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Paisagens da Ilha do Mel - Por Maria Isabel Perini Muniz

Título da Obra: O fusca a Assembléia, Técnica: água forte, 1994 - Artista: Iliamara Cardoso

A paisagem vista e interpretada através da arte nos mostra aspectos que se escondem do nosso olhar descuidado e muitas vezes indiferente. Transeuntes imersos em pequenos problemas internos e domésticos, não alcançamos a linguagem dos espaços da cidade. Conscientes dessas limitações e buscando traçar algumas linhas da configuração urbana de Vitória, nos reportamos ao trabalho de um grupo de artistas. As mensagens porém nem sempre são imediatas e o receptor interfere na multiperspectiva, observando e interpretando as imagens visuais segundo sua ótica de vida.

Decodificar a paisagem transcrita em arte, transformá-la em linguagem escrita, aprender a ler a imagem gráfica, que vai além do real para o âmbito do virtual, consiste em desafio ao nosso cotidiano. Para tanto, visualizamos a paisagem de Vitória através dos olhos de artistas e escolhemos exemplos representativos da obra dos gravadores do Grupo Varal, colocada à mostra nas exposições “O que se vê, o que se sonha”, durante o ano de 1994. Os artistas, desenvolvendo a sensibilidade e reconstruindo a paisagem de Vitória, fazem uma leitura não-verbal do espaço visual e virtual. As construções, as formas, as linhas e a vida das pessoas recriam a arquitetura, o espaço e os fragmentos inusitados da cidade. Formas, linhas e cores ganham vida, falam do passado e do presente e mostram aspectos escondidos no íntimo dos espaços visíveis e invisíveis da paisagem.

Embora possamos reproduzir aqui apenas alguns exemplos de suas obras, cabe citar o nome dos artistas do Varal e permanece o convite para as exposições periódicas de arte nos espaços das galerias da cidade. Mesmo porque, por mais fiel que seja, uma reprodução jamais será substitutiva do original. Lembramos, então, algumas palavras da apresentação de Tereza Norma Borges de Oliveira Tommasi:

“Andressa Sily, Edelza Flor, Célia Ribeiro, Iliamara Cardoso, José Gomes, Joyce Brandão, Marcio Luiz dos Santos, Maria das Graças Rangel, Natália Branco, Nilza Souza, Raquel Baelles, Samira Margotto, Sandra Gabler, Yara Mattos, Virginia Collistet de Araújo. São quinze artistas plásticos. São quinze poetas músicos. São quinze mentes e corações ligados por uma paixão e um ideal em comum – A GRAVURA EM METAL. Juntos desde 1993, trabalham incessantemente curvados sobre placas e prensas em seu ateliê de Gravura em Metal no Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo.

Assim a orquestra de gravadores – poetas – músicos gravam e reproduzem imagens-palavras: Catedral, São Tiago, Assembléia, Maçonaria, Thiers Veloso, Florentino Avidos, Santo Antônio, São Francisco, Sobre Loja, Santa Luzia, Escadaria São Diogo, Carlos Gomes, Fachadas, Cenário da Vida, Viaduto Caramuru, Relógio da Praça Oito, Vila Nossa Senhora da Vitória – 1550/1770, e constroem o grande   em louvor a Vitória, capital do Espírito Santo – “O que se vê, o que se sonha”. Visões banais e rotineiras, de uma cidade, que atravessam os tempos e formam um conjunto harmônico alegórico que faz disparar nossas emoções.

Parabéns Vitória.”

Como integrante do Varal, a artista plástica Samira Margotto também se expressa por palavras para apresentar, por ocasião das exposições, o pensamento imerso na arte do Grupo Varal. Reproduzimos aqui partes dos seus escritos:

“Existe um profundo sentimento de perda quando nos deparamos com as marcas que o progresso insere no espaço urbano: grandes edifícios sendo erguidos ao lado ou no local onde antes repousava quieta a arquitetura antiga.

Tentar conter esse fluxo é resistir em vão, mesmo porque existe uma certa beleza no meio desse caos. A epopéia do progresso acaba por conferir uma dignidade peculiar e autêntica às ruínas.

Não foi objetivo do grupo recriar cópias fidedignas dos monumentos escolhidos, ao contrário, essência deste trabalho consistiu justamente na total liberdade de expressão de cada um.

“O que se vê, o que se sonha” é uma excelente oportunidade para olhar Vitória através das lentes apuradas e por vezes críticas dos quinze gravadores do Grupo Varal.”

