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O Teatro capixaba de antanho

Vitória, 1912. Interior do Teatro Melpômene - Acervo APEES

Sabidamente pobre é a bagagem literária de teatro em nosso país, podendo-se enumerar nos dedos os principais autores que surgiram até o começo deste século. Que se dizer, então, do teatro capixaba?

Num catálogo de exposição do livro, realizada em Vitória, só aparecem registrados três autores modernos: Nilo Bruzi, Kociusko Leão e Ernesto Guimarães. Pergunto: e os outros, os antigos, onde estarão as suas obras que não encontro nenhuma, nem mesmo nas melhores bibliotecas?

Já não quero de deter em Anchieta, o iniciador, cujos autos tanto serviram ao trabalho de catequização. Seus expectadores não seriam só a indiada basbaque. Quebrando o tédio da “vida em exílio”, até Vasco Coutinho, homenageado no auto: “Na Vila da Vitória”, através de um dos personagens, o Governo, se dignaria a prestigiar os espetáculos com sua presença. Bem ao lado do Palácio do Governo (antigo Colégio dos Jesuítas), no pátio da Igreja de S. Tiago, onde foi encenada essa peça, se conservou por muitos anos o hábito de se fazerem representações teatrais nas festividades religiosas. Sobre os célebres tablados da praça teria sido interpretada, em tempos de antanho, a comédia, “Calastrazes”, gênero sacro, de autor anônimo.

Em 1816, nos festejos comemorativos pela coroação de D. João VI, que duraram nove dias, havendo cavalhadas, fogos de artifício, no anfiteatro em frente ao Palácio, houve representações das peças dramáticas de composição do Padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte e de Luiz da Silva Alves de Azambuja Suzano, com a exortação: “Portugal e Brasil”, sendo assistidas pelo Governador Rubim.

A 26 de julho de 1841, o Presidente, José Manoel de Lima participava ao Ministro e Secretário dos Negócios do Império, Cândido José de Araújo Viana, suas ordens a todas as Câmaras, Juízes de Direito Municipais e de Paz, da Província, para que “houvessem de solenizar com as maiores demonstrações de regosijo público o dia 23 de maio, por ser o designado para a coroação de S. M. I.” Após o Te-Deum que fizera realizar, na igreja do Palácio, dirigira-se o Presidente à porta principal da Igreja, fronteira à Praça, onde se achava formada a tropa, para dar os vivas a S.M.I, Princesas e Constituição e após o cortejo da tarde, ali se encontravam, à noite, o Presidente e mais de três mil pessoas, naquela praça em frente, lotando o teatro público “que só para esse fim se edificou”. A representação dramática, intitulada: “Pedro Grande” só não alcançou maior brilho por causa das chuvas mas, dois dias depois, era repetida com maiores vivas e aplausos. O Presidente completou o relato dos festejos acrescentando que “em todos os três dias houveram mascaras a pé e a cavalo, iluminações e outros divertimentos”.

O Presidente, procurava quebrar a monotonia da capital ronceira pois a 18 de agosto do mesmo ano de 41, “em que se devia realizar na Côrte o ato Sublime da Coroação e Sagração de S.M.I.”, promoveu festejos em Vitória, constantes de salvas na Fortaleza da Barra; missa solene na Capela Nacional; cortejo ao retrato do Monarca; cargas de estilo, feitas pelos Corpos de Caçadores da Montanha e pela Guarda Policial, além de iluminarem-se a capricho as casas. “No dia 20, a Sociedade Dramática levou à cena a peça intitulada: Maria Thereza, Imperatriz da Alemanha ou O Heroismo do Amor Filial, perfeitamente executada. Ao levantar o pano, apareceu colada num trono a efígie de S.M.I. e foram por mim repetidos os mesmos vivas do dia 18”. A festa continuou com máscaras de pé e a cavalo, danças, cantatas pelas ruas e vários divertimentos em casas particulares.

Data de 1860 a impressão da farça: “Dona Minhoca”, considerada a primeira composição teatral de um capixaba, o Pe. Antunes de Sequeira.

