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Obelisco da Praça dos Namorados

Vasco Fernandes Coutinho Foto Walter de Aguiar Filho

“Exmo sr. Governador do Estado. Exmo sr. Bispo Diocesano. Exmo sr. Prefeito da Capital. Exmas Autoridades federais e estaduais. Exmo srs. Consules. Minhas senhoras, meus senhores.

Por onde quer que nos tenha levado a curiosidade do nosso espírito através das terras que temos visitado, nas diversas viagens que fizemos através com continente Europeu, nós, que conservamos com acendrado carinho o culto pelos feitos grandiosos dos nossos antepassados, verificamos sempre e em toda parte a gratidão dos nossos povos para com aqueles que souberam servi-los, nas grandes, como nas pequenas cidades que atravessamos nessas perigrinações de curiosidade, vimos Monumentos grandiosos pelo esolendor arquitetônico de suas fachadas e pelo arrojo das concepções artísticas dos seus criadores; vimos também Monumentos modestos que, na singeleza de suas pedras cinzeladas, ou no brilho dos seus mármores simples, atestavam o respeito e a gratidão dos decendentes desses benfeitores, relembrando a todos os instantes o Herói ou o Sábio, o Artista ou o Filósofo, o Navegador ou o Guerreiro, que, cada um em sua esfera de ação procurou engrandecer, honrar, ilustrar, dignificar a sua Pátria, tendo sempre para ela voltados os seus pensamentos e os seus trabalhos. Por toda a parte esses Monumentos atestam aos filhos da terra, como aos viandantes, o preito de gratidão dos seus povos, pelo muito que eles fizeram por aqueles que alí os homenageam. E, não só aos filhos da terra a que pertencem levantaram os povos os Monumentos com que sintetizam a sua gratidão – eles a rendem também aos benfeitores da Humanidade, onde quer que eles hajam nascido, e que por seus trabalhos beneméritos merecem o respeito e a gratidão de toda humanidade.

Foi por uma dessas viagens que fizemos através dessas terras, que nasceu em nossa mente a idéia de dotar esta linda Capital com um monumento que suntetizasse uma das datas que mais caras fossem aos corações dos seus habitantes, e fosse , ao mesmo tempo, um preito devido de homenagem a alguém que muito houvesse feito por este Estado. Veio-nos à lembrança a proximidade da data histórica do grandioso feito hoje, Povo e Governo, comungando num mesmo entusiasmo de amor cívico festejam com as maiores demonstrações de alegria a que já temos assistido nesta cidade. Em nosso Espírito se fixou o desejo de prestar esta homenagem ao grande Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário destas terras, levantando numa das praças desta cidade, um monumento que simbolizasse a data de sua chegada às terras deste Estado. Data que marcou o início da nossa civilização: o despertar destas terras uberrimas para a vida coordenada dos povos civilizados; um momento que, no palpitar de sua expressão simbólica, nas linhas rígidas dos seus graníticos blocos ou na mudez expressiva dos seus brinzes trabalhados, lembrando gloriosos e passados feitos, atestasse aos nossos descendentes que a passagem do quarto centenário da chegada de Vasco Fernandes Coutinho a estas plagas não passara desapercebida.

É para nós, filhos dessa mesma Pátria a que pertenciam aqueles que pela primeira vez passearam as lindas praias e terras deste grande país, e que já irmãos e filhos aqui nascidos contamos entre os membros de nossas famíliasa, uma satisfação muito grande, imensa, podermos, oferecer ao honrado e laborioso povo deste Estado este pequeno monumento, cuja pedra fundamental aqui estamos assentando.

Irmanados como estamos com a sua população, pelo mesmos desejos de ver grande e próspero esta Unidade da Federação Brasileira, em que nos temos empenhado, carreando a pedra do nosso esforço para a continuação da construção moral e material desta bela terra, sentimo-nos realmente jubilosos em poder oferecer ao povo deste Estado esta prova material desse esforço, perpetuando num símbolo, modesto pelo seu valor material, mas alevantado e grande pelo seu significado moral, essa data imperecível que é Vinte e três de Maio de mil quinhentos e trinta e cinco, que nos relembrará sempre essa figura destacada, que em nossa história foi Vasco Fernandes Coutinho.

Não vos pareça, pois, estranha a lembrança tida pela família a que pertenço, de vir oferecer ao Estado do Espírito Santo um monumento que traduzirá na sua singeleza a homenagem, palida embora, com que ela quiz, por um movimento de Amor Cívico a este Estado, perpetuar a mais solene data do seu calendário histórico, qual o do seu ingresso na civilização dos povos, nesse já bem afastado ano de 1935.

