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O reinado do café - Rio abaixo, em canoas, o café ganha o consumidor

Canoas transportando café entre o Rio Santa Maria e a Baía de Vitória

O café foi a mercadoria que mais ativou o transporte fluvial no Espírito Santo. Do Itabapoana ao São Mateus, vários rios capixabas adquiriram grande movimento a partir de meados do século XIX. O mais movimentado era o Santa Maria, que ligava Vitória a Santa Leopoldina, num percurso de cerca de 50 quilômetros cobertos por grandes canoas a remo e/ou a vara.

A partir de 1877, com a abertura da estrada Costa Pereira, ligando Santa Leopoldina a Vitória, as tropas de burros cargueiros podiam fazer o percurso por terra, mas os produtores e os comerciantes de café continuaram dando preferência ao transporte por canoas.

Conhecido por Porto do Cachoeira de Santa Leopoldina, o barrancão do rio Santa Maria era o ponto de chegada de cinco estradas coloniais. Uma delas servia os cafeicultores do vale do rio Doce, que usavam esta saída em Santa Leopoldina quando as águas do rio Doce, de tão baixas, impediam a navegação. Em setembro de 1886, cerca de três meses após a safra, as estradas coloniais de Santa Leopoldina registraram a passagem de 346,6 toneladas de café. Naquela época, a região serrana já servia como caminho da produção de café de Minas, mas o grosso da produção se concentrava no Sul do Estado.

O principal rio navegável do Sul era o Itapemirim, mas nem todo café passava por ele. Rios menores como o Itabapoana e o Benevente eram cortados pelas canoas. Para permitir a saída do café produzido na colônia italiana de Rio Novo, em 1874, foi inaugurado um canal ligando o rio Novo ao Itapemirim. Esta obra, também creditada ao ministro Costa Pereira, que tudo fazia para ajudar o Espírito Santo, ficou na história como o Canal do Pinto, em homenagem ao engenheiro Pinto Paca, diretor a Colônia Rio Novo.

Os trechos navegáveis dos rios capixabas eram relativamente curtos, mas bastavam para escoar produção do interior para o litoral e daí para os grandes centros, sobretudo o Rio de Janeiro. Desde 1870, o litoral capixaba era percorrido por um vapor que, de 15 em 15 dias, fazia a linha Rio-Caravelas (BA). No percurso, o barco parava em Campos (RJ), Itapemirim, Piúma, Vitória, Santa Cruz, São Mateus e Mucuri (BA).

Nos dois rios mais importantes — o Doce e o Itapemirim — foram criadas linhas de navegação a vapor. No Itapemirim, os barcos trafegaram a partir de 1876, mas seu serviço não durou muito tempo. Em tempos de estiagem, o rio se tornava intransitável. Logo nos primeiros anos da operação, o pioneiro Henrique Deslandes, um paranaense que se mudara para o Espírito Santo a fim de ganhar dinheiro com o café, passou adiante o negócio dos barcos e foi tentar — sem sucesso — a construção de uma ferrovia.

No rio Doce, os barcos a vapor foram mais longe e duraram mais tempo. Eles navegavam cerca de 142 quilômetros da foz do rio Doce até Baixo Guandu, onde se iniciava o trecho encachoeirado conhecido por Escadinhas. Para vingar, porém, a Companhia de Navegação Espírito Santo-Campos contou com subconvenção do Governo imperial. Dois barcos de 60 pés de comprimento, tocados por motores de 60 HP, faziam duas viagens por mês, ligando o vale do rio Doce ao Sul da Bahia e ao Rio de Janeiro. Quando as águas do rio baixavam, tornava-se difícil a navegação de barcos com mais de 5 a 6 pés de calado. Nessas épocas, desapareciam os vapores, reaparecendo os barcos a vela de fundo chato que se livravam sem dificuldades dos mutantes bancos de areia do leito do rio.

A história da navegação fluvial no Espírito Santo, principalmente nas primeiras décadas de desenvolvimento da cafeicultura — antes do fortalecimento das ferrovias e da abertura de estradas para caminhões —, revela que tem raízes bastante antigas a vocação capixaba para o trabalho portuário. Quando os rios começaram a perder importância diante do volume transportado pelos trens e da rapidez do transporte rodoviário, o litoral do Espírito Santo, já tinha condições de receber grandes navios. O Porto de Vitória, desde 1880, era o destino final de barcos que traziam imigrantes e retornavam à Europa com café e madeira.

Pouco mais de um século depois, a vocação portuária do Espírito Santo estava configurada por sete cais diferentes – Vitória, Capuaba, Atalaia, Praia Mole, Ponta de Ubu, Barra do Riacho e Tubarão -, que respondem por mais de um quarto das cargas embarcadas pelo Brasil. A mais volumosa dessas cargas é o minério de ferro. A mais antiga e valiosa, o velho café que outrora chegava a Vitória de canoa.

 

Fonte: O reinado do café, A Gazeta 31/08/1992
Pesquisa e textos: Geraldo Hasse, Linda Kogure e Abmir Aljeus
Fotos: Valter Monteiro e Tadeu Bianconi
Concepção gráfica: Sebastião Vargas
Ilustração: Pater
Edição: Orlando Eller
Compilação: Walter de Aguiar Filho, outubro/2016

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