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Os Menos Lembrados - Por Elmo Elton

Capa do livro - Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória

Aquino Peidoré - Era biscateiro e cunhado de Mané Cocô. Negro xingador.

Rosa Pisa Macio - Tinha tal apelido porque andava como que pisando em ovos. Biscateiro.

Exu - Negro retinto, muito carrancudo. Carregador. Visto à noite, sempre metido em larga capa, com forro de seda vermelha, mais parecia a personificação do diabo. Usava tênis (pés-de-anjo) brancos. As crianças fugiam dele.

Pisei - Andava de olhos fechados, com a cara levantada para o alto, assim como as crianças brincam o jogo de amarelinha, daí a razão do apelido.

Quebra-pote - Muitos zombavam dele: - Quebra-pote, quebra pote! O negro retrucava: - Agora não é mais quebra-pote, é quebra-mãe.

Galo Velho - Branco, opilado, talvez descendente de imigrantes alemães ou italianos. Usava um bonezinho cáqui para esconder a calvície. Vendia limões e, porque já esclerosado, perdera a noção do tempo, batendo às portas das casas em altas horas da madrugada, exigindo, com insistência, lhe comprassem os limões trazidos do município de Domingos Martins, onde tinha parentes. Por isso mesmo, sofreu algumas detenções.

Zé das Vacas - Saía, todas as manhãs, pelas ruas centrais de Vitória, acompanhado de duas vacas nédias, cujo leite ele mesmo o retirava à vista dos fregueses. Finda a tarefa, ia para o botequim de sua propriedade, na esquina da rua do Oriente (hoje Barão de Itapemirim), dando frente para o Largo da Conceição, sendo o boteco frequentado, de preferência, por peroás da vizinha igreja do Rosário, ali se registrando discussões e brigas constantes entre tais fregueses, tudo em decorrência da extremada devoção a São Benedito. Zé das Vacas, o fornecedor de leite a domicilio, foi, de 1900 a 1915, figura das mais populares da cidade.

José Gurgunhanha - Morava na, hoje desaparecida, rua Dois de Dezembro, transversal à praça da antiga matriz, na cidade alta. Gostava de discursar, sempre gesticulando e xingando os conterrâneos, sendo tipo popular (preto) dos mais curiosos da cidade. Quando Nilo Peçanha, em campanha eleitoral para Presidente da República, isto em 1921, esteve em Vitória, José Gurgunhanha, dizendo-se seu particular amigo, passou a repetir, em altos brados, pelas ruas da cidade, que a presença de Nilo no Catete significaria "cacete duro na bunda dos porcos de Vitória". E fazia a estapafúrdia afirmativa apontando para este ou aquele cidadão, que lhe não fosse simpático, daí recebendo, em troca, bofetões e até surras dos ofendidos. Nilo Peçanha, quando meninote, foi aluno do Ateneu Provincial, em Vitória, época em que talvez houvesse conhecido Gurgunhanha, já que este sempre visto entre estudantes, com os quais gostava de expor suas "convicções políticas", ainda que sujeito à constante zombaria dos ouvintes.

 Pé-de-pato - Tinha pés avantajados, chatos, desproporcionais para seu tamanho. Foi carregador do, hoje extinto, Hotel Majestic.

Sapo Seco - Mulato, baixinho, "com olhos esbugalhados de sapo". Acompanhava, ainda que bêbado, todas as procissões de Vitória, deturpando, sempre com voz estridente, letra e música dos hinos religiosos.

Chico Maestro - Chamava-se Francisco de Oliveira Santana. Tinha a mania de dirigir orquestras. Tocava, quando moço, numa velha banda de sua terra (Piúma). Ficara com o hábito de marcar compasso de qualquer música que ouvisse. Trazia no bolso uma vareta que lhe servia de batuta. Irritava-se se a meninada o interrompia nessa atividade, mormente quando diante de lojas de discos ou à frente de alguma banda de música que passasse.

