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O Titânio na Costa do Espírito Santo – Por Archimimo Mattos

Guarapari, onde a Mibra explorou e exportou areia monazítica

O esforçado Dr. Silvio Fróes de Abreu, que, no 8° Congresso de Geografia, reunido nesta Capital, tão robustas provas deu de sua inteligente aplicação aos estudos científicos, aplicados no interesse nacional, acaba de publicar mais um trabalho que, como diversos outros de sua produção, o torna justamente admirado por quantos se dedicam à observação dos grandes problemas de interesse vital do nosso país.

Vinculado por laços de solida e desinteressada amizade pessoal ao subscritor destas linhas, desde que, pela primeira vez, aqui se encontrou a serviço da repartição a que dá o brilho de sua cultura — Diretoria de Combustíveis e Minérios do Ministério da Agricultura — o auxilio que lhe pudemos então fornecer, daqui levou intessantes elementos colhidos in-loco para o estudo dos nossos chistos betuminosas das margens do rio Jucú, fazendo, então, importantes observações sobre essa possível, riqueza ainda inexplorada.

De passagem para o norte, por mais de uma vez em viagem de estudos, deu excelentes provas de sua aptidão, nos trabalhos feitos e publicados, já sobre as plantas taníferas da Bahia, já sobre o babaçu do Maranhão, além de outros, todos enfeixados em livros, que revelam o apaixonado pelas grandezas de nossa terra, sempre animado desse sadio espírito patriótico, veramente construtor, sem os exageros das patriotadas dos iconoclastas e demolidores inconsequentes.

Agora mesmo temos, sobre a nossa mesa de trabalho, o seu ultimo livro — O Titânio na costa do E. Santo —elaborado à guisa de relatório, por onde se verifica encontrarem-se aqui «depósitos de areias titaníferas, que constituem, mais propriamente, minérios de titânio que de tório, visto como predomina neles a ilmenita sobre a monazita».

Nessa monografia, passa o autor em revista a costa deste Estado sob o ponto de vista fisiográfico, estudando as terras argilosas como as praias, de Vitória ao Itabapoana, estas limitadas, de espaço a espaço, por pontas gnáissicas desde o Monte Moreno, a ponta da Barra do Jucú, a da Fruta, de Meaípe, Castelhanos, etc.

Lembra a hipótese formulada da natureza vulcânica do monte Mestre Álvaro, para concluir não encontrar-lhe fundamento, acrescentando ser o Espírito Santo quase todo, do Rio Doce para o sul, constituído geologicamente pelas «rochas cristalinas do maciço atlântico», sendo que seus morros rochosos identificam «a região arqueana do Espírito Santo às mais típicas das Serras do Mar».

Esta, em Vitória, «está bem representada pelas montanhas a Oeste da Baía, pelas ilhas gnáissicas e pelos morros na entrada do porto».

Da natureza do solo se ocupa, apresentando uma boa análise química, de onde se verifica a «pobreza de cálcio e a grande proporção de alumina combinada à sílica».

Ocupa-se o autor da vegetação, cujos principais represetantes  anota com criterioso cuidado, passando à se referir às vias de comunicação da zona observada. Entrando, então, no objetivo principal de sua bem cuidada monografia, afirma ser o titânio cerca de 2 vezes mais abundante na natureza que o carbono, pois que quase todas as rochas o contem.

«As matérias primas, que fornecem o titânio para o consumo na indústria, são: o rutilo, a ilmeníta e os minérios de ferro titanífero» e os depósitos de areias ilmenitas associadas à monazita, zirconita e granadas da costa do E. Santo e constituem atualmente a principal fonte de titânio do Brasil».

Pelas analises feitas chegou a concluir que a «ilmenita, separada das areias do litoral do E, Santo, têm um teor em oxido de titânio mais elevado que os da costa de Travancore na índia». Enquanto estas acusam uma proporção de 52 a 54% de oxido de titânio; as nossas o contêm na de 55 a 58%.

