisivo dos médicos Aldemar de Oliveira Neves e José Leão Borges, este, presidente do Partido Socialista Brasileiro, ao qual Maurício se filiara por convicção própria. O músico reconhece, ainda, a ajuda do governador Jones dos Santos Neves, do senador Ari Viana e de Carlos Lindenberg. Não poderia desapontar sua família, seus amigos e o “pessoal que tocava naquelas noites de seresta e bailes, quando comecei a ganhar a vida com o meu violão”, diz mestre Maurício. Enquanto aguardava a grande noite do festival, Maurício de Oliveira tocou em parques e jardins de Varsóvia, encantando os poloneses com a música de Ary Barroso, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo.

O Palácio da Cultura era um teatro de grandes dimensões. Maurício de Oliveira nunca vira tanta gente reunida para um evento musical. Quando seu nome foi anunciado, como representante do Brasil, Maurício lembrou-se do conselho de seu irmão José, que o ensinara a tocar violão: “Coloque o coração nos dedos. Vai dar certo”. O festival exigia três peças dos concorrentes. O violinista capixaba interpretou Bach, Chopin e a “Canção da Paz”, de sua autoria. O irmão José tinha razão: Maurício tocou com o coração. Com o apoio da plateia, que pedia a “canção da Paz”, mais uma vez, o júri lhe concedeu o 2º lugar. No dia seguinte ao festival, Maurício de Oliveira voltou a tocar nas praças de Varsóvia. As pessoas reconheciam e lhe pediam a canção de sua autoria, que encantara a plateia e o júri. E, também, “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo, uma melodia-teste para qualquer grande violonista.

O prêmio internacional de Varsóvia, em 1955, poderia ter levado Maurício de Oliveira para o Rio de Janeiro, São Paulo, ou Paris, de onde recebeu convite para estudar os clássicos. O filho de pescador Sebastião e de d. Maria, nascido no Porto das Pedreiras, em Vitória preferiu ficar. Decidira ser o músico do seu próprio povo e de sua terra. E assim o faz. Ainda menino, quando começou a tocar violão profissionalmente, aos 10 anos de idade, seu pai lhe perguntou se era aquilo mesmo que ele queria ser na vida. Maurício de Oliveira respondeu: “Eu sou um pescador de sons”.

Todo homem, qualquer homem, é o que ele faz dos seus sonhos.

 

Fonte: Vitória de todos os ritmos. Escritos de Vitória, 2000
Autor: Marien Calixte
Compilação: Walter de Aguiar Filho, junho/2012 

Personalidades Capixabas

Paulo Amorim

Paulo Amorim

"Saí para a pesca, como fazia habitualmente todos os sábados e também uma vez durante a semana. Era dia 29 de fevereiro de 1992, sábado de carnaval..."

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