Américo Rosa - Residiu, durante anos seguidos, no bairro de Jucutuquara, em Vitória. Mulato. Malabarista, dançarino e declamador. Gostava de cantar (tinha voz agradável) com o rosto inclinado, apoiando-o sobre a mão esquerda, assim como se estivesse com dor de dente. Suas cantigas, muitas delas decoradas ouvindo a banda de música da Polícia Militar, quando esta se exibia no coreto do Parque Moscoso, tinham fundo folclórico. Os peixinhos do mar vão pra areia sambar era o início de composição muito cantada e assoviada por ele, com a qual despertava a admiração das crianças, já que sempre arrodeado delas. No ano seguinte ao de sua morte, ocorrida no Hospital Colônia Adauto Botelho (manicômio), os alunos da Escola de 1°- Grau Lizerina Lyrio, no morro da Fonte Grande, lhe prestaram carinhosa homenagem, todos fantasiados de "peixinho do mar", catando versos aprendidos com ele

. Américo Rosa repetia sempre, quando rejeitado por suas cortejadas:

- Mulher que dorme comigo amanhece cheirosa.

Era natural de Castelo (ES).

João Peitudo - Tipo falante, popularíssimo na Vitória do começo deste século, fundou, na rua do Sacramento, hoje desaparecida, o Clube Ninho das Ninfas, frequentado por pessoas de comportamento duvidoso, sobretudo prostitutas. Era embarcadiço. Faleceu antes de 1915.

Cambão - Chamava-se Eduardo. Negro xingador. Era visto, dia inteiro, no Mercado da Vila Rubim e arredores, mendigando. Morava em Argolas.

Alferes Antônio Aires de Aguiar - Gostava de proferir discursos, - autênticos bestialógicos. Certa vez, roubaram do Convento da Penha, construção erguida em outeiro, onde se venera a imagem da padroeira do Espírito Santo, peças de alto valor, sobretudo joias. O alferes fez disso tema para diversos de seus discursos, todos gritados em praça pública:

"Aproveitando a escuridão da noite escura, com mão sinistra e ideal, o ladrão roubou as mais auríferas joias do recôncavo inaudito do jardim da planície de Nossa Senhora da Penha.”

Eram assim, o mais disparatados possível, os pronunciamentos do alferes, autor, inclusive, de uma apologia do peido.

Emília Coruja - Mulher feíssima, de dentes cavalares, residiu, por muitos anos, na rua Cerqueira Lima, em infecto porão de casa quase defronte à rua das Flores. Durante o dia, pouco saía à rua, certamente para não ser vista pela meninada que lhe chamava coruja, mas, à noite, era encontrada nos becos e ruas escuras da cidade, amedrontando, com sua sinistra presença, os que menos a conheciam.

Jacob - Turco, sírio ou libanês, vendia bilhetes de loteria, metido em roupas amarfanhadas, surradíssimas, as unhas crescidas e sujas, os sapatos cambotas. Era de pele trigueira, cabelos crespos nunca aparados, o bigode tinto da nicotina dos cigarros, acendidos um após outro, todo ele uma figura a despertar curiosidade.

Nas ruas, os transeuntes paravam para ouvi-lo apregoando os bilhetes, a voz arrastada e rouquenha, mais parecendo um zumbido de besouro do que mesmo voz humana.

- Óia a barbuleta, a barbuleta em dezesseis; óia o leão em sessenta e dois. E o cabritini (cabra) pra hoje. É o baru (peru) e o bagurin (porco)...

 Os sírio-libaneses, chegados ao Espírito Santo, como imigrantes, no final do século passado, sem qualquer tradição no cultivo da terra, não foram encaminhados à lavoura, tal o foram os alemães, os italianos, os suíços, os poloneses, aqui aportados, mas se tornaram, logo, tanto em Vitória como em outros centros do Estado, vendedores ambulantes de quinquilharias, quando não de frutas (laranja e limão), depois passaram para o comércio de armarinhos, e, mais tarde, já então remediados em bens, começaram a faturar no alto comércio, como, também, em outros ramos de atividades, igualmente rendosas.

Dizem os mais idosos que Jacob, antes de apregoador de bilhetes lotéricos, fora mascate, vendendo, baú de flandres às costas, bugigangas pelo interior capixaba, mesmo em Vitória, repetindo, de porta em porta, a natureza de suas mercadorias:

- Penta, fita, tisoura, gulha, finete, olha de cabeia, perfuma, ispelha, carrité, cadarça. . . e tudo muita barata, baratinha, sinhora...

