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Os desenhos do Príncipe de Wied

Maximiliano, Príncipe de Wied

Só agora me chegou às mãos o livro de excertos e ilustrações relativo à Viagem ao Brasil, empreendida por Maximiliano, Príncipe de Wied, nos anos de 1815-1817, em companhia do botânico Sellow e do ornitologista Freyreiss.

Trata-se de uma edição da Melhoramentos, lançada em 1969. Se me tivesse caído aos olhos em tempo, teria sido muito útil para um cotejo dos desenhos autênticos do Príncipe de Wied com as gravuras que publiquei, no meu livro: “Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo”, em 71. Três desenhos, pelo menos, seriam muito elucidativos: a “canoa dos excursionistas, no canal do Rio Doce”; os “dois soldados da vila de Linhares” e a “colheita de ovos de tartaruga” assistida pelo príncipe na praia de São Mateus.

É digno de nota o fascínio exercido pela viagem de Neuwied aos bibliófilos e estudiosos de história, iconografia e antropologia.

Há mais ou menos uns trinta anos, lembro-me ter visto em exposição no hall do Instituto Histórico da Bahia, uma tradução, em inglês, desse relato que constitui uma preciosidade da brasiliana. Guardei na memória a lembrança de duas gravuras do velho livro: um botocudo com seu prisioneiro vadeando um riacho e o esboço em poucos traços, da igreja de Guarapari. No transcurso desses anos passados, andei em busca de edições várias: manuseei, baldadamente, edições em alemão, inglês, francês e italiano e nem as duas edições em português que a Companhia Editora Nacional lançou, a partir de 1940, estamparam o pequeno esboço procurado.

Em outubro de 1958, quando se organizou, na Biblioteca Nacional, sob os auspícios da Associação Espírito-Santense, a 1ª Exposição do Livro Capixaba, procuramos dar especial destaque a umas gravuras coloridas do álbum de viagem do Príncipe de Wied e sentimos o quanto elas valorizaram a apresentação dos stands.

Os livros de Neuwied, quando expostos à venda nos alfarrabistas, atingem a preços bem elevados. Uma certa edição alemã que encontrei na Livraria Kosmos, tinha a gravura estilizada, que reproduz a desova da tartaruga gigante na praia, cena presenciada pelo Príncipe de Wied, em 31 de dezembro de 1815. Pensei em reproduzir, no meu livro, mas o preço da obra era de novecentos cruzeiros!

Não escapou à argúcia do geólogo Hartt a disparidade, em tamanhos, dos ovos de tartaruga, na gravura que o artista J. Lips, de Zurich, copiou. Todavia, o esboço autêntico traçado pelo lápis do Príncipe-viajante é correto e o redime do engano inadmissível.

Quanto à ilustração dos dois soldados da vila de Linhares, municiados e vestidos com o gibão d’armas para enfrentar a luta contra os índios, nós ainda teríamos optado pelo esboço ligeiro de Neuwied, ao invés de reproduzirmos a gravura de outro artista de Zurich: M. Esslinger. E, não perderíamos a oportunidade de estampar a gravura que Wied esboçou, em preto e branco, da “sesta na praia, entre São Mateus e o Rio Doce, a 1º de janeiro de 1816”.

Quanto à estampa da viagem pelo Rio Doce, na manhã de 26 de dezembro de 1815, numa canoa comprida, levando seis soldados pedestres e os três cientistas promotores da excursão, o esboço que agora se divulga, do Príncipe, é valorizado pelo colorido em aquarela. Ele não sofre distorções com uma flora imaginária e mais exuberante que a criatividade do gravador Veith, de Dresden, procurou fixar.

São de grandes méritos os comentários de Josef Roder e Herbert Baldus feitos na edição Melhoramentos.

O prof. Roder conta que o material ilustrativo foi colhido no espólio manuscrito do Príncipe Maximiliano de Wied em três cadernos de bolso que serviam para anotações sob a forma de apontamentos. Nesses cadernos, o viajante fazia pequenos esboços para serem mais tarde redesenhados. Ao se surpreender com as deficiências técnicas e o vigor artístico dos desenhos, o Prof. Josef Roeder comenta: “O estilo literário do Príncipe, muitas vezes pronunciadamente pitoresco, só se tornou compreensível graças a estes desenhos. Somente agora, também, torna-se conhecida a maneira de trabalhar do príncipe no Brasil.” E, observa, noutro trecho do estudo analítico, que Wied, conhecido com zoólogo e etnólogo, passa a ser revelado através desses desenhos autênticos, como “etnógrafo e folclorista bem melhor que em seus escritos...”

Noutras considerações da parte final do livro, o prof. Roder faz um estudo sobre a contribuição do Príncipe ao folclore brasileiro; focaliza a originalidade da forma rústica de expressão do artista, ressaltando que em muita coisa ele se antecipou a Rugendas e Debret.

O Prof. Herbert Baldus, apreciando o etnógrafo, analisa os esboços originais dos desenhos dos índios e ressalta a fidelidade de Wied e a deturpação dos artistas gravadores que alteraram as características dos nossos silvícolas, aformoseando-os em tipos apolíneos, conforme a tendência da época, como se eles vivessem num paraíso.

 

Fonte: De Vasco Coutinho aos Contemporâneos. 1977
Autor: Levy Rocha
Compilação: Walter de Aguiar Filho, novembro/2011



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