Senhores:

Não foi Vasco Fernandes Coutinho uma figura vulgar entre os seus conterrâneos. Fidalgo ne nascimento, seguiu a carreira militar. Guerreiou em África e na Índia, nessa Índia que ainda hoje exerce sobre a mente dos povos uma atração irresistível pelos mistérios de que se rodeia; nessa terra miraculosa das especiarias, terra dos sonhos das mil e uma noites; nessa terra opulenta e maravilhosa sobre o gênio desse novo Alexandre, que se chamou Affonso Albuquerque, manejando a mais ilustre das espadas que já brilharam ao sol esplendoroso das terras orientais, fundou o grande império Português das Índias. Vasco Fernandes Coutinho guerreou ali; comandou ali a fortaleza de Ormuz. Fez brilhar a sua espada ao lado da espada fulgurante de Affonso de Albuquerque. Da Índia regressou a Portugal com serviços prestados à sua Patria e o seu Rei, que por este foi galardoado com uma tença de 30 mil reales. Não era, pois, Vasco Coutinho um quelquer fidalgo obscuro e aventureiro. Proprietário de terras em Alemquer, e senhor da tença real que lhe fora doada, não tinha necessidade de sair de seu País. Dotado, porém, de espírito irriquieto e audaz, tendo dentro de si uma forte dose desse desejo de aventuras que dominava os homens de então, influenciado, sem dúvida, pelas facilidades que lhe oferecera a índia e desconhecendo por completo a enorme diferença que havia entre aquelas terras e as do Brasil, estas vivendo ainda s sua idade da perdra, emergindo já de uma civilização milenária, resolveu-se a vender a sua tença ao Rei, dele obtendo a doação de um trato de terras no Brasil e a cessão de uma caravela comum em que se pudesse transportar a si a aos seus. Sabe-se que o nome desse navio era Glória. Nela embracou com sessenta denodados companheiros, e aos 28 de maio do ano de 1935 (no livro que estou digitando, alguém fez uma correção a caneta no dia 28 para o dia 20) aportava às terras de sua Capitania, fundeando perto do Monte Moreno, ali fundando a primeira povoação, ou, pelo menos, dali arradiando-se para tomar conta das terras que lhe haviam sido doadas. Com Vasco Fernades Coutinho diversos fidalgos vieram. De dois pelo menos nos fala a história. Um, de ilustre linhagem, era Jorge de Menezes, bastardo de D. Rodrigo de Menezes. Vinha da Índia, onde também se distinguira pela sua valentia e bravura. Ali cometeu um crime, matando o capitão Gaspar Ferreira. Por esse e por outros desmandos do seu gênio violento, foi enviado preso para Lisboa, desterrado pelo Rei para terras do Brasil. Outro, chamado Castello Branco, de linhagem mais obscura, sobre ele pouco se conhece, havendo até quem ponha em dúvida a sua ascendência fidalga.

Histotiar-vos, neste momento, o que foi a vida de Vasco Fernandes Coutinho nessas terras, os dissabores que aqui passou, a disilusão que teve em relação aos sonhos que fantasiara, quando nas suas terras de Alemquer, seria por demais enfadonho para vós e eu não quero abusar de vossa benevolência. Desejo, entretanto, salientar ainda que de volta de sua viagem a Lisboa, onde fora na esperança de levantar mais capital, com os quais pudesse dar maior desenvolvimento à cultura de suas terras, encontrou seus companheiros dizimados pelos ataques dos próprios tupiniquins e goytacazes, e mortos já os seus dois companheiros de lides, Jorge de Menezes e Castello Branco. Em tais circunstâncias, dirigiu-se ao Governador da Bahia, o ilustre D. Mem de Sá, pedindo-lhe auxílio para que pudesse dar combate aos indígenas e assenhorear-se novamente em suas terras. Este enviou-lhe os reforços pedidos comandados pelo seu próprio filho, Fernando de Sá, que teve a desdita de perecer numa das pelejas.

Apesar da vitória que teve sobre os índios, não conseguiu fazer prosperar as suas terras, vendo-se obrigado a recolher-se à ilha de Santo Antônio, que ele havia doado a Duarte Lemos, em pagamento de vários serviços que ele o prestara. Pode-se dizer que conservou a soberania platônica sobre seus domínios. Dizem os historiadores que morreu em extrema pobreza, não deixando dinheiro sequer para comprar uma mortalha! Coisas do destino que traça Deus a cada um de nós e ao qual não podemos fugir!

Eis em largos traços alguns dos pontos mais notáveis da vida desse homem a quem hoje prestamos o preito cívico de nossas homenagens. Quatrocentos anos são passados sobre o dia em que ele aqui aportou, e o Espírito Santo, essa terra que ele tanto quis e pela qual tanto se sacrificou, aí está patenteando aos olhos deslumbrados de todos que a visitam a veracidade de suas terras, a bondade de seus filhos e a grandeza do futuro que o espera.

Senhor Governador do Estado:

As famílias Oliveira Santos aqui representadas pelo seu chefe, nosso venerando Pai, a cujo esforço e bondade devemos o pouco que somos, pelo muito de sã moral e de amor os trabalho com que nos educou o espírito, e pela nossa amada Mãe, aqui também presente a quem devemos todo um mundo de amor e carinho, pedem vos cimenteis a primeira pedra deste Monumento que, em acasião oportuna, vos será devidamente entregue ao digno Povo deste formoso Estado, por cuja prosperidade fazemos os mais sinceros votos.

Termino agradecendo a V. Exa. por haver aceitado esta pequena oferta que fazemos e o haver indicado este local para nele ser colocado.

A todos os que nos deram a honra de vir assistirn a este ato a nossa melhor gratidão.”

 

Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, nº 10 dezembro de 1935
Pesquisa e Fotos: Walter de Aguiar Filho,maio/2011



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