Jacob, ao contrário de tantos de seus patrícios, que se tornaram ricaços e poderosos, morreu pobre, paupérrimo, na década de 40.

João de Lúcio - Andava com uma farda velha da Polícia Militar, boné enfiado na cabeça grisalha. Costumava sair batendo lata com um ferrinho. Era seu tambor. Morava no Alto de Caratoíra, de onde pouco saía até a cidade, daí que sua popularidade se firmava apenas naquele local.

Inácio Cu de Fogo - Carregava lenha para armazéns e botequins da Vila Rubim, também para vendas de Caratoíra. Adultos e meninos, ao vê-lo, gritavam-lhe pelo apelido, recebendo em troca uma enxurrada de palavrões: Cu de fogo é a buceta de sua mãe.

Toco de Caminho - Preto retinto, grotesco, um nadinha de homem, vivia à toa, mendigando, no Alto de Caratoíra.

Maria Rasteirinha - Sifilítica e mendiga. Era vista, quase sempre, com uma criança (menina) no colo. Usava vestidos largos, muito sujos, sapatos cambotas, quando não de chinelas. A cabeleira, desgrenhada, era um ninho de piolhos. Mesmo assim, procuradíssima por desocupados do Alto de Caratoíra, com os quais mantinha sexo. Teria falecido antes de 1950.

Bernô - Alto e forte, passava o dia, mendigando, na Vila Rubim. Andava metido num saco de estopa, à guisa de paletó, despertando a curiosidade dos que por ele passavam.

Cagada de Pato - Chama-se Cipriano José Marques. Natural de Campina Grande, na Paraíba. Mora no Alto de Caratoíra. É visto, quase diariamente, no centro da cidade, fazendo ponto na Relojoaria Primo. Anda com uma bolsa a tira-colo, onde guarda "papéis importantíssimos" sempre candidato a cargos eletivos, como os de vereador e deputado estadual, embora não filiado a partido algum. Faz discursos, gesticulando, em pontos centrais da cidade, prometendo, caso eleito, corrigir coisas erradas na administração de Vitória.

Vivi - Colecionava autógrafos de moças bonitas, sobretudo estudantes, daí sempre visto nas imediações dos colégios. Como, em época de verão, algumas cidades capixabas são procuradas por famílias de outros Estados, costumava ir a essas cidades à cata de autógrafos de mocinhas veranistas. Conservava cadernos com mais de 8.000 assinaturas femininas, só femininas, porque colecionar autógrafos de  homens, dizia ele, não só dá câncer como compromete o meu bom conceito de rapaz sério". Residia no distrito de Itaquari (Cariacica),  tendo falecido em janeiro de 1983.

Concluindo

Estes os tipos populares que marcaram (ou ainda marcam) presença nas ruas de Vitória. Dário Derenzi, em seu citado livro de memórias, menciona outros: - Deixa que eu Chuto, Pé de Chumbo, Caveira Doida, Limpa Trilho, Espalha Basta, Bola Sete, Mil e Um, Arroz Agulha, Malhada, Pinto Doido, Labareda, Cabeça de Bandolim, Navalhada e Vento Sul, quando esses apelidos foram dados não a tipos rigorosamente populares da cidade, mas quase sempre, salvo uma ou outra exceção, a pessoas de temperamento extrovertido, brincalhão, quando não a portadores de algum cacoete ou defeito físico.

O certo é que os tipos focalizados neste volume são, exatamente, os que permanecem na lembrança do povo, pelo que representaram (ou ainda representam) de graça, extravagância ou exotismo, retratado cada um dentro de seu próprio desajuste social ou psíquico.

Finalmente, um levantamento despretensioso e honesto, - despretensioso pela natureza do tema que lhe dá título e honesto porque  escrito sem qualquer ficcionismo, já que todo ele resultante de pacientes pesquisas, - este ora entregue à benévola apreciação do leitor.

 

 

Fonte: Velhos Templos e Tipos Populares de Vitória - 2014
Autor: Elmo Elton
Compilação: Walter Aguiar Filho, fevereiro/2019

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