Referindo-se aos depósitos da lagoa Jacunem, S. Mateus, Guandu, Alfredo Chaves e interior de Benevente e Guarapari, acha-os mais de importância cientifica que comercial, enquanto os depósitos litorâneos de Benevente, Guarapari, Itapemirim etc. são de fácil exploração comercial, como, aliás, já foi feito com as areias monazíticas pelas diversas empresas, que as beneficiaram para exportação. Esta, que foi ativa, perdeu seu valor pela falta de emprego atual da monazita, subindo, porém, de valor a ilmenita, por muitos anos abandonada em proveito daquela.

Em Guaraparí são encontrados depósitos de areias monazíticas, naturalmente contendo ilmenita nas Praias do Diogo, da Restinga e nas de Meaípe e Maimbá; em Benevente, nas de Maimbá, Ponta dos Ouriços, Paratis e Caraís; em Itapemirim — nas praias das Pitas, Saco dos Cações, Quartéis, Tiriricas, Mangue, Cacurucagem e Boa Vista. Em Piúma, as areias encontradas são as mais ricas em ilmenita (areias pretas) e a contêm na proporção de 75% a 80%.

Embora o metal titânio não tenha ainda aplicações industriais, dos seus compostos, o óxido de titânio é atualmente usado como «tinta branca, e como constituinte de certos esmaltes em que se encontra a sua principal aplicação».

Vai o óxido de titânio vencendo os seus concorrentes nesses empregos industriais, já pela sua inércia química, donde a sua inalterabilidade, já pela sua perfeita miscibilidade com os líquidos geralmente usados nas tintas, e ainda por não ser absolutamente nocivo à saúde, como acontece às tintas de chumbo, zinco, etc.

O grande valor do óxido de titânio foi estudado por H. D. Bruce, enquanto Lehmann e Hunget o estudaram sob o ponto de vista higiênico e Noel Heaton estudou a sua não toxidez.

Ainda o titânio, pelo seu tetra-cloreto, é empregado para produzir nuvens artificiais, hoje de emprego corrente, principalmente na defesa das cidades aos ataques aéreos.

Posto que possuidores de tantas e tão importantes reservas de titânio, temos nos deixado vencer na concorrência por outros países, em piores condições do que nós para fazer dessa riqueza natural uma boa fonte de lucros. Pelo que se verifica do Boletim do Burean of Mines dos E.U. da America do Norte, o Brasil exportou 1488 toneladas em 1926; 1307 em 1927; 2000 em 1928 e 6361 em 1929. A cotação atual é, em media, de 3 libras por toneladas.

Eis, em síntese, o que nos revela o Dr. Silvio F. Abreu em seu recente trabalho, a que vimos nos referindo, mais para levar ao conhecimento dos interessados no assunto o que é e o que vale a exploração mineral no E. Santo, do que para prestar-lhe qualquer homenagem, visto que esta ficaria realmente aquém do merecimento de quem tão apaixonada, e criteriosamente, se dedica a tão importantes assuntos, sem outro intuito que o de prestar ao País os serviços, que ele espera dos seus bons filhos.

Do que aí fica, bem se pode ver que, desdobradas as nossas atividades para outros setores, bem poderíamos nos ir libertando da ditadura do general café, senhor quase absoluto dos nossos pensamentos.

É de confiar, porém, que, inspirado por uma sã política de defesa mútua, não queira o fisco manietar a iniciativa comercial de uma indústria, que vai ensaiando os seus primeiros passos.

Em geral os encargos fiscais são, as mais das vezes, responsáveis pelo fracasso das mais belas iniciativas, motivo por que tantas delas morrem no nascedouro.

O Dr. Silvio Abreu, nesse minucioso e inteligente estudo, que acabou de fazer a respeito das nossas reservas de titânio, nem só põe em relevo a sua grande capacidade de cientista e observador, mas a de homem de coração e de espírito, a serviço das boas causas.

Na impossibilidade de transcrever, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico deste Estado, todo o trabalho a que nos referimos, não nos furtamos ao dever, aliás gratíssimo, de aqui registrá-lo, chamando para ele a atenção dos estudiosos no assunto em vista.

 

Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo – Número 07 Março de 1934
Arquivo Público do Estado do Espírito Santo - Biblioteca Digital
Archimimo Mattos - Presidente Honorário do I. H. G. do Espírito Santo
Compilação: Walter de Aguiar Filho, maio/2020

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