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O último carro de boi da Vila do Calçado – Por Pedro Teixeira

Capa do Livro: O último carro de boi da Vila do Calçado

Zé Bicuíba, um pequeno sitiante da Serra do Jaspe, tinha toda a madeira de que precisava para construir seu Primeiro carro de boi. Há mais de 10 anos juntava debaixo do assoalho de seu rancho, os troncos de madeira, as ferragens e os outros acessórios necessários para a grande realização de sua vida. Aprendera muito com seu velho pai na arte de carrear, mas sempre em carros dos outros ou caindo aos pedaços. Mas dessa vez seria diferente.  

Descendente de tradicionais carreiros, vindos de Minas Gerais nos anos da colonização, sabia que tinha chegado a hora de construir o seu próprio carro. Queria, ele mesmo, ter o prazer de transportar a colheita do café daquele ano, que já estava espalhado no terreiro. Agora, era só contratar um mestre-carapina e realizar o velho sonho. E assim fez, sem perda de tempo e na maior expectativa.

Separara dois troncos de roxinho para os eixos. Um para o uso e outro para ficar de reserva, peças que eram muito trabalhosas e que mais se desgastavam no uso diário do carro. Com a sensibilidade de um afiador de violino, cortara esses troncos da ponta da tora derrubada. Conhecedor do assunto, não gostava do som grave produzido pelos eixos talhados com o pé da madeira. Os da ponta, estes sim, besuntados com querosene, produziam sons de clarins. E este era o som que sonhara para o seu primeiro carro de boi.

Outros dois troncos dessa mesma tora, separou para as chedas laterais do carro e para o cabeçalho, peças do assoalho, que queria bem resistentes. Para o arcavém, aquele pranchão traseiro, separara um tronco de ipê. De dois troncos de cabiúna sairiam as duas rodas. Bons tempos - lembrou ele - em que se encontravam árvores tão grossas que quase davam para lavrar uma roda inteira. Aí ele exagerou um pouco no sonho e na nostalgia.

Por fim, das lascas de bico-de-pato, lei nova e jatobá, seriam construídas as cangas para as cinco parelhas de bois que já estavam no pasto. Um compadre seu, velho carreiro aposentado, já os vinha treinando enquanto seu carro não ficava pronto. Com a paciência de profissional que sabe lidar com animais, treinara parelha por parelha em pequenos trabalhos domésticos. A do coice ou do cabeçalho, a do contra-coice, a do meio, a da contra-guia e a da guia. Dava até para vê-los enfileirados e obedientes às suas ordens, levando seu carro de boi pela estrada afora.

Com a chegada do mestre-carapina, seu sonho foi tomando corpo a cada peça terminada. Não ia dormir sem antes dar uma passadinha no paiol do terreiro, onde as guardava com todo cuidado. Sonhava todas as noites com o dia da estréia, em que desfilaria pelas ruas da Vila do Calçado. Ele e o filho caçula, xodó maior de sua vida, que já preparara a vara de guiada para assumir o posto de candieiro o guia que vai na frente do carro.

O couro curtido e cortado com precisão, já estava trançado e espichado entre as travas do paiol. A esteira de taquara, trançada em duas cores, descansava na parede, pronta para abraçar os fueiros das duas chedas. Tinham sido cortadas no mato e trançadas por um balaieiro do Jacá, que conhecia a lua certa de cortar a madeira e o ponto exato de se trançar a taquara. O café, toda a sua riqueza e o sustento da família, já estaria seco e ensacado no paiol, pronto para começar a ser levado para o armazém da vila.

E naquela sexta-feira o carro ficou pronto. Como ele sonhara: o mais bonito e mais forte de todos que conhecera. Tinha de mostrá-lo ao pessoal da vila, para que também o admirasse. E assim fez. No sábado de madrugada, com a ajuda do amigo carreiro, trouxe os bois do pasto e atrelou-os nas cangas. Depois carregou o carro com as sacas de café que pretendia vender e pagar o trabalho do mestre-carapina, o autor da obra de arte.

Pai e filho vestiram a melhor roupa, a das missas de domingo na capela do Padre Inácio. Despediu-se da mulher e dos filhos maiores que já se preparavam para sair para o campo. Depois besuntou com querosene os eixos do carro de boi. Queria acordar a vila com seu som estridente e que todos vissem a sua chegada. Aquela não seria apenas uma viagem de trabalho, mas um desfile de levar multidões às janelas e de parar todo o comércio. Quase uma alvorada do Maestro Elpídio de Sá Vianna, nas festas de São José.

 

Quando Zé Bicuíba pôs o carro na estrada, o sol ainda se espreguiçava por detrás dos Pontões. Seu coração quase arrebentou de alegria ao ouvir os primeiros acordes da gemedeira do eixo de roxinho, sob o peso das sacas de café. Levantando poeira na estradinha de chão, ia acordando os galos preguiçosos, os cachorros vigilantes e a passarinhada das capoeiras. Todo o vale, entre as serras do Jaspe e dos Pirineus, acordou com seu lamento cadenciado e os aboios do carreiro, que não cabia em si de tanta alegria.

