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Os Botocudos

Índio Botocudo

“Nos limites de suas possibilidades foram inimigos duros e terríveis que lutaram ardorosamente pelas terras, pela segurança e pela liberdade, que lhes eram e continuam sendo arrebatadas conjuntamente. Contudo, o desfecho do processo lhes foi adverso (...). Se houve, porém, heroísmo e coragem entre os brancos, a coisa não foi diferente para o lado dos aborígines.

Apenas o seu heroísmo e a sua coragem não movimentaram a história, perdendo-se, irremediavelmente com a destruição do mundo em que viviam.” (Florestan Fernandes).

Toda a região ocupada hoje pelo município de Linhares e áreas vizinhas era habitada por um grupo indígena, da grande nação Gê, de nome botocudo. Os pesquisadores e estudiosos são unânimes em registrar que este grupo destacou-se dos demais índios – que viviam desde a Bahia até o Rio Grande do Sul – pela resistência tenaz e contínua com que se opôs à ação dos colonizadores brancos, até meados do século XIX.

“Traziam em polvorosa, e durante muitos anos causaram horror, aos brancos e mestiços das aldeias litorâneas do Espírito Santo”, não lhes permitindo facilidades em sua expansão pelo interior. Por que o fizeram, nunca lhes foi perguntado e qualquer resposta não passaria de conjecturas; e, se estas são possíveis, expressamos a nossa no início deste tópico através das palavras de Florestan Fernandes.

Os botocudos foram assim apelidados pelos brancos, em virtude do costume generalizado do uso de botoques – discos brancos feitos, em geral, de madeira leve como a barriguda – nas orelhas e nos lábios dos membros do grupo. Os discos de madeira, secados ao fogo e de tamanho variado, eram colocados por volta dos 7 anos. No princípio evidentemente pequenos, iam aumentando até atingirem o tamanho desejado pelo indivíduo.

a)  Aspecto físico – a aparência final do rosto, tanto dos homens ou mulheres que usavam o botoque, devia ser bastante estranha aos não relacionados a este costume. As orelhas, principalmente, “semelhavam-se a grande asas sobre os ombros e os lábios ficavam muito projetados para a frente”.

Possuíam estatura mediana, eram robustos, musculosos, de cor geralmente parda e cabelos negros. Os supercílios e a barba eram raspados e os cabelos cortados de modo a formar uma espécie de calota no alto da cabeça. O nariz era curto, achatado, com narinas mais ou menos dilatadas, e os olhos eram pequenos.

Andavam comumente nus e alguns homens usavam estojo peniano de folhas trançadas de “issara”. Gostavam de pintar o corpo, tanto homens como mulheres, usando para isto o urucu e o jenipapo. Enfeitavam-se também com colares de sementes e dentes de animais, principalmente de macacos.

b)   Economia – desde os primeiros estudos sobre os botocudos até o início do século XX, sua atividade econômica de base nunca mudou: caça com arcos e flechas pelos homens, ficando a pesca e a catança de frutos a cargo de mulheres e crianças. Eram pois essencialmente colhedores, “apreciando o mamão verde, raízes e carne de macaco”.

c)   Outros aspectos culturais – praticavam a poligamia, o casamento era facilmente dissolvido e o adultério feminino muito castigado.

As choças, rústicas, eram construídas pelas mulheres usando folhas de palmeiras encostadas aos pares, e os poucos utensílios domésticos ficavam no chão, onde também dormiam.

As mulheres eram submissas ao pai, depois ao marido e, junto com as crianças, praticavam todas as demais atividades, fora caça e guerra, como acontecia, aliás com todos os demais indígenas do Brasil.

Os botocudos tomavam banhos freqüentes, que eram verdadeiro divertimento para eles. Curavam suas doenças com plantas medicinais e gostavam de cantar e tocar flauta de canudo de taquara.

Quanto à religião, parece não terem tido nenhuma que se pudesse registrar como tal ou que chegasse ao conhecimento dos pesquisadores.

As qualidades guerreiras e de caçador do indivíduo eram elementos básicos na escolha do chefe, chamado pelos portugueses de “capitão”.

d)   Pacificação a aculturação – como dissemos, o botocudo resistiu à ação colonizadora até meados do século XIX; isto na região de Minas Gerais. Os da região do litoral capixaba, entre o rio Doce e o rio São Mateus, um pouco mais. O encontro das “duas humanidades” foi adverso ao aborígine em todo o território brasileiro, não podendo ser diferente em relação ao botocudo.

Índio e branco, de modo geral, nunca se compreenderam, sucumbindo o primeiro, por suas condições de defesa infinitamente inferiores, ao segundo.

Diante da ação expansionista do colonizador, na região do rio Doce, os antigos donos da terra tiveram apenas dois caminhos: ou submeter-se ou fugir. O primeiro foi feito a duras penas, tanto de um lado como de outro, e o segundo chegou a um ponto em que a expansão do branco não tornou mais possível. Não podendo ou não tendo mais para onde fugir, se miscigenaram ou aculturaram. Aculturando-se, ou perderam-s e no tempo e na história ou ficaram marginalizados. Não queremos aqui distribuir culpas – longe disto nosso propósito. Acreditamos, simplesmente, que no encontro de duas culturas tão diversas, fatalmente uma delas terá que desaparecer, não só pelos fatores intrinsecamente humanos, mas, como dissemos, pelas condições inferiores de defesa.

 

Fonte: Panorama Histórico de Linhares, 1982
Autora: Maria Lúcia Grossi Zunti
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2012 

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