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Os subterrâneos do Colégio dos Jesuítas

Prédio da Alfaiataria Guanabara, local da suposta saída do túnel que ligava o subterrâneo do Colégio dos Jesuítas ao cais

Esta nossa cidade-presépio tem mistérios ainda não desvendados.

Um deles é o dos subterrâneos que os jesuítas teriam construído, no seu colégio, depois próprio da Coroa Portuguesa, e hoje Palácio Anchieta, cuja história foi levantada, entre outros, por Luiz Derenzi e Placidino Passos.

No primeiro trimestre de 1944, alheia a cidade às agruras da Segunda Guerra Mundial no jornal A Tribuna os logógrafos locais se debruçaram sobre o tema, produzindo cinco artigos sobre o assunto, a saber: Subterrâneo do palácio (Assis, F. Eujênio, 23-01-44), Os subterrâneos do palácio (Oliveira, Adolfo F. R. de, 05-02-44), Os subterrâneos do palácio (Assis, F. Eujênio, 26 e 29-02-44), Os subterrâneos e os pitorescos episódios (Coelho, João Nunes, 01-03-44).

Em seu primeiro artigo, Assis admite a existência de um único subterrâneo, como se verifica no próprio título, e o considera como meio de defesa dos padres contra ataques de índios e de invasores estrangeiros.

Após a expulsão pombalina, o colégio fora ocupado pelo governo português, e adquirido, em 1901, pelo governo do Estado. Para desenvolver seu tema, Assis se baseia numa planta elaborada pelo desenhista Joel da Escossia, em maio de 1934, e levanta a hipótese de que no “pátio e jardinado” é que estaria a entrada do túnel, consoante referência verbal que lhe fizera o construtor André Carloni, ao qual tanto deve a cidade de Vitória.

Segundo Carloni, quando da reforma do edifício, em 1908, fechou ele uma grande abertura com muitos metros de profundidade. Ainda segundo Carloni, quando na mesma época, ao lado do palácio, construía-se a Escola Normal “Pedro II”, cortou ele as passagens desse túnel que era revestido de tijolos e pedras, tendo a abertura servido para canalização de águas de esgoto. Ainda segundo o mesmo informante, a saída do túnel era por baixo da casa do comerciante João Dalmácio Coutinho, no Porto dos Padres. O empreiteiro tentou acesso à galeria, mas foi impedido pelos insetos, morcegos e pela escuridão.

O artigo de Assis provocou imediata réplica do professor Adolfo de Oliveira, que afirmava a existência de quatro túneis saindo do palácio.

O primeiro foi usado pelo construtor Justin Norbert, em 1900, para os citados esgotos da Escola Normal e terminava embaixo da casa de Emílio Coutinho (e não João Dalmácio, referido por Assis). A saída era fechada por uma grade de ferro.

O segundo levava a uma casa existente na cidade baixa, próxima ao cais, de propriedade dos Jesuítas, onde, reedificada, estava, em 1944, a Alfaiataria Guanabara, e onde estão hoje as Casas Pernambucanas. Tratava-se, com certeza, de um armazém, que, depois da expulsão, foi vendido a um tal Falcão de Gouveia, que também arrematou a fazenda Araçatiba.

O terceiro ficava na rua Nestor Gomes, abaixo do jardim do Palácio, disfarçado em fonte, e com as entradas laterais tapadas com telas de arame. Levava, talvez, ao Convento do Carmo ou à catedral, antiga matriz. Esta fonte ainda existe, com as esculturas em cimento de Aldomário Pinto.

O quarto se dirigia ao cais ou ao Convento de São Francisco, pela rua Francisco Araújo, antiga rua do Egito. O professor Adolfo conta por conhecimento próprio que na pavimentação da rua um operário encontrou uma construção de alvenaria de pedra e o engenheiro João Maia mandou que ele procurasse abertura por outro ponto, abandonando aquele. O professor diz que viu, no Convento de São Francisco, a entrada obstruída desse subterrâneo. Segundo a lenda, quem entrasse nos túneis morreria, pois os jesuítas haviam colocado neles diversas armadilhas, dizendo; “quem escapar do laço, não escapará do cutelo; quem desse escapar, não escapará do mundéu que os há de esmagar!”

Nos artigos subsequentes, Assis passa a defender a existência de apenas dois túneis, nos quais, segundo ele, fora escondido o ouro dos jesuítas, mas sua argumentação não convence. A mim me parece que, à luz do seu conhecimento pessoal de nonagenário, assistia razão ao professor Adolfo de Oliveira.

Citado nominalmente, o Doutor João Nunes não se fez de rogado, mas não acrescenta muito ao que se dissera. Conta caso relativo a peroás e caramurus, a célebre luta beneditina vitoriense do século passado, e, quanto ao túnel, diz que nele entrou por vinte ou trinta metros, não prosseguindo por medo.

Esta pequenina notícia serve para alertar os arqueólogos que vão reconstruir o palácio Anchieta: não seria o momento oportuno para reexaminar a questão dos subterrâneos que, sem sombra de dúvida, ligaram o colégio, na cidade alta, à beira-mar, na cidade baixa?

 

 

Autor: Renato Pacheco
Fonte: Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Nº 50, ano 1998
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro/2013 



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