Durante todo o percurso a caminho da vila, nada ficava indiferente à passagem daquele carro de boi, brilhando de novo e barulhento. Na frente, como baliza de desfile escolar, ia seu filho, orgulhoso e competente aprendiz de candieiro, estreando sua vara de guiada. Pai e filho unidos na mesma emoção.

De longe se ouvia o gemido do eixo e a solenidade da voz daquele matuto de alma lavada e o coração em chamas. E os sons se misturavam numa sinfonia que só a natureza sabe reger. Eia boi pintado, ôôôôa! ... Aquieta Mimoso, ôôôôa! ... Afasta maiaaaaado! Eiiiiiiia!

Era Zé Bicuíba estrada afora, no ziguezague da vida e na alegria que Deus lhe dera. Na entrada da vila, onde começava o calçamento de paralelepípedos, teve a primeira decepção: dois fiscais da prefeitura vieram avisar que ele não podia entrar na cidade com o carro de boi, por aquela rua. Teria de usar uma estrada de chão, que servia de atalho, para chegar ao outro extremo da vila, onde ficavam os armazéns.

Pelo "perímetro urbano", disseram eles com autoridade, estava proibido o trânsito daquele tipo de transporte. Assim rezava a lei aprovada pela câmara dos vereadores e sancionada pelo "doutor prefeito", tratou de dizer um dos fiscais com arrogância. Os paralelepípedos eram para carros com rodas de pneus, e o barulho dos carros de bois perturbava a população e a ordem pública, acrescentou o outro fiscal com mais imponência ainda.

A ordem era para valer e os dois funcionários já se posicionavam na frente dos bois de guia. Zé Bicuíba ficou desesperado. O que dizer para o filho assustado em seu primeiro dia de candieiro? Trazer aquela carga de café foi apenas um pretexto para desfilar com o carro pelo centro da vila. Poderia até cumprir a lei, usando o atalho para chegar à rua dos armazéns, mas não seria a mesma coisa.

Tinha de haver um jeito, pelo menos naquele dia, para a alegria do menino, apelou Zé Bicuíba, tentando sensibilizar os fiscais. A discussão foi aumentando, o sangue subindo à cabeça e o povão se acercando do carro. Um mensageiro foi incumbido de avisar ao prefeito dos acontecimentos na entrada da vila. Um outro cuidou de avisar aos policiais de plantão. Mas a confusão já estava armada e a discussão dividia o povo que cada vez mais se aglomerava em volta do carro. Zé Bicuíba não aceitava aquela intransigência.

Seus bisavós tinham vindo de Minas Gerais num carro igualzinho àquele e ninguém os impedira. Pelo contrário, foram muito bem recebidos, quando aquelas terras eram cobertas de matas virgens e a vila ainda nem existia. A mesma que agora fazia leis que o impediam de transitar por ela. Seus pais e avós carrearam a vida inteira, trazendo o progresso e fazendo com que ela crescesse. Para baixo e para cima, tirando o café das lavouras, secando nos terreirões e levando para as máquinas de pilar.

Depois continuaram, com a chegada do progresso, levando a produção para os armazéns que aos poucos foram surgindo ao redor das estações da estrada de ferro instaladas na região. E agora que tinha chegado a sua vez, ninguém iria impedi-lo de entrar na vila, nem que fosse pela última vez. Zé Bicuíba estava cheio de mágoa e determinação. Não queria confusão, não era homem disso, era apenas um pobre homem do campo com seu orgulho ferido.

Veio a polícia, bloqueou o caminho e deu o último aviso: se o carro avançasse mais um palmo teriam de apelar para a violência. O prefeito não foi encontrado e os vereadores, responsáveis pela aprovação da lei, tomaram chá de sumiço. Homem de decisão e de não levar desaforos para casa, Zé Bicuíba resolveu seguir adiante. Nem que fosse, pensou de novo, pela primeira e última vez.

Não fosse pelo desaforo seria, pelo menos, pelo olhar amedrontado e decepcionado do filho. E em sua cabeça já estava tudo resolvido, só faltava agir.

De cócoras, para ficar mais perto do filho, pediu que ele voltasse e avisasse à mãe, aos irmãos e a um vizinho, seu compadre, dos problemas que estavam acontecendo. No fundo queria era ficar só, para agir com mais independência. Mas o filho insistiu em ficar também.

- Pai, deixa eu ficar com você. Com o senhor no cabeçalho, quem vai candiar o Mimoso e o Maiado lá nas ruas da vila?

- Deixa que eu assumo o posto. Sozinho faço as duas coisas. Outra vez a gente faz essa viagem juntos. Confie no seu pai.

