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Os filhos do ócio

Lordose Pra Leão - Fonte: Folha Vitória

Era o período entre o finalzinho dos anos 80 e o início dos anos 90. Ao lado do Restaurante Universitário, na Ufes, o pessoal se reunia num lugar chamado Pedra do Ócio.

Quem deu esse prosaico nome àquele agradável pedacinho do campus de Goiabeiras não se sabe. O certo é que sempre depois do almoço e do jantar, uma turma ia se espreguiçar no conjunto de pedras protegidas pelas árvores e ali se conversava de tudo, reclamava-se de uns professores, elogiava-se outros, namorava-se. Enfim, era uma pausa para voltar às aulas ou, no caso de ser à noite, um tempo antes de seguir o rumo de casa – ou dos bares das redondezas.

E foi na Pedra do Ócio que surgiu, nesta época, uma movimentação musical que sacudiu a cena universitária e acabou – felizmente – atravessando os muros da universidade.

Um dos frutos dessa movimentação foi a irreverente banda Lordose pra Leão. Um grupo de estudantes do curso de Comunicação Social, que era habitué das pedrinhas ao lado do RU (Restaurante Universitário), foi fazendo uma letrinha aqui, tirando um sonzinho ali, ater que surgiu a banda.

Tudo foi acontecendo muito naturalmente. Alex Pandini chegava com umas letras rabiscadas num papel qualquer e as mostrava para a galera. Adolfo Oleari era seu companheiro nas composições.

Eram sempre letras muito engraçadas, às vezes sacanas, coisas do tipo o hit “Jullyetsch”, música feita em “homenagem” a um professor do Departamento de Comunicação.

Alex e Adolfo tinham um programa na Rádio Guarapari FM e ficavam declamando as músicas, atribuindo a autoria à banda Lordose pra Leão. A eles se juntaram Serjão, Zé Renato, Rossini e Sandro Calcinha. Estava formada a banda.

As primeiras cobaias do Lordose, é claro, foram os próprios universitários. Os rapazes tocavam naquelas festinhas animadas que aconteciam nos corredores do Centro de Estudos Gerais (CEG) e nas dependências do CCJE (Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas), ou então naquelas sempre performáticas e concorridas festas do Centro de Artes.

O público aprovou, eles tomaram gosto pela coisa e a banda foi se organizando. A formação inicial não permaneceu, mas a irreverência sim. O som do Lordose ganhou mais e mais adeptos. Uns atraídos pelo seu lado hardcore, outros por sua faceta pop, outras ainda pelo resultado dessa mistura temperada com aquele trompete sempre providencial que é uma das marcas da banda. O Lordose lançou um CD, toca em tudo quanto é festival de rock e hoje faz parte do dream team das bandas de rock capixabas.

Outra, digamos assim... cria da Pedra do Ócio foi a Banda 2. Essa era voltada para um dos mais tradicionais ritmos do folclore capixaba – o congo. Neste caso, a empreitada começou com o maestro Jaceguay Lins e alunos de vários cursos da universidade, além de ex-alunos e pessoas que não eram matriculadas na Ufes, mas que tinham estreita ligação com a universidade ou com o congo.

Eles ensaiavam sempre na Pedra do Ócio, à noite. Era um show. As vozes de diferentes timbres, conduzidas com precisão pelo maestro Jaceguay, resultavam numa música muitas vezes emocionante, sem contar com o calor contagiante dos tambores de congo.

A Banda 2 também tocava sempre nos eventos da Ufes, inclusive em festas que depois iam ser embaladas por muito rock-and-roll. Nas festas folclóricas também era presença constante, ao lado das bandas de congo tradicionais. O grupo surgiu como uma forma de pesquisar o congo e incorporar a ele outros elementos. Era uma banda de congo de visual pop, por conta do estilo jovem de seus integrantes.

No repertório, clássicos entoados pelas bandas de congo, como “Iaiá” e “Ajuda Eu Tambor”, somadas a composições próprias da Banda 2, como “Iansã” e “Xangô”. Virou um grupo muito popular, que chegou a tocar em outros estados, mas infelizmente pereceu.

Paralelo a esse movimento que nasceu lá nas dependências da Ufes, outras bandas também participavam ativamente da vida universitária. É o caso da Inconfidentes Banguelas, que assim como o Lordose também surgiu investindo no rock besteirol.

As festas promovidas no campus também eram – aliás, são – palco para performances dos roqueiros capixabas., A extinta banda Os Gângsteres, por exemplo, era figurinha fácil no campus.

Hoje o ex-gângster Alexandre Lima comanda os vocais de rockongo Manimal, que também está sempre nos embalos da Ufes e em muitos, muitos outros por aí. O mesmo acontece com o Pé do Lixo e seu rock reciclado. Também já passaram por lá bandas como É (hoje Zé Maria) e Última Coisa, entre tantas outras.

Pelo visto, o campus verdinho da Ufes é um terreno mais que fértil para o crescimento de bandas de rock. Diante de tanta fartura na colheita, o público roqueiro agradece.

 

Fonte: Vitória de Todos os Ritmos – Música e Músicos Escritos de Vitória, 2000
Autora: Giovanna Santos - Jornalista
Compilação: Walter de Aguiar Filho, março/2012 

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