Na oportunidade de ler e interpretar a paisagem de Vitória através da arte, transcrevemos a nossa própria apresentação para a exposição de arte do grupo. São passagens da análise feita no primeiro impacto de emoção, ocasionado pelo trabalho dos artistas:

“Ver, sonhar, sentir e participar do espaço da cidade, através das imagens na arte do Grupo Varal, é ir além das revelações da matéria, e transportar a imaginação para o âmbito das lembranças perdidas, para o devaneio que transcende o cotidiano. E o sonho se aprofunda em visões de uma cidade que se transforma no dia-a-dia perdendo e ganhando formas, refletindo o consciente e o inconsciente de uma arquitetura que se traduz em imagens livres e em diferentes símbolos autônomos.

As transformações da cidade através dos tempos apagaram partes de sua história e escondem o passado. Restam a memória e o sonho. Restabelecidas pela sensibilidade dos artistas, as imagens da arquitetura nos transportam ao mergulho na liberdade de um mundo de volumes, formas, linhas, cores e personagens de um teatro de vida, em tempo indefinível.

O que se vê e o que se sonha do conjunto arquitetônico de Vitória aparecem aqui revelados. Os espaços reais e virtuais da cidade foram descobertos e gravados na memória do papel. Percebidos, descobertos e denunciados os monumentos, as paisagens e os detalhes interpretados por cada um, em sua individualidade, mostram aspectos singulares que significam para o espectador ir além do real, chegar aos labirintos das indagações e das vivências pessoais, buscar o seu próprio espaço interior.

Participando e transmitindo aos que apreciam a arte, as vivências pessoais dos artistas são gravadas com apuradas técnicas de gravura em metal, tais como: ponta seca, buril, água forte, água tinta, maneira negra, entre outros. Fazer ver e fazer sonhar, traduzindo como formas sentidas, observadas e imaginadas do entorno, dos monumentos, dos detalhes e dos contrastes dessa arquitetura que é parte da vida de todos nós, são propostas da arte do Grupo Varal, onde encontramos pedaços de Vitória, que nos sensibilizam e nos fazem repensar o âmbito da paisagem, desde seus mais amplos monumentos até os pormenores que compõem o mosaico da arquitetura da cidade.

A arte, como doadora de imagens, sonhos e vivências, nos leva a participar nos devaneios dos artistas e a buscar no nosso interior os sentimentos mais profundos simbolizados por fragmentos dos espaços construídos. Neste sentido, a inspiração do que se vê e do que se sonha, transformada em arte pela sensibilidade do Grupo Varal, chega até nós para participação e enriquecimento do nosso cotidiano na cidade”.

A paisagem toma forma por linhas, tons, texturas, cores e pela ação das pessoas. Fazendo parte da nossa vida também leva as marcar do tempo. Vitória, a cidade construída pelos portugueses, de costas para o mar, com as principais igrejas situadas no alto da primeira colina, é recriada no dia-a-dia por demolições, reformas e novas edificações. O passar do tempo, os novos pensamentos, a necessidade de novas moradias, as atividades comerciais e demais imposições do progresso transformam a paisagem.

As imagens da cidade, recortadas e representadas pelos artistas em sua pluralidade, nos mostram ora a amplidão do infinito, ora dos detalhes inusitados. A Ilha do Mel, fragmentada e recriada, com seus principais monumentos e marcos da paisagem natural, a catedral implantada no espaço deixado pela antiga matriz colonial, a igreja de São Tiago totalmente transformada, mas lembrada por suas torres, o edifício Domingos Martins que tomou o lugar da igreja da Misericórdia, nos transmitem imagens do passado ainda presentes em nossa memória e na nossa história.

Além das figuras apresentadas podemos ler outras mensagens sensíveis. O diálogo entre o presente e o passado nos traços deixados no conjunto arquitetônico. A procura das raízes culturais perdidas ou esquecidas no tempo, algumas indesejadas, que nos fazem órfãos do passado. O desafio de indagar sobre o futuro ou, ainda, a faceirice de representar imagens escondidas. A sensibilidade dos artistas a brincar e a induzir o espectador a interpretar a seu modo a paisagem da cidade.

Permanece o convite para fruirmos juntos esta aventura de sonhar, sentir, participar e ver a paisagem da cidade de Vitória.

 

Fonte: Escritos de Vitória, 1995, Paisagens
Autor: Maria Isabel Perini Muniz
Compilação: Walter de Aguiar Filho, janeiro de 2014



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