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Os nomes de ruas do bairro São Pedro – Por Geert A. Banck

Grito do Ipiranga - Independência do Brasil, 1888

Em fevereiro de 1977, logo após o Carnaval, ocasião em que uma ressaca coletiva ataca tanto as autoridades como a polícia, um grupo de cerca de 35 famílias invadiu um manguezal à margem do canal norte de Vitória. Foi o início de um processo de ocupação que hoje se estende por alguns quilômetros às margens do canal, constituindo a Grande São Pedro um conjunto de favelas com cerca de trinta mil habitantes.

A primeira ocupação, chamada São Pedro I, foi relativamente bem organizada. Demarcaram-se ruas principais com doze metros de largura, e vários lotes foram reservados, dentre outras finalidades, para a escola e centro comunitário. Sua liderança se inspirava na teologia da libertação e as discussões políticas eram também influenciadas pelo debate teórico a respeito dos movimentos sociais urbanos, com base, em especial, nas reflexões expostas por Manuel Castells em obras como A Questão Urbana, entre outras. Dava-se grande ênfase à ação política autônoma e à cultura política local. Isso se expressava sobretudo através de uma firme atitude contra o poder e, o que é mais relevante para a nossa análise, de uma luta sem trégua e, o que é mais relevante para nossa análise, de uma luta sem trégua contra o clientelismo político. O que não significa que todas as relações com os políticos de fora tivessem sido cortadas. Em 4 de setembro de 1977, seis meses apenas após a ocupação, o governador e o prefeito (nomeado pelo governador) visitaram São Pedro, reconheceram sua condição de bairro, e “deram” energia elétrica à população. Depois de lembrar cordialmente aos moradores que era candidato a senador, o prefeito também “deu” seu nome à rua principal que dava acesso ao bairro, descerrando uma linda placa.

Essa presença física simbólica não durou muito e, de qualquer forma, tendo brigado com o governador, o prefeito perdeu o cargo logo depois. O movimento, porém, estava envolvido. Um de seus métodos de consolidar uma cultura ou uma identidade comunitárias era usar os nomes de rua para formar uma memória coletiva – naturalmente dentro de um padrão anticlientelista. Assim, o nome do prefeito foi substituído, e a rua chama-se agora Quatro de Setembro, em lembrança do reconhecimento do bairro pelas autoridades. Outras ruas receberam nomes em função de referências locais. Uma delas recebeu o nome de um morador que morreu de ataque cardíaco durante o confronto com a polícia, e o nome da rua do Acordo remete ao debate sobre a escolha da área onde seria construída a escola, o que foi decidido pacificamente mediante entendimento. Ainda outros nomes referem-se à perspectiva de um bom lugar para morar: rua da Esperança, rua da Bela Vista. Muito interessante é o caso da rua do Grito, uma inversão política da liderança comunitária, o povo foi sempre oprimido, mas agora chegava  a hora da “nossa” independência, do “nosso” grito: do “grito do povo”. O termo não foi usado apenas como nome de rua, mas também nas células de votação do movimento. Além disso, Grito do Povo foi nome dado inicialmente à escola recém-construída, que se tentou administra com a gente da própria favela (cf. BANCH e DOIMO, 1989). Em 1983, o movimento entrou em atrito com o novo prefeito porque seus líderes tinham apoiado outro partido de esquerda. O prefeito cooptou alguns líderes por meio da oferta de empregos e outros benefícios, invocou fórmulas burocráticas para substituir o corpo docente local de professores municipais e, por fim, a escola recebeu o nome de um dos mais famosos líderes populistas-clientelistas da década de 60, Francisco Lacerda de Aguiar.

Esse exemplo serve para demonstrar como simples ato de dar nome a ruas ou outros logradouros urbanos pode ser um ato de conflito político e ideológico, de opiniões divergentes sobre a maneira de dar significado ao espaço urbano. Juntamente com o primeiro exemplo, espero que este também revele a importância de se olhar mais perto aquilo que, à primeira vista, parece ser apenas uma espécie de cenário inconsciente do dia-a-dia.

 

Autor: Geert A. Banck
Fonte: Dilemas e Símbolos – Estudos sobre a cultura política do Espírito Santo, 2ª Edição – 2011
Compilação: Walter de Aguiar Filho, fevereiro/2014  

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