Relatando sua viagem à terra de Maria Ortiz, no mesmo ano de sessenta, o Barão de Tschudi fala sobre a récita em benefício que assistiu, convidado pelo Presidente da Província, o pernambucano Antônio Alves de Souza Carvalho. Não menciona os nomes do autor e da peça, mas a cena que descreve é eloqüente: A prima-dona do teatro de Vitória, “uma mulata muito baixa, gorda, com uma roupa muito cômica, postou-se no centro do palco, recitando o seu papel com voz monótona e nasal. Com a regularidade de um pêndulo, levantava ora a mão direita, ora a esquerda, de dedos abertos. Os seus esforços artísticos perante o numeroso público eram recompensados com vibrantes aplausos. Ela sentiu-se, provavelmente, entusiasmada, pois colocou o pé sempre mais à frente, acelerou os movimentos de pêndulo dos braços, tornou a voz mais alta e monótona e, no final do espetáculo, deve ter se sentido uma verdadeira virtuose e olharia com desprezo para a primeira-atriz do Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. Os demais atores, acharam-se dignos da prima-dona, cada qual esforçou-se para demonstrar as suas belas qualidades na mímica e declamação, fazendo crescer a nossa ânsia de vermos abreviada essa tortura espiritual e corporal, pois a pequena sala estava superlotada e o calor e cheiros abafavam”.

Tamanho desconforto não era de causar estranheza: a Província carecia de uma casa de espetáculos e, a rigor, o drama e a alta comédia só faziam jus numa encenação condigna quando se recebia a visita de uma companhia excursionante.

São escassas as notícias sobre as tentativas dos amadores, que por certo houve, não só na Capital como nas duas vilas mais populosas do norte e do sul. O citado Barão conta, no mesmo livro, que o alemão de nome Broom fora acusado de relaxamento no cargo que exercia, como administrador da colônia do Rio Novo, por dedicar todo o tempo de folga como participante em um teatro de amadores na Vila de Itapemirim.

O primeiro jornal de Cachoeiro: O Itabira, em seu 1º número, lançado com a data, no frontispício, de 4 de julho de 1866, apresentava os agradecimentos do médico Manoel Batista Fluminense que tendo sido nomeado para clinicar na Colônia do Rio Novo, via-se forçado a renunciar à presidência da Sociedade Promotora de Ensaios Dramáticos a qual, em “sua 5ª récita no dia 23 de junho p.p levara à cena o drama de grande aparato, em cinco atos: “A Cruz” e a comédia em um ato: “Os primeiros amores, sendo a orquestra regida por Antônio Quintão.”

A revista Vida Capichaba, de 15 de setembro de 1926, reportando-se a artigo publicado no jornal Província do Espírito Santo, sobre o teatro de têmpera antiga, recorda que de 1882 a 1887, na Vitória, eram afcionados da arte cênica Manoel Gomes das Neves Pereira, o qual sabia interpretar O Anjo Gabriel; José Rodrigues das Neves, apelidado: o Perna-Fina, proprietário do barco de pesca, “Deus é Grande” e o vigário Manoel Pinto Ribeiro. Além desses animadores, havia o teatro das bonecas do José Peru e o de descantes e danças do Manoel Cortado.

Segundo o historiador Afonso Cláudio, o criador do teatro espírito-santense foi Aristides Brasiliano de Barcelos Freire, o qual fez representar, na Província ou na Corte, de 1876 a 1904, o seu repertório de quatorze peças originais. Antes dele, comenta, “a arte cênica não ia além das representações familiares, única diversão agradável da classe culta”. Posteriormente, apareceram: Cândido Costa, Afonso Magalhães, Amâncio Pereira e Ubaldo Rodrigues.

De minhas recordações da infância, no Cachoeiro, quero lembrar o teatro “Ga-li-cô-cô”, nos anos que se seguiram à revolução de 1930, dirigido pelo Dr. Luiz Tinoco da Fonseca, sua esposa Dona Jacira e animado pela família do Dr. Codeceira. O humorista Leonardo Mota que em suas peregrinações pelo país, a pronunciar conferências, andou “encalhado” por algum tempo, no Cachoeiro, também deu a sua mãozinha ao teatro que tinha a participação entusiasta de toda a sociedade local. Em seu livro, “Cemitério Alegre”, publicou as duas quadrinhas.

“No dia em que lá no inferno

O Codeceira chegou,

Os diabos todos tiveram

Medo de Ga-li-cô-cô...”

 

“Quando há teatro na cova,

Tinoco todo se alegra,

Por ficar nos bastidores,

Servindo de contra-regra”.

 

Em algumas oportunidades que tive, procurei animar ao Dr. Mário Freire para ordenar e promover a edição das peças teatrais de Aristides Freire. A maior dificuldade é encontrar algumas das quatorze peças a que Afonso Cláudio faz referência; de minha parte, com vivo interesse de bibliófilo, confesso que nenhuma passou, ainda, sob os meus olhos...

Recordemos, por último, que somente em maio de 1896 era inaugurado, em Vitória, o “Teatro Melpomene”, belo e amplo edifício de madeira, com capacidade para 1.200 expectadores. Não seria o 1º da Província, pois em 1875 se inaugurava, na cidade de São Mateus, um teatro que, infelizmente, teve curta existência.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos. 1977
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2011

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