O menino ainda insistiu, mas o pai, com um esforço que lhe cortava o coração, foi enérgico e o menino partiu fazendo o caminho de volta. De longe deu um último olhar, acenou e seguiu caminho. Mas em seu rosto, as lágrimas rolavam se misturando à poeira da estrada e à sensação de um sonho desfeito. Seu coração infantil, mesmo enrijecido na dura lida do campo, não conteve a decepção.

Depois, ignorando os fiscais, a polícia e o pessoal que se juntara, Zé Bicuíba subiu no cabeçalho do carro e deu voz de partida para os bois. Nervosos, por causa da multidão, os dois bois-de-guia quase arrebentaram as brochas dos canzis, abrindo caminho no meio do povo. Oôôôôâaaa! Aboiou o Zé, garrochando os bois do cabeçalho, sem feri-los, mas com decisão. Essa era a sua terra e esse o seu oficio - pensou com raiva - o progresso que esperasse um pouquinho mais, só o bastante para completar aquela viagem.

Era uma questão de honra. A honra de um caipira humilhado e impedido de defender seu ganha-pão, da forma que sabia e com os recursos que levara tanto tempo para juntar. Tinha de realizar aqueles minutos de glória, de um sonho que levara tanto tempo para concretizar. O calçamento de pedra haveria de compreender a necessidade de sua atitude. Não tinha nada contra o progresso, mas o seu sonho também tinha de ser respeitado.

A polícia ficou para trás, impedida pelo povo, que só abriu caminho para Zé Bicuíba e seu carro de boi. Lá foi ele, seguido pela multidão e aplaudido pelo povaréu debruçado nas janelas. Entrou pela rua principal e partiu para o centro da vila. Depois de subir a ladeira, entrou na praça da matriz e desfilou em frente à porta aberta da igreja. Ali se benzeu e fez uma reverência respeitosa ao santo padroeiro. Contornou a praça no mesmo ritmo, desceu de novo a ladeira e fez o caminho de volta, esquecido que já estava, da carga que carregava. Na entrada da vila, a polícia o aguardava, agora com mais reforços e armada até os dentes.

Já tinha feito o que queria e seu carro de boi recebera os aplausos do povo da vila. Uma coisa à toa, mas que enchera seu coração de alegria. Não via a hora de deixar para trás o chão de pedras, com seu progresso e suas leis, de volta à liberdade e ao aconchego de seu rancho. O povo já o esperava com novos aplausos e, agora, até com foguetórios.

Mas a polícia, ainda sem ordens de deixá-lo passar, deu voz de prisão e mandou que ele descesse de cima do cabeçalho. Zé Bicuíba, que já esperava a resistência, apressou ainda mais os bois. A multidão se espalhou ao ouvir o primeiro tiro. Depois outro e mais outro, enquanto o carro rompia o bloqueio, a caminho da estradinha de chão que o levaria para casa.

Se esvaindo em sangue, recostou-se sentado na esteira de taquara, fora do alcance das balas da polícia. Esta insistia em detê-lo, seguindo o carro a uma boa distância, temerosa de uma reação. Depois, Zé deixou que os bois da guia os conduzissem de volta.

De vez em quando um aboio, para que soubessem que ainda estava no comando, mas cada vez mais fraco e a voz distorcida. Vendo que a polícia ainda seguia o carro e sentindo que ia desmaiar, amarrou-se nas cordas da esteira do cabeçalho e entregou seu destino a Deus e à destreza dos animais. A polícia, mantendo a mesma distância, continuava a persegui-lo.

Logo surgiu na estrada um grupo de pessoas, se-guido de sua mulher e filhos. O caçula ainda trazia a pequena vara de guiada nos ombros. O comandante do destacamento deu ordem para que os soldados parassem e ficassem apenas assistindo à chegada do pessoal. Não esboçaram a menor resistência quando eles desamarram Zé Bicuíba do cabeçalho e o deitaram em cima das sacas de café, meio desacordado, mas com um estranho sorriso de vitória nos lábios.

O compadre confortou a viúva abraçada ao corpo do marido e tomou seu posto no cabeçalho do carro, de volta para o rancho. O filho caçula seguiu chorando na frente, candiando os bois como seu pai lhe ensinara. Os policiais ficaram para trás, parados, sem saber o que fazer. Zé Bicuíba delirando, num misto de dor e alegria, como se flutuasse nas nuvens, sonhava com uma multidão de carreiros e carros de boi cruzando as estradas de um tempo distante.

E o carro se perdeu na poeira, ao som do gemido solitário do eixo de roxinho. Já não era mais o som de um clarim, mas um lamento de tristeza se espalhando pelo vale. Depois veio o silêncio e o cortejo sumiu na curva da estrada. Atrás ficaram os dois sulcos das rodas e as manchas de seu sangue, como testemunhas silenciosas do último carro de boi que cruzou as ruas da Vila do Calçado.

 

Fonte: O último carro de boi da Vila do Calçado – e outros contos e lendas do Folclore do Vale do Itabapoana e do Muriaé, 1998
Autor: Pedro Teixeira
Compilação: Walter de Aguiar Filho